O que há de novo no livro para a primeira infância e juventude no Brasil?

Compreender a produção de livros para a infância e juventude no Brasil (e em outros países da América Latina) exige contextualizar o mercado, seus desafios e dilemas — que não são poucos. Um dos traços mais marcantes desse cenário é, sem dúvida, o papel central das compras públicas, realizadas tanto pelo governo federal (por meio dos ministérios da Educação e da Cultura), quanto por alguns estados, municípios, fundações e institutos privados. É inegável que essas compras são o motor que impulsiona esse segmento, considerado um dos mais promissores do mercado. Trata-se de um sistema onde os critérios de escolha são quase exclusivamente comerciais, priorizando a quantidade em detrimento da qualidade e do cuidado que um bom livro requer.

Na contramão desse mercado público, está o mercado privado das livrarias, que viu o desmantelamento de grandes redes (como a Saraiva e a Cultura) e o ressurgimento de livrarias de bairro com nichos bem definidos. Apesar de algumas iniciativas notáveis de abertura de novas livrarias em diferentes capitais, o eixo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais continua sendo o mais dinâmico. Esse movimento, que pode ser visto como uma forma de resistência, esbarra na falta de apoio institucional e na ausência de uma regulação de preços. Isso favorece concorrências difíceis de vencer como a Amazon. Além disso, os descontos exigidos por distribuidores e por órgãos públicos na definição dos preços finais agravam ainda mais a situação.

Paralelamente, há o mercado escolar — voltado para as escolas privadas — dominado por grandes grupos editoriais especializados em livros didáticos, que mobilizam todos os seus recursos e estratégias de marketing para garantir vendas. Incapazes de competir com esses gigantes, a maioria das editoras voltadas para o público infantil e juvenil depende das compras públicas para sobreviver. Por isso, as feiras literárias e os eventos abertos ao público, cada vez mais frequentes no país, tornaram-se uma alternativa essencial para a venda direta ao leitor, sem intermediários.

Trata-se, portanto, de um mercado fragmentado, onde cada ator defende seus próprios interesses. De um lado, editoras de todos os tamanhos; de outro, distribuidores, livreiros, autores, ilustradores, agentes — todo um ecosistema essencial à existência do livro. A existência de múltiplas entidades representativas apenas reforça a desarticulação e os interesses corporativos isolados. A dependência das compras públicas age como um freio perverso à resolução dos problemas estruturais do setor: alimenta o sistema, mas o mantém subordinado.

Em países como o Brasil — onde a cultura letrada historicamente esteve restrita às elites e onde a maioria das crianças e jovens ainda tem contato com os livros na escola ou nas bibliotecas comunitárias —, o papel dos mediadores (professores, bibliotecários, agentes culturais) é fundamental. Por isso, a distribuição de livros de qualidade em todas as escolas é uma necessidade urgente. Mas o grande desafio ainda é a formação desses mediadores, muitos dos quais herdaram a ausência de familiaridade com a tradição leitora. Não por acaso, “formação” tornou-se a palavra de ordem neste momento.

A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em novembro de 2024, revelou um cenário preocupante (para não dizer alarmante): a proporção de leitores caiu de 56% para 47% nos últimos anos, em todas as faixas etárias — inclusive entre as crianças. Segundo o estudo, 36% dos entrevistados apontaram dificuldades de compreensão como principal motivo para o desinteresse pela leitura, revelando um grave problema de analfabetismo funcional. E, ainda assim, 88% desses não-leitores passam a maior parte do tempo nas redes sociais.

Esses dados, embora inquietantes, não surpreendem diante das tendências atuais: ausência de pensamento crítico, proliferação de fake news, negação da ciência, intolerância à diferença, racismo, indiferença a genocídios, e ascensão da extrema direita sem contraponto à altura. Um quadro que ameaça as gerações futuras — ainda mais se desprovidas de uma base teórica e ideológica sólida.

Neste cenário, e a partir da perspectiva que considera a leitura e a literatura como um dos direitos fundamentais, o livro para as infâncias e juventudes ganha um papel central — o que reforça a responsabilidade de quem o produz, publica e distribui. E, em contraste com os diagnósticos mais sombrios, um novo fenômeno vem surgindo nas periferias e territórios das comunidades tradicionais.

Uma pesquisa recente da FLUP (Festa Literária das Periferias) sobre hábitos de leitura em comunidades do Rio de Janeiro revelou que 74% dos moradores das favelas se consideram leitores. Outras iniciativas apontam na mesma direção: o trabalho da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, o crescimento dos clubes de leitura, o grande público nas bienais do livro (ainda que isso não se reflita na visitação às livrarias) e a multiplicação dos festivais literários. Isso não minimiza a gravidade da queda nacional no índice de leitura, mas mostra onde a leitura ainda floresce e resiste: nas margens, nas comunidades, nas periferias.

