“O adulto é quem escolhe sê-lo.”
(Gianni Rodari)
“Em consideração às crianças que ainda somos / as fábulas terminam bem”, escreveu a poeta Wislawa Szymborska (2016). Talvez haja aí alguma pista para esquadrinhar o sentido de uma literatura que se diz “infantil”, e de uma suposta “outra” a que chamamos apenas “literatura” (esse “apenas” já em si uma palavra deslocada). Imaginamos uma literatura que se possa chamar “transetária”, capaz de ultrapassar fronteiras entre públicos; apta a dar a ler aos adultos tanto romances e contos caudalosos, quanto as tais “fábulas” que “terminam bem”.
A pesquisadora María Teresa Andruetto, uma das vozes mais autorizadas a tirar o adjetivo “infantil” de perto da literatura só para ver o que acontece, pensa sobre a questão há mais de uma década2. Pensar junto com ela implica, para muitos, romper radicalmente com a percepção enganosa de que nos livros destinados a crianças e/ou a jovens leitores encontra-se uma literatura inferior – quando, na realidade, só o que pode haver de inferior é o volume de páginas, e nem isso temos como garantia. Há textos pequenos o suficiente para serem lidos durante uma refeição compartilhada ou na hora de dormir. Há textos que são ilustrações. Há ilustrações que são textos. Isso tudo acompanhando a perspectiva de Fávero, de que tudo pode ser um texto. “Não só os textos verbais, mas também pictóricos, arquitetônicos, fílmicos ou quaisquer outros podem ser concebidos como ‘texto’, isto é, como manifestações de uma textualidade.” (FÁVERO; KOCH, 1983, p. 20). Quando se trata em incluir a criança como potencial receptora, há também a possibilidade de nos dirigirmos somente a ela quando assim bem entendermos. Parece complexo. E é.
Aqui, definiremos a “literatura transetária” como aquela que atravessa as idades; e que, ao mesmo tempo, refere-se à passagem entre as etapas leitoras, que pode ser da criança ao adulto, ou do adulto à criança, em combinações infindáveis. O termo “transetariedade” nos remete à indeterminação das infâncias, que, se parecem não caber nos rótulos formulados pelo mercado, pela escola ou pela família e sociedade, passam a ser tudo aquilo que escapa, e que precisa ser elaborado em suas movências; algo que reivindica sua própria natureza à medida que traça sua existência – assim como o fazem os sujeitos que o adjetivo “infantil” intenta nomear: as crianças.
Para começar a compreender do que falamos quando falamos em uma literatura transetária, convém olhar, antes, para o debate sobre a tal “literatura infantil” com uma atenção em dois sentidos: em primeiro lugar, a reinvindicação de que livros ditos “para crianças” não se restrinjam a experiências calculadas, etarismos limitados e, acima de tudo, a adjetivações redutoras de objetos culturais tomados de amplas multiplicidades de leitura, como o são os livros ilustrados, por exemplo. Lembrando do conceito de “punctum”, de Barthes3, Andruetto fala em uma “leitura alerta”.
Por outro lado, está a própria noção de que está contido também no adulto o devir-criança que pode ser engatilhado ao repensarmos a infância não só como um período cronológico, mas sobretudo enquanto um estado de ser e estar no mundo. A professora Rosana Kohl atualiza um ideário de infância que deixa de ser um tempo, mas uma experiência. “A infância não coincide com a criança, ‘não é um estado puro e apartado do mundo adulto, mas uma força especulativa acerca de certas experiências liminares’”. Citando o conceito benjaminiano de “imagem de pensamento”, Kohl situa a infância como um agente fabulador, capaz de reinventar linguagens, no sentido de que ainda se relaciona com ela em seu estado de construção e origem. Daí a força de criação de livros que pressupõem a existência do leitor – um deles, necessariamente a criança – para acontecer, como é o caso da literatura ilustrada.
