Perder a cabeça: do estereótipo ao desvio

Pode parecer um paradoxo iniciar uma reflexão sobre o estereótipo na literatura infantil a partir de uma frase feita, cristalizada, um clichê. “Perder a cabeça” é uma dessas metáforas da fala cotidiana que, junto com tantas outras, revela a potência e a assiduidade do sentido figurado na língua popular. “Perder um pouco a cabeça” não implica, aqui, perder supostas composturas, nem brigar esterilmente nem com as linguagens e com as estéticas. Neste caso, o olhar de estranhamento e o ajuste ao literal despojam a metáfora “morta” de seu significado habitual, fazem com que ela reviva e a reposicionam em uma outra esfera de meu interesse: a de chacoalhar as inércias de significados unívocos e explorar a fronteira porosa e dialética entre estereótipos e desvios, quando se trata de arte e, particularmente, da literatura infantil.

A pergunta pelo estereótipo pode se transformar em um apelo produtivo sobre problemas da literatura infantil, como a tensão entre o que permanece e o que muda que deriva do fato de se considerar o estereótipo e a transgressão em sua dimensão histórica, a relação do mercado editorial com o estereótipo como argumento de venda, de modo mais ou menos explícito ou seu contrário: o afastamento consequente de todo lugar comum, a questão do estereótipo e a recepção por parte dos leitores infantis etc., todos temas que merecem um cuidado maior que o deste artigo, que propõe uma mera aproximação de alguns deles, à espera de intercâmbios e futuras aproximações.

Em diversos estudos críticos sobre essa literatura é mais frequente encontrar questionamentos sobre as representações ficcionais de determinados estereótipos sociais do que como estes operam nas poéticas da linguagem escrita, da imagem ou da edição. A atenção especial pelos estereótipos sociais, por exemplo, pela discriminação de gênero e o sexismo nos livros infantis, entre outras questões ligadas aos estereótipos, revela uma tendência a privilegiar o tratamento de problemáticas de índole social e cultural em algumas analises e não tanto sua relação com as retóricas e estéticas escolhidas para pôr em cena a ficção, para além dos problemas ligados à recepção por parte dos leitores. Com relação a isso, o reconhecimento dos estereótipos no ato de ler mostra que o uso de estereótipos implica uma relação intertextual, uma vez que para reconhecer uma frase muitas vezes reiterada ou uma imagem que cai no lugar comum, é necessário conhecer antes de tudo o objeto, a ideia, o estilo que se manifesta de modo recorrente e cristalizado.1Anne Herschberg Pierrot; Ruth Amossy, Estereotipos y clichês. Colección Enciclopedia Semiologica. Buenos Aires: Eudeba, 2001, pp.77-91.

No caso particular dos leitores infantis que, na maioria dos casos inauguram boa parte de sua relação com a arte literária e visual através da literatura para crianças, cabe a pergunta sobre a questão da recepção e do reconhecimento dos estereótipos nos livros com os quais eles têm contato na infância. A relação inaugural e simultânea, tanto com o que tende a reiterar esquemas e imagens, como com o que procura desviar-se de convenções fixas e modelos pré-fabricados, aumenta a importância do compromisso artístico e das buscas renovadas por parte do amplo espectro de produtores e mediadores próprios da literatura infantil. Ajudar a conformar nas cabeças dos leitores uma “diversoteca” estética, onde desde a primeira infância se multipliquem diferentes visões, linguagens e modos de representar o mundo nos livros que as crianças leem, é a maneira de pôr em xeque o aspecto mais conservador do estereótipo: o da captura e acomodação de modelos estanques de representação.

Por outro lado, considerar a dimensão estética dos diversos estereótipos e contextualizá-los historicamente permite ver a dialética produtiva entre conservação e mudança e não cair na simplificação de desconsiderar ligeiramente certos vícios estéticos a partir de ópticas maniqueístas, que julgam positivamente ou negativamente sem se aprofundar sobre os modos textuais e as resoluções plásticas e icônicas de que se valem os estereótipos. O perigo da redução aos juízos de “bom e mau” – tão usuais nas valorações express da literatura infantil – é deixar de fora aproximações mais ricas das diversas condições da textualidade e, em relação à recepção, perder-se a potencialidade de ver de perto os encontros híbridos e impuros, característicos das experiências reais dos bons leitores infantis com os livros.

A consideração histórica do estereótipo pode se tornar particularmente visível ao considerar alguns dos procedimentos da paródia. Uma das características dos textos parodiados é revisitar, reler o conhecido, o reconhecível já consolidado numa tradição, numa linguagem, numa retórica e, portanto, suscetível de ser parodiado. Muitas vezes, o que se parodia, sobretudo na literatura infantil, é justamente o estereótipo, já que se supõe que é uma ideia recebida que faz parte do capital cultural de uma grande maioria e, portanto, tem mais chances de ser detectada. No caso dos contos clássicos, as oposições entre o bem e o mal ou entre a vítima e o algoz, que, em determinadas versões posteriores às originais terminam caindo no estereótipo, são parodiadas por meio da inversão, como é o caso dos tão revisitados Chapeuzinho Vermelho e o lobo que, nas versões parodiadas, (com maior ou menor originalidade), costumam aparecer com seus papeis trocados. Seja como for, cabe esclarecer que a ação renovadora e questionadora da paródia, quando levada ao limite, como acontece com certa moda de tratar parodicamente os contos clássicos, pode resultar no seu oposto e transformar-se, ela mesma, em um estereótipo. Será necessário, nesses casos uma paródia que parodio às parodias estereotipadas?

