Ler o céu

É uma noite sem lua; estamos deitados em cangas. A cena é um luxo: o imenso mar Egeu e o céu estrelado. À nossa frente, um barco iluminado; há homens pescando com lamparinas. Ouvem-se ondas subindo e quebrando, os sapos coaxando no rio próximo. Ao longe, há um rapaz cantando e tocando violão:

… όλο το νησί ένα βότσαλο στα πόδια σου

ολόκληρη η γη η δική σου αγκαλιά

A ilha inteira, um seixo aos seus pés,

toda a terra seu abraço

Vasiliki nos ensina a nos orientar no mapa do céu, a encontrar as constelações, a ir de uma a outra e, pouco a pouco, montar o quebra-cabeça. Para cada constelação, ela conta o que diz a mitologia grega, uma dessas histórias que os seres humanos transmitem há milênios. A da ninfa Calisto, que Zeus transformou em ursa para que escapasse do ciúmes de Hera, sua esposa. E a do filho de Calisto, Arcas, que logo se tornou caçador e também urso para não cometer matricídio. Ambos, colocados no céu, giram em torno do polo Norte sem nunca se esconder embaixo do mar. Ou a história de Hera, ela de novo, a quem Zeus pediu para amamentar Héracles, filho de um adultério, prometendo que seria o último filho que teria fora do casamento. Héracles, ao mamar, morde o seio de Hera, que separa a criança de seu seio, e o leite dá forma à Via Láctea. Ou a de Orfeu, cuja cabeça e lira encalharam na ilha onde nos encontramos.

            Lembro da ópera de Gluck coreografada por Pina Bausch, do silêncio extremo dos espectadores quando Orfeu avançava na frente de Eurídice. Apesar de todos conhecermos a história, cada um dizia a Orfeu no fundo do seu coração: “Não se vire!” Mas agora é da constelação do Cisne que nos fala Vasiliki, aquele cisne no qual Zeus se metamorfoseou para se refugiar nos braços de Leda, por quem estava apaixonado, fingindo fugir de uma águia. E me vinham lembranças de mosaicos e pinturas que representam seus abraços. E são tantas as histórias que transformam o céu.

            Ao longe, o rapaz continua cantando. Por acaso, ele também evoca uma dessas deusas e deuses fantásticos, mais leves que os Cristos na cruz.

Νέκταρ θεϊκό πίνω αχόρταγα απ’ τα χείλη σου

ζηλεύει η Αφροδίτη που χεις τόση ομορφιά

Em seus lábios bebo um néctar divino,

Afrodite está com ciúmes por você ter tanta beleza

            Passam aviões, cinco ou seis satélites, estrelas cadentes… Passam-se duas horas que não vemos passar. Levantamos como depois de um sonho. “Nunca verei o céu da mesma maneira”, diz Heleni. Eu também não. Para cada um de nós, ele se tornou muito mais familiar.

*

Em Ler o mundo contei sobre aquela noite no Brasil quando senti um estranho terror ao olhar para o céu estrelado e não reconheci nenhuma constelação familiar. Sobre o céu no hemisfério sul ninguém tinha me falado nada.

            Muitas vezes encontrei cenas semelhantes em livros, em que alguém se sentia perdido diante de uma enorme quantidade de estrelas nas quais não conseguia distinguir nenhuma figura conhecida.

            É para se orientar, mas também para não entrar em pânico, que os humanos de todas as culturas configuraram um céu “habitável” observando, mas também projetando nele personagens míticos ou animais fabulosos. E, como já havia escrito: “mesmo que eu não saiba a que astros atribuir Andrômeda, o Dragão, Pégaso ou Cassiopeia, mesmo que eu tenha esquecido – se nunca os conheci – as histórias das quais esses nomes foram tirados povoam o céu com animais ou heróis míticos e o transformam em um reino humano. Quando levanto os olhos estou unida a todos aqueles que o contemplaram e observaram ao longo dos séculos. E àqueles com quem tenho caminhado à noite, e que nomearam esta ou aquela estrela, que contaram fábulas sobre ela … “

            Como Vasiliki, que conheci há alguns verões no mar Egeu. Arquiteta, que se dedicou a restaurar prédios antigos por mais de vinte anos. A terrível crise que a Grécia sofreu a obrigou a fechar sua agência e inventar outra coisa. Agora ela restaura as pessoas com a prática da arte da reflexologia. Passa também muito tempo observando o céu e a natureza. E escreve poemas. Quando a conheci, me levou à praia, à noite, para me mostrar uma infinidade de constelações cuja existência eu ignorava. Depois sugeriu que caminhássemos até uma ponte. Dezenas de estrelas brilhavam no rio: eram os olhos das tartarugas nos quais se refletia a lua cheia.