“Pensar a infância como figura literária significa percorrer os modos como a ficção materaliza um saber e insufla o pensamento. Não se trata, pois, de estudar as representações da criança na literatura, mas de perceber a infância como método fabulador-especulativo, como procedimento da ordem do discurso, figura ou tropo desencadeador de uma prática inventiva e reflexiva em linguagem.” (KOHL, 2022, p. 28-29).
Por fim, a contemporaneidade (e aqui consideramos particularmente a atualidade brasileira) nos brinda com movimentos instigantes de reclassificação de livros nesse segmento, percebidos em coletivos de estudos e produção teórica, acadêmica e artística como o centro de estudos A Casa Tombada, na capital paulista, responsável pelo primeiro curso brasileiro de pós-graduação a se apropriar do termo “literatura para as infâncias”. A escolha por nomear dessa forma o que antes foi (e, em tantos contextos e usos, ainda é) a “literatura infantil”, está contida a noção política da infância em sua pluralidade de dimensões – sociais, culturais, econômicas, éticas e estéticas. Em expressões como essa, não há mais uma infância, em unicidade abstrata, mas uma multiplicidade de subjetividades em jogo.
Quando provocada a definir o que é um “livro infantil”, Andruetto descreve de uma forma sintética: “É um livro. Sempre um livro que sai em busca do seu leitor.”
Parece haver aí não exatamente uma resposta, mas outras perguntas, como costuma ocorrer nas melhores conversas: toda literatura infantil é estritamente infantil?
Quando observamos a bem-vinda inclinação de discutir livros a partir de seu potencial “crossover” (Falconer, 2008) – descrito por Beckett (2009) como “tão antigo quanto a própria literatura”, “global” em seu alcance e “tendência” e em suas formas de projeção e circulação – é importante cuidar para não recair em simplificações redutoras. A literatura “crossover” não se opõe à literatura infantil, mas sim pode ser vista como mais uma de suas formas. Assim, ensaiamos uma afirmação: nem toda literatura infantil é necessariamente transetária, mas toda literatura transetária é também infantil. Andruetto ajuda a refletir como os limites são tênues, e muitas vezes confundimos quem ou o que determinados termos nomeiam. “O adjetivo ‘criança’ se refere aos textos e não a seus leitores. Embora a forma de nomear este campo seja sempre um pouco inapropriado, gosto mais de livros infantis.”
“Embora alguns livros que conheço não sejam para crianças (não importa quão longos, complexos ou incompreensíveis), nem sempre sei se um livro é para adultos ou para crianças. Eu escrevi e ofereci livros às editoras às vezes sem saber disso, e às vezes era a editora e não eu que considerava que seria melhor aqui ou ali. Essa borda é muito porosa, só encontro mais definição em livros para leitores muito, muito jovens.” (ANDRUETTO, 2022, s.p., tradução nossa).
Entre uma borda e outra das fronteiras limítrofes entre audiências leitoras e literaturas “infantis” e “adultas”, há ainda a dimensão da autoria, além de todos os atores da extensa rede de criação de livros. Quem escreve, ilustra, edita, traduz e desenvolve o projeto gráfico pode ou não considerar as questões etárias ao compor uma obra. Ao interpretar o movimento literário dos anos 1960/1970 que ficou conhecido como “Estética da Recepção”, Zilberman (2015, p. 137) diz que há, “entre escritor e audiência, sempre uma assimetria, provocadora simultaneamente do diálogo e da controvérsia”. Como se a leitura fizesse emergir uma nova obra, diferente daquela pensada por quem a criou. Andruetto pensa em concordância com Zilberman: “Um texto dorme, como a Bela Adormecida da história, até que um leitor o desperte.”
Escrevemos em colaboração com um leitor hipotético (aquele leitor interno, que costumamos chamar de leitor modelo) para que posteriormente o texto encontre seus leitores de carne e osso, e, lendo isso, acorde com o texto. (…) Cada leitura é diferente, cada livro é diferente em cada leitor, é até diferente em momentos diferentes do mesmo leitor. Mas essa singularidade da leitura, que é um exercício de grande liberdade, não é porém arbitrário ou puro capricho. É uma liberdade que o texto de alguma forma permite, torna possível. Um bom leitor faz explodir um texto, claro que sim, por isso a formação de leitores em uma sociedade. (ANDRUETTO, 2022, s.p., tradução e grifo nossos).