É nas margens que o cânone literário foi mais contestado — em todos os gêneros. Delas surgem novos autores, ilustradores, editoras independentes, além de narrativas que trazem à cena personagens e universos antes silenciados. Essas vozes são um dos marcos mais potentes da produção literária contemporânea no Brasil, impulsionando o que se vem chamando de literaturas afro-brasileiras e indígenas.

Embora não sejam temas novos, nos últimos anos cresceu o número de autores, ilustradores e editoras que investem na valorização das culturas afrodescendentes e indígenas. Isso reflete não só um movimento internacional de afirmação das diversidades, mas também o risco de sua apropriação pelo mercado — que transforma tudo em produto politicamente correto e comercialmente palatável, guiando políticas públicas e listas de recomendação.

Apesar desse risco de cair no estereótipo e na padronização, a presença de novos repertórios, imaginários e sensibilidades enriquece a produção atual. Multiplicam-se livros que se afastam do folclore superficial e se abrem às cosmogonias indígenas, às tradições africanas e de nossas raizes sem clichês, e a uma urbanidade diversa, com personagens que expressam a verdadeira diversidade brasileira.

Autores como Carol Fernandes, Paty Wolff, Luci Sacoleira, Caio Zero, Rodrigo Andrade, Otavio Júnior e outros estão trazendo frescor à literatura infantil. A presença indígena também cresce com os textos de Cristiano Wapichana, Ailton Krenak, Kaká Werá Jecupé, Yaguarê Yamã, as ilustrações de Xadalu Tupã Jekupé e o trabalho cuidadoso de Rita Carelli e Mauricio Negro.

Artistas como Aline Abreu, Anna Cunha, Anita Prades, Elisa Carareto, Marcelo Tolentino, Gabriela Romeu, Tadeu Sarmento, Annabella López, Raquel Matsuchita, entre outros, têm se destacado por sua sensibilidade e compromisso com os leitores mais jovens. E muitos deles já ganharam o reconhecimento nacional e internacional que merecem.

Entre os nomes consagrados, Odilon Moraes, Daniel Kondo, Fernando Vilela, Lucia Hiratsuka, Marilda Castanha, Roger Mello, Nelson Cruz, continuam marcando sua presença no cenário editorial. Nesta grupo, Renato Moriconi, em especial, se destaca por sua criatividade, originalidade e experimentação constantes e pela coerência de sua carreira como criador.

Talvez essa seja a pergunta.

Diante dos desafios do presente, pensar em livros que mobilizem, representem e provoquem é mais urgente do que nunca. Estamos falando de livros que acolham todas as infâncias, que abram caminhos imaginários, que rejeitem discursos opressores, que convidem a construir sentidos, com linguagens literárias e poéticas e primor estético.

No Brasil, o direito à leitura literária é um passo essencial para uma democracia real e emancipadora. Oferecer literatura forte e representativa desde a infância é, muitas vezes, uma tábua de salvação, um verdadeiro ato de resistência. Ou, nas palavras de Ketlin Santos, jovem mediadora da Biblioteca Caminhos da Leitura de Parelheiros:

“Aquela menina de dez anos ainda está aqui. Carrego medos, angústias e inseguranças, e isso nunca vai me deixar — é parte de mim. Mas ela cresceu e entendeu que sua voz é uma força que não será mais silenciada. Que as correntes da opressão já não impedirão seus voos. E que a literatura será sempre seu passaporte.”

*Texto originalmente publicado na Revue des livres pour enfants, no mês de abril de 2025.

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  • Fundadora, diretora e publisher da Emília. Doutora em História Econômica pela USP e especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona; diretora do Instituto Emília e do Laboratório Emília de Formação. Foi curadora e coordenadora dos seminários Conversas ao Pé da Página (2011 a 2015); coordenadora no Brasil da Cátedra Latinoamericana y Caribeña de Lectura y Escritura; professora convidada do Máster da Universidade Autônoma de Barcelona; curadora da FLUPP Parque (2014 e 2105). Membro do júri do Prêmio Hans Christian Andersen 2016, do Bologna Children Award 2016 e do Chen Bochui Children’s Literature Award, 2019. É consultora da Feira de Bolonha para a América Latina desde 2018 e atua na área de consultoria editorial e de temas sobre leitura e formação de leitores.

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A literatura é coletiva, nunca individual

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