            Este verão, ela decidiu compartilhar o que aprendeu sobre o céu estrelado para além das pessoas próximas a ela. Cada mês (uma noite falando grego, no dia seguinte inglês) ele leva as pessoas à praia para apresentá-las o céu, como o vemos na tradição ocidental, para que possam se apropriar dele. Como ele observa: “as constelações não são apenas sobre estrelas, mas também sobre histórias. O poeta grego Aratos de Soles, há 2.300 anos, foi o primeiro a relacionar as constelações com os heróis da mitologia grega. Sua poesia deu forma e nome às estrelas.” Os nomes das estrelas e das constelações ainda têm sua origem no poema de Aratos em sua maioria. Ptolomeu os retomou no Almagesto e, mais tarde, a tradição árabe os difundiu. São esses nomes e os mitos que lhes correspondem que continuamos a transmitir uns aos outros.

Quando lhe perguntei de onde vinha esse gosto pelas estrelas, Vasiliki respondeu:

Talvez das noites de verão em que, quando éramos estudantes, percorríamos as ilhas do mar Egeu e dormíamos nas praias, com a cabeça fora do lençol, as mãos sob a cabeça, com um vento refrescante impregnado de iodo acariciando nossos rostos, e com os olhos fixos no céu estrelado, calculando… aqui a Ursa Maior, ali a Ursa Menor; mais à direita o Triângulo de verão, um planeta aqui, a Via Láctea ali… até que chegava o sono. Horas intermináveis ​​olhando o céu! Foi então que tentei entender o lugar da Terra na espiral da nossa galáxia.

            Outra lembrança me vem. Foi em 1997, na ilha de Cefalônia, uma noite quando voltávamos de uma excursão. De repente vimos, com grande clareza, acima de nós, um grande cometa com uma longa cauda verde, lindo. Que espetáculo maravilhoso, que beleza! Um cometa verde com um brilho incomum. Eu queria de pegá-lo para viajar nele e ver a Terra de cima! Voltamos a vê-lo no céu durante algumas noites até que nos deixou… quem o viu sem dúvida se lembra. Cometa Hale-Boop.

•

Às vezes não é um cometa que é descoberto. Na outra noite, estávamos na varanda. De repente, a uma altitude baixa (muito menor que a de um avião), uma grande nave espacial que eu nunca tinha visto passou na nossa frente. Uma espécie de trilha luminosa, uma linha de pontos a distâncias irregulares uns dos outros, que avançava bem devagar. Deve ter levado um minuto para cruzar o céu. Nos entreolhamos atônitas, no meio de uma ficção científica, e logo o identifiquei: era um daqueles milhares de satélites Starlink que Elon Musk, o chefe da SpaceX, vem lançando ao espaço há três anos para dar acesso rápido à Internet e colocar em xeque Jeff Bezos (entre outros objetivos).

            Tive uma vaga lembrança de que alguns astrônomos ficaram alarmados com isso, já que a poluição visual dificulta suas observações, mas eu não tinha entendido como eram ou quantos eram; em 2025, 42 mil deles poderão orbitar ao nosso redor.

            Sabia que havia empresas que queriam transformar satélites em outdoors visíveis no céu noturno. E que a Sociedade de Ciências e Tecnologias Aeroespaciais da China queria lançar ao espaço, acima de Chengdu, uma lua artificial oito vezes mais brilhante que a real. Tinha procurado online os Starlinks. Musk e seu pessoal, por conta própria, detalharam o projeto: haverá até formas de adesão premium, por alguns milhares de dólares por mês, para os iates.

            Em poucos anos, ao cair da noite, poderíamos ficar sem visão por causa de trilhas de luz, marcas de refrigerantes, lixo eletrônico ou astros falsos. As noites em que podíamos mostrar às crianças a Ursa Maior, Órion ou o Cruzeiro do Sul, enquanto contávamos os mitos, acabariam.

Tradução Dolores Prades

Fotografías: Lisbeth Longhoft

Ilustração: Ilonka Karasz, os inquilinos celestiais

Texto publicado em Jardín LAC – Lectura, arte y conversación em (y para) el espacio público. Agradecemos à direção pela autorização de publicação. https://www.jardinlac.org/

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  • Michèle Petit

    Nasceu em Paris, é antropóloga, pesquisadora no Centre National de la Recherche Scientifique, Paris. Autora de vários livros, entre os quais publicados no Brasil pela Editora 34 : Os jovens e a leitura. Uma nova perspectiva e A arte de ler ou como resistir a adversidade.

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