Foi Andruetto mesmo (2012, p. 60) quem afirmou que “a literatura é uma arte na qual a linguagem resiste e manifesta sua vontade de desvio da norma”. No contexto das literaturas produzidas para as infâncias no Brasil de hoje (evidentemente diferentes de qualquer outras já feitas antes) qual norma seria essa da qual precisamos desviar? Andruetto valoriza a ideia de que “os desvios na escrita, seja qual for o leitor, têm a ver sobretudo com a própria linguagem”.
Quem escreve procura encontrar uma “linguagem particular” no mar de “linguagem social”, o resultado é a mesma linguagem de todos e ao mesmo tempo uma linguagem única, pelo menos em boas obras. Literatura, se for de verdade, faz uma pirueta, um desvio do que se espera, dos preconceitos, do que é politicamente correto, e também distorce a própria matéria (a língua) em busca de algo que o escritor ainda não conhece. (ANDRUETTO, 2022, s.p., tradução nossa).
A linguagem, esse instrumento partilhado que pode se refazer a cada uso individual, nesse caso, está na dimensão não apenas da criação, mas do próprio nome dado à criação. Um nome que não importa na mesma medida que importa absolutamente. Um nome que pode aproximar ou distanciar leitores, facilitar ou inviabilizar caminhos de leitura, mobilizar ou impedir experiências. Não é difícil imaginar a quantidade de livros que não foram lidos por outros leitores além daqueles a que suas indicações etárias correspondem; o volume de leitores que não se sentiram encorajados ou mesmo autorizados a adentrar determinados autores ou literaturas sob o julgamento de que não lhe diziam respeito.
Nos trechos finais de sua obra mais recente, o escritor Alejandro Zambra conversa, literariamente, com seu filho, Silvestre. Ironicamente, o ensaio – misto de autoficção e memória, aparentemente dois nomes para a mesma coisa – se chama “Literatura infantil” sem se tratar disso. Acolhendo a brincadeira e os acasos que podem decorrer dela, o texto da quarta capa sugere, com uma inadvertida poesia, que são as crianças quem nos salvam de estarmos em um lugar diferente daquele que imaginaram para nós; trocando em miúdos, no lugar errado.
Caso alguma criança chegue acidentalmente a estas páginas, deveria lê-las na companhia de um adulto, apesar de que aqui são precisamente as crianças quem, à sua maneira, protegem os adultos do desânimo, do egocentrismo e da ditadura do tempo cronológico. (Quarta capa In: ZAMBRA, 2023, s.p., tradução nossa).
O texto não tem evidência de autoria, mas de alguma forma parece conter uma espécie de “verdade” sobre a relação criança-adulto, o que interessa fundamentalmente à literatura que a atravessa. Andruetto indica que a segmentação etária pode ser tanto nociva quanto irrelevante, a depender de que lugar as pessoas que se valem delas ocupam no caminho de desenvolvimento leitor. Sua fala adverte para dois pontos cruciais:
- A importância de se considerar os livros particularmente infantis, que continuarão a servir às crianças em suas fases de construção de aprendizagem e aquisição de linguagem;
- Ao mesmo tempo em que é preciso pensar também em processos de formação de leitura e fruição artística que podem e devem ocorrer para além dos limites do mercado literário e do ambiente pedagógico. É a este duplo aspecto que se voltam as reflexões acerca de uma literatura que se possa pensar transetária.
