Que Brasil cabe numa estante? 

Quatro livros brasileiros vistos de Munique

Munique fica bastante longe da floresta amazônica, do sertão e das motos que atravessam São Paulo carregando comida nas costas. Ainda assim, neste ano, um pouco de tudo isso foi parar numa mesma estante alemã. O catálogo The White Ravens 2026, organizado pela International Youth Library, de Munique, selecionou 216 livros em 46 línguas, vindos de 62 países e territórios. Quatro são brasileiros: Refloresta, de Gilberto Gil, que ilustrei e projetei; Krishna — Prosopopeia em duas rodas, de Bruno Molinero e Cecilia Mondadori; Velho Sertão, de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino; e Rei-pássaro, de Ezequiel Vitor Tuxá.

Quando soube da seleção, claro que fiquei feliz. Refloresta é um livro ao qual estou muito ligado. Nasceu de uma canção que Gilberto Gil compôs a partir de um pedido de Sebastião Salgado e chegou às minhas mãos com um problema maravilhoso: como transformar em páginas uma música que já tinha ritmo, imagens e uma posição muito clara diante do mundo? Passada a primeira alegria, comecei a olhar para os outros três livros e surgiu outra pergunta: que Brasil aparece quando esses quatro títulos são colocados lado a lado por uma biblioteca alemã? Dentro do país, reconhecemos sinais, paisagens e referências quase sem pensar. Quando os livros atravessam uma fronteira e são aproximados por alguém a milhares de quilômetros daqui, formam outro desenho e produzem uma espécie de mapa involuntário.

Todo catálogo, afinal, é um mapa, e todo mapa resulta de escolhas. O White Ravens é publicado anualmente pela International Youth Library, que recebe livros infantis e juvenis de muitos países e idiomas. Seus especialistas selecionam títulos, escrevem leituras críticas e apresentam o catálogo também na Feira do Livro de Frankfurt. Duzentos e dezesseis livros parecem muitos até lembrarmos da quantidade de livros publicados no mundo em um ano. É um recorte pequeno, feito por leitores específicos, a partir dos livros que efetivamente chegaram até eles.

No recorte brasileiro de 2026 aparecem quatro obras muito diferentes. Em Krishna — Prosopopeia em duas rodas, Bruno Molinero transporta para São Paulo uma história que começou a se formar depois de uma viagem à Índia. Krishna vira motoboy, percorre a metrópole e cruza personagens que costumamos enxergar apenas pela função que exercem. As imagens recortadas de Cecilia Mondadori acompanham a velocidade da cidade, a profusão de sinais, corpos e veículos. Fragmentos de imagem para uma vida também fragmentada na metrópole. Velho Sertão, de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino, trabalha numa velocidade quase oposta. Um menino atravessa diariamente uma paisagem seca para entregar leite e pede água a um velho que vive numa casa no alto do morro. A água existe; o velho não dá. Dessa situação pequena cresce uma história sobre poder, crueldade, infância e aprendizado.

Em Rei-pássaro, escrito e ilustrado por Ezequiel Vitor Tuxá, um governante cresce impedido de colocar os pés no chão e mais tarde parte numa expedição colonizadora. A narrativa recorre a uma cosmovisão indígena para acompanhar a transformação desse rei, que pretende tomar posse de uma terra e acaba confrontado por seres que lhe ensinam outra relação com ela. Gosto da imagem de um homem destinado a governar terras que sequer pode tocar. Em Refloresta, a própria palavra do título já carrega quase um programa inteiro. Reflorestar é verbo, mas Refloresta também soa como ordem, convite e urgência. Ali, reflorestar significa mexer também no imaginário e nas relações entre os seres vivos.

Quando comecei a trabalhar no livro, havia uma dificuldade concreta: a canção não tinha sido escrita para virar livro ilustrado. Não havia personagens esperando para serem desenhados nem uma sequência de cenas prevista pelo texto. Havia música. Distribuí os versos ao longo de 48 páginas e comecei a procurar uma respiração visual para eles. Aparecem boto, tucano, ariranha, tamanduá, anta, onça, insetos. Depois entram máquinas, fogo e destruição, e as cores mudam junto. Eu queria que o samba chegasse ao papel com a força de um manifesto. As imagens mostram a violência que atravessa a mata, os bichos e os povos originários.

