Projetos interculturais na escola

Projetos Interculturais na escola – reflexão e ação no coletivo é o novo livro da coleção Canteiro de Obras, editada em parceria entre o Selo Emília e a Solisluna Editora, que chegará em breve às livrarias. 

Mylene Santiago e Abdeljalil Akkari são os autores, experientes professores e pesquisadores. Ela é pedagoga com mestrado e doutorado em Educação, professora do Departamento de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ele é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, onde atua como professor e da qual foi diretor. 

A obra propõe diálogo com as diferenças e construção coletiva de projetos interculturais, considerando os inúmeros contextos escolares, resultantes das comunidades locais e diversidades regionais e culturais. Conversamos com a Profa. Mylene sobre as motivações para o livro e os debates que ele propõe.
 

Por uma escola plural e diversa – Entrevista realizada por Priscilla Brossi

Priscilla Brossi – Como surgiu a ideia para o livro?

Mylene Santiago – Desde 2010 eu e professor Akkari temos estudado questões referentes à gestão da diversidade na educação brasileira. Há muitas iniciativas políticas e curriculares voltadas para a questão. Cito alguns exemplos: o tema transversal pluralidade cultural publicado em 1997, juntamente com os Parâmetros Curriculares Nacionais; a Lei 10.639/2003 que altera a LDB, tornando obrigatório a presença da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” na rede de ensino e, posteriormente, a Lei 10.645/2008, que  torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio; mais recentemente, a política de cotas universitárias (Lei 12.711, de 2012), entre outras iniciativas.

Em nossos estudos, formações e conversas com professoras/es de diferentes estados brasileiros, constatamos que nem sempre as políticas curriculares são acessíveis, ou que muitas vezes a efetivação de tais propostas curriculares se restringem às efemérides, sem de fato resultar em uma transformação política e crítica sobre diferentes identidades, que no contexto de nosso país, desde o processo colonizador, tem resultado em desigualdades sociais e educacionais. Tais problemáticas conduziram nossas motivações na construção de um livro que propõe diálogo com as diferenças e construção coletiva de projetos interculturais, considerando os inúmeros contextos escolares, resultantes das comunidades locais e diversidades regionais e culturais.

PB – No contexto contemporâneo e diante de transformações promovidas pelas tecnologias digitais e a IA, como vocês veem o papel da escola? 

MS – As tecnologias digitais e a inteligência artificial evocam importantes transformações em relação aos saberes-fazeres docentes. Não há como negar que precisamos criar novas respostas aos avanços tecnológicos, compreendê-los como aliados ao processo de ensino-aprendizagem, que acontece com a necessária mediação e relação professor/a – estudante. Novas indagações e desafios surgem. Certamente, tais avanços tecnológicos têm marcante influência na cultura escolar. Compreender e acolher as novas dinâmicas educacionais, que surgem com as tecnologias é uma tarefa que envolve a forma como lidamos com a diversidade humana, pluralidade de crenças e valores, e, sobretudo, com as mudanças que precisamos assumir para construir uma escola responsiva às demandas das novas gerações cada vez mais imersas no mundo tecnológico.

PB – Qual a importância de se discutir projetos interculturais nas escolas hoje? 

MS – A Conferência Nacional de Educação, realizada em janeiro, destacava como um de seus eixos “Educação, direitos humanos, inclusão e diversidade: equidade e justiça social na garantia do direito à educação para todos e combate às diferentes e novas formas de desigualdade, discriminação e violência”. Tal eixo aborda plenamente a importância de discutir e efetivar projetos interculturais em nossas escolas. Uma escola democrática é caminho para a construção de uma sociedade democrática, que viabiliza a participação e cidadania a todas/os atores sociais, independente de suas diferenças. Somente através de projetos interculturais, que permitam diálogos, convivência, reconhecimento com o outro, é que alcançamos a superação de desigualdades, discriminação e violência. Tais projetos precisam ser constituídos de forma coletiva, com a participação da maior diversidade possível dos diferentes grupos existentes no contexto educacional, pois se tratam de propostas que envolvem mudanças radicais nas culturas, políticas e práticas educacionais, no sentido de vivenciar e instituir práticas democráticas, que alcançarão transformações sociais urgentes e necessárias.

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