Rótulos e catalogações por idade ou assunto são estratégias de segmentação e venda das editoras (particularmente daquelas que têm os olhos postos na escola) para professores ou pais. Um leitor experiente e um adulto formador de leitores não necessita deles, porque pode confiar em sua experiência de leitura; mas provavelmente tampouco se incomodem, e sintam prazer pulando ou esquivando-se deles. Quer dizer, quanto melhor leitor se é, menos se necessita de tudo isso. Porém, às vezes acontece de alguém ingressar no mundo dos livros, entra em uma livraria, coisa que não era de seu costume, e talvez uma frase na contracapa o oriente um pouco. Não é tão grave se o livro for bom, o grave é quando, a partir dos rótulos, se oferecem textos insossos, pobres na sua escrita, livros de má qualidade. (ANDRUETTO, 2022, s.p., tradução nossa)
Quando abre brechas para uma interlocução direta com o filho, Zambra (2023, p. 223, tradução nossa) o imagina no futuro, já adulto, lendo o livro que o pai escreveu para celebrar sua infância. “Existe graças a você e é você seu principal destinatário, mas o escrevi, sobretudo, para compartilhar, com meus amigos, os mistérios da felicidade”. O exercício de imaginar, para as literaturas transetárias, o mesmo lugar que o escritor chileno reserva aqui para o seu próprio texto, parece pertinente. Vislumbrar literaturas que podem ser concebidas para e por causa de infâncias, mas que não se dirigem somente a elas.
Maurice Sendak, quando criou o menino Max e os monstros com os quais ele se encontra em uma noite de castigo, provavelmente tinha em mente uma criança – se não a que o leria, talvez a que ele próprio foi um dia. “I remember my own childhood vividly… I knew terrible things. But I knew I mustn’t let adults know I knew. It would scare them.” (Maurice Sendak, em conversa com Art Spiegelman, The New Yorker. 27 de setembro, 1993). [Em tradução livre: “Lembro-me da minha própria infância vividamente… Eu sabia coisas terríveis. Mas sabia que não deveria deixar os adultos saberem que eu sabia. Isso os assustaria.”]. Eva Furnari, quando imaginou Felpo Filva, “o coelho poeta um pouco neurótico”, talvez mirabolasse um alter-ego dela mesma, em diálogo com outras crianças, ao mesmo tempo em que conversa também com adultos – possivelmente, também outros Felpos Filva. Shaun Tan e suas histórias diligentemente sem sentido podem ser encontradas por qualquer leitor em busca de cenários familiares o bastante com a própria vida e sua falta de explicação; é certo que, para criá-los, ele recriou a própria infância nos subúrbios australianos, algo que, se parecia ter tudo para resultar em um objeto datado e hipercentrado, tornou-se o contrário: uma mostra da universalidade da ficção.
Estes são apenas alguns exemplos esparsos de histórias que, ainda que intrinsecamente infantis, são capazes de atrair múltiplas audiências. Outros tantos poderiam ser citados, e encontraríamos entre eles a mesma característica compartilhada: a maioria das pessoas os reconhece como autores “infantis”. No entanto, essa rotulação comum se revela ilusória (NODELMAN, 2008, p. 6).

Tirinha desenhada por Maurice Sendak e Art Spiegelman para a Revista New Yorker. 27 de setembro de 1993.
Pode-se dizer ainda que incluir o adulto em textos “para crianças” é uma estratégia, uma vez que a maior parte dos livros que chegam ao público infantil passa antes pelo crivo de familiares, cuidadores, educadores, mediadores. “Os compradores reais de livros infantis são e sempre foram, predominantemente, não crianças, mas pais, professores, bibliotecários: adultos”. (NODELMAN, 2008, p. 4, tradução nossa). Porém, nem desse argumento, que parece tão correto quanto insuficiente (ou mesmo redutor, dado que muitas vezes essa ideia retira a autonomia de escolha do leitor) conseguem escapar os mistérios insondáveis de ler, na vida adulta, um livro que resgata uma alma “infantil”, na perspectiva de Shaun Tan, “perpetuamente infantil da melhor maneira possível: primário, elementar, instintivo” (TAN, 2022, p. 7, tradução nossa). À parte isso, inúmeros livros criados para crianças e jovens são lidos por leitores de todas as idades. “Os adultos agora lêem descaradamente livros infantis em público.” (BECKETT, 2012, p. 16, tradução nossa).