Uma forma mais sutil da paródia em relação a determinadas manifestações do estereótipo é a que usa David Weisner no livro Os três porquinhos2David Weisner, Los três cerditos. Barcelona: Editora Juventud, 2003.. Por um lado, a oposição, antes mencionada, entre vítimas e vitimados, não se reduz ao banal recurso de inversão, mas utiliza procedimento metaficcional para resolver o conflito. Tanto os famosos três porquinhos como depois dois outros personagens de outras histórias (um gato, um dragão) fogem da situação de vítima, à que suas respectivas ficções os haviam condenado, através da fuga desse plano a outro fora da história.

Porquinhos-escapar

Estratégia extremamente original “para perder a cabeça”, tanto por parte dos porquinhos como de Weisner. Um dos resultados mais interessantes é quando, na grande fuga, ousada, tanto na ficção como na retórica eleita para relatar por meio de imagens e palavras, vão sendo exploradas as outras ficções nas quais encontram seus amigos que, por sua vez, são ajudados a se afastar do perigo. O primeiro encontro é com uma ficção que poderia considerar-se a quintessência do estereótipo, tanto ao nível do texto escrito, como da imagem.

Porquinhos-violino
Porquinhos-risos

Trata-se de alguns versos rimados sem graça que encontram uma redundante interpretação mimética num tipo de estética típica dos livros comerciais. Os porquinhos, ao entrar nesse plano ficcional, ficam pateticamente capturados por essa estética que os leva a desejar sair rapidamente dali: “Vamos embora daqui!”, diz um deles enquanto começavam a fugir e, ao fazê-lo, retomam o estilo de representação hiper-realista que os caracteriza na travessia fora das ficções. Soma-se à fuga e à metamorfose hiper-realista um dos personagens da ficção estereotipada: “o gato violinista”.

Que uma estética, nesse caso a estereotipada, seja considerada parodicamente como vítima é uma das subversivas maneiras com que Weisner se relaciona com as tradições e as linguagens mais transitadas da literatura infantil.

Ainda que uma das características centrais do estereótipo seja a repetição (a origem do termo está ligada a técnicas de impressão relacionadas à possibilidade de produzir cópias), isso não quer dizer que toda repetição, necessariamente, culmine numa expressão estereotipada. A literatura infantil, sobretudo por sua origem no folclore e por sua proximidade tão forte com diferentes manifestações da oralidade, costuma usar a repetição como uma constante de suas retóricas da palavras e da imagem. Reiterar sons, fórmulas, esquemas convencionais de relatos e de gêneros ou procedimentos plásticos já usados em outros tempos e lugares, não tem por que ser, necessariamente, sinônimo da cristalização desses recursos.

A busca por poéticas do desvio não passa pela atitude extrema de romper com todos os modos instituídos de aproximação aos mundos representados e às linguagens utilizadas para realizá-lo. Muitas vezes, as repetições ou a recorrência a esquemas conhecidos são apoios possíveis para empreender voos diferentes. A relação entre o conhecido e o desconhecido convida os leitores a serem ativos participantes da arte, além de não deixá-los de fora por meio de aventuras ininteligíveis. Por exemplo, o cruzamento entre o poético e o formato tradicional de livros que iniciam o vínculo com os números e as letras podem se transformar numa oportunidade de revitalização poética de uma fórmula esquemática.

Que em Numeralia, de Jorge Luján e Isol,3Jorge Luján e Isol, Numeralia. Colección Los especiales de A la orilla del viento. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 2007. o “5” seja “para os habitantes secretos das luvas” e o “8” seja “para que se deslize a areia das horas”.

Numeralia
Numeralia

É uma maneira mais leve das crianças se encontrarem com a série de números do 1 ao 10. O olhar poético sempre é um feliz aliado dos desvios que aproximam.

Outro aspecto vinculado à repetição, na trajetória dos escritores, ilustradores e editores, a recorrência diante de determinadas opções no uso dos recursos poéticos ou visuais, supõe em alguns casos a conformação de uma identidade reconhecível. O contrário também é certo, ainda que menos frequente no âmbito da literatura infantil: aqueles artistas e editores consequentes em evitar a reiteração em sua própria trajetória e que insistem permanentemente em se renovar.

A atitude de escuta e alerta diante da dialética entre o estereótipo e o desvio pode ser um incentivo que convide a sair dos modelos prefixados. Os caminhos trilhados não só anestesiam para quem participa do processo artístico como fazedores ou receptores, como também tendem, com muita facilidade, a se transformar em traços unívocos e monólogicos que obstruem a implantação da diversidade de vozes e estéticas e a busca minuciosa do próprio caminho.

Tradução Thais Albieri

Notas

  • 1
    Anne Herschberg Pierrot; Ruth Amossy, Estereotipos y clichês. Colección Enciclopedia Semiologica. Buenos Aires: Eudeba, 2001, pp.77-91. ↩︎
  • 2
    David Weisner, Los três cerditos. Barcelona: Editora Juventud, 2003. ↩︎
  • 3
    Jorge Luján e Isol, Numeralia. Colección Los especiales de A la orilla del viento. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 2007. ↩︎

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Autor

  • Cecilia Bajour

    Nasceu na Argentina, é crítica literária de livros para crianças e jovens, com expressiva atuação na formação de professores e mediadores de leitura. Autora de vários livros, escreve assiduamente em publicações especializadas em literatura infantil, promoção de leitura, educação e bibliotecas em diferentes mídias em toda a América Latina. Membro da Rede de Apoio Emilia.

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