Eu trabalhava com animais, paisagens e conflitos diretamente ligados à Amazônia. O livro não havia sido pensado para um leitor alemão, e talvez por isso tenha sido tão interessante descobrir depois o que um deles encontrava ali.

A ficha de Refloresta no White Ravens é assinada por Jochen Weber, responsável pela seleção e pelos textos de livros em português, espanhol e catalão na International Youth Library. Weber observa a intensidade das cores, aproxima a linguagem gráfica da xilogravura, menciona o rosto de uma pessoa indígena, um besouro ameaçado, os anéis de uma árvore e a passagem dos verdes e azuis da floresta para os vermelhos, amarelos e laranjas do fogo e das máquinas. A distância produziu uma leitura que eu não teria como antecipar. Foi estranho e bom ver decisões tomadas durante meses de trabalho voltarem organizadas em palavras por alguém que lia o livro em Munique. Algumas dessas decisões haviam sido conscientes; outras vieram de tentativa, erro ou intuição.

Costumamos dizer que um livro viajou quando seus direitos foram vendidos, o texto foi traduzido ou apareceu o nome de outra editora na lombada. Há uma viagem menos visível quando ele encontra leitores com um repertório diferente daquele em que foi criado. Certas referências se perdem, outras ganham uma nitidez inesperada e surgem relações que o autor não previu. A partir daí, o livro já não pertence inteiramente à leitura de quem o fez.

Os quatro brasileiros do White Ravens não formam uma síntese do país. O que aparece entre eles são diferentes relações com o território: quem atravessa uma cidade para trabalhar, quem depende da água, quem pretende possuir uma terra, quem vive numa floresta ameaçada. Cidade, sertão e mata entram no conjunto por caminhos formais também muito diferentes — uma narrativa urbana construída com colagens, uma história em que a escassez organiza as relações humanas, uma obra indígena escrita e ilustrada por um autor Tuxá e uma canção transformada em livro ilustrado.

Essa aproximação também é resultado de uma curadoria. O mapa depende de quem lê, das línguas que esses leitores dominam, dos critérios da instituição e dos livros que chegaram até ela. Há todos os outros que ficaram de fora, inclusive os que nunca foram enviados. Olhar para a seleção significa olhar também para esses limites.

Nenhum dos quatro livros, porém, parece ter sido feito para explicar o Brasil a um leitor estrangeiro. Há uma tentação recorrente, quando se fala em circulação internacional, de imaginar um livro “universal”, como se fosse preciso aparar referências locais para que ele pudesse viajar. O risco é acabar com uma obra perfeitamente compreensível em qualquer lugar e que já não pertença muito a lugar nenhum. Esses quatro livros viajam com as marcas dos lugares de onde vieram.

Krishna leva a rua de São Paulo e a velocidade de quem trabalha atravessando a cidade. Velho Sertão leva uma paisagem em que a água organiza uma relação de poder. Rei-pássaro leva um rei que pretende possuir uma terra sem poder tocá-la e acaba obrigado a rever sua relação com ela. Refloresta leva a Amazônia, seus bichos e árvores, e também as máquinas e o fogo que avançam sobre ela.

Em 7 de outubro, a equipe da International Youth Library apresentará parte da seleção do White Ravens na Feira do Livro de Frankfurt. Um país não cabe em quatro livros, evidentemente. Esses quatro são alguns pontos de um mapa muito maior. O interessante é observar o que acontece quando começam a circular longe do lugar em que foram feitos.

Quando comecei Refloresta, meu problema era muito concreto: como uma canção podia virar página e cor sem perder a força da letra de Gil. Agora o livro chega a outra biblioteca, a outros leitores, a outro repertório. Comecei este texto com Munique olhando para a Amazônia. Em Refloresta, a Amazônia chega a Munique, entra na biblioteca e olha de volta.

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  • Daniel Kondo
    É autor, ilustrador e designer. Sua pesquisa nasce do encontro entre literatura, imagem, música e projeto gráfico, com atenção especial ao livro como objeto de leitura, ritmo, sequência e experiência visual. Vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil em 2022, teve obras reconhecidas pela FNLIJ, pela Cátedra UNESCO de Leitura da PUC-Rio e pela Feira do Livro Infantil de Bolonha. Em seus livros e projetos, investiga modos de aproximar palavra, imagem, infância e pensamento gráfico.

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