As audiências pretendidas dos textos são definidas por sua suposta incapacidade de produzir tais livros ou tomar tais decisões sobre a compra de livros para eles mesmos – uma incapacidade explicada em ambos os casos por serem mais jovens e portanto, menos experientes ou capazes do que aqueles que fazem essas coisas por eles. (NODELMAN, 2008, p. 5, tradução nossa).
Como acontece na relação das crianças com a vida, em que suas experiências são oportunizadas (ou negadas) pelos adultos que fazem escolhas por elas, também o contrário acontece, de a relação dos adultos com os livros ditos “infantis” ser muitas vezes mediada pelas crianças. Zambra (2023, p. 67, tradução nossa) descreve a surpresa de descobrir, por conta da paternidade, escritores e ilustradores como Wolf Erlbruch e Werner Holzwarth – autores de Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela (HOLZWARTH e ERLBRUCH, 1994), um dos preferidos de seu filho. “Depois de cinco minutos deambulando pela internet, comprovo que o conto da toupeira é um clássico absoluto da literatura infantil e que não conhecê-lo equivale a não ter ideia de quem foram Sandro Botticelli ou Martina Navratilova.” (ZAMBRA, 2023, p. 67, tradução nossa).
Em um cenário ideal, dizer literatura – e ponto – bastaria. No campo da crítica literária, diversos autores e pesquisadores evitam atribuir qualquer aposto à escrita (à arte em geral), seja pelo desejo de valorizar a sua dimensão de imanência, seja para libertá-la de utilitarismos nocivos. No entanto, há tantos caminhos para nomear uma forma de arte quanto há sujeitos para fruí-las. No caso de obras que supõem o leitor para comungar sentidos de linguagens simultâneas, como é o caso de livros ilustrados, há ainda mais justificativas para enxergá-las como um corpo vivo em contato com outros corpos vivos. A audiência leitora, se não tem idades definidas, tem subjetividades particulares. Referindo-se a um pensamento do também escritor Enrique Lihn, Zambra (2023, p. 18, tradução nossa) escreve que “nos entregamos à nossa idade real como a uma falsa evidência”.
Na inevitabilidade de oferecer um arremate para as reflexões iniciadas aqui, pedimos licença para um breve desvio epistemológico, e citamos um instante luminoso do discurso da escritora Toni Morrison na ocasião de recebimento do Prêmio Nobel de Literatura, em que ela pensa a importância da nomeação, ainda que as palavras sejam sempre insuficientes e incompletas. “Nós fazemos a linguagem. Essa pode ser a medida das nossas vidas. (…) Só a língua nos protege do terror das coisas sem nomes. Só a linguagem é meditação.” (SANTOS e SAMPAIO, 2020, p. 229-231). De forma similar, quando Ailton Krenak (2019, s.p.) fala em intergeracionalidade, algo não só comum, mas fundante dos modos de convívio em comunidades indígenas, expande também a forma de pensarmos os porquês das compartimentalizações que fazemos na literatura. “As categorias infância, juventude, adolescência, vida adulta, etc., são interpretações culturais. Cada um de nós pode viver como achar melhor”. Nesse sentido, a literatura transetária aparece como uma alternativa para acomodar as muitas audiências possíveis em produções contemporâneas dirigidas também a crianças, mas não estritamente a elas; portanto, a consideramos aqui, em diálogo com María Teresa Andruetto, como um desvio da compartimentalização limitante, na medida em que valoriza a ideia de infâncias que atravessam espaços e tempos, não se restringindo nem a um único grupo cultural nem a um período cronológico.
*Em outubro de 2022, a escritora e pesquisadora argentina María Teresa Andruetto concedeu uma entrevista, por e-mail, à Renata Penzani, escritora, jornalista e pesquisadora interessada nas literaturas para as infâncias, autora da dissertação Literatura transetária: leituras para além das idades em “Contos de lugares distantes”, de Shaun Tan. O ensaio a seguir – cujas citações de Andruetto (2022) são inéditas e foram traduzidas da língua espanhola – é um desdobramento desse diálogo. O desejo, aqui, é iluminar o debate sobre os diferentes modos como as literaturas ditas “infantis” aparecem nas pesquisas e produções contemporâneas, que a consideram não só em suas pluralidades, mas também em seus potenciais de ultrapassar audiências leitoras pré-determinadas.
Referências:
ANDRUETTO, María Teresa. Entrevista con María Teresa Andruetto. Mensagem recebida por <renatapenzani@gmail.com> em 28 de outubro de 2022.
ANDRUETTO, María Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. Trad. Carmem Cacciacarro. São Paulo: Pulo do Gato, 2012.
BECKETT, Sandra. Crossover fiction: global and historical perspectives. Londres: Routledge, 2009.
FALCONER. Rachel. The crossover novel: contemporary children’s fiction and its adult readership. Londres: Routledge, 2008.
FÁVERO, L.L. & KOCH, I.G.V. Linguística textual: introdução. 10ª ed. São Paulo: Cortez, 1983.
KOHL, Rosana. Infância, palavra de risco. Rio de Janeiro: Numa Editora/Editora PUC Rio, 2022.
NODELMAN, Perry. The hidden adult: defining children’s literature. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2008.
PENZANI, Renata. Krenak: “’O que as crianças aprendem ficando presas? A fugir’. Portal Lunetas – Múltiplos olhares sobre as múltiplas infâncias, 2019. Disponível em https://lunetas.com.br/ailton-krenak/. Acesso em: 20 de julho de 2023.
SANTOS, Simone Borges; SAMPAIO, Alan trad.). “‘A língua é pássaro em suas mãos’”, discurso de Toni Morrison ao Nobel de Literatura, 1993. Anãnsi: Revista de Filosofia, Universidade do Estado da Bahia, Salvador, v. 1, 2020.
TAN, Shaun. Creature: paintings, drawings and reflections. Montclair: Levine Querido, 2022.
WISLAWA, Szymborska. Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
ZAMBRA, Alejandro. Literatura infantil. Barcelona: Editorial Anagrama, 2023.
ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura. Porto Alegre: UniRitter, 2015.
Notas:
- Em outubro de 2022, a escritora e pesquisadora argentina María Teresa Andruetto concedeu uma entrevista, por e-mail, à Renata Penzani, escritora, jornalista e pesquisadora interessada nas literaturas para as infâncias, autora da dissertação Literatura transetária: leituras para além das idades em “Contos de lugares distantes”, de Shaun Tan. Este texto – cujas citações de Andruetto (2022) são inéditas e foram traduzidas da língua espanhola – é um desdobramento desse diálogo. O desejo, aqui, é iluminar o debate sobre os diferentes modos como as literaturas ditas “infantis” aparecem nas pesquisas e produções contemporâneas, que a consideram não só em suas pluralidades, mas também em seus potenciais de ultrapassar audiências leitoras pré-determinadas. ↩︎
- Em 2012, a editora Pulo do Gato publicou o livro-ensaio “Por uma literatura sem adjetivos” (edição original argentina de 2008), em que Andruetto discute os meandros da classificação etária na literatura, argumentando que, em qualquer forma de escrita, “o substantivo é sempre mais importante que o adjetivo.” (ANDRUETTO, 2012, p. 61). ↩︎
- No livro A câmara clara (1980), Roland Barthes define o “punctum” como o campo cego das fotografias, o espaço em que espectador vai além da imagem imobilizada e cria, a partir do seu imaginário, outras realidades. “(…) é aquilo que eu acrescento à fotografia e que, no entanto, já está lá” (BARTHES, 1980, p.32). Este conceito dialoga com a literatura, no sentido de que ela demanda as subjetividades dos leitores para realizar plenamente suas narrativas. O texto é fixo, mas suas interpretações são sempre vivas. (2012, p. 47). ↩︎