Seminário vem de sêmen, de semente, de disseminar, propagar… E o nosso Seminário Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância semeou. Semeou ideias, intenções, discussões, algumas polêmicas, como cabe a um bom encontro entre pessoas que não procuram respostas únicas. Um mês após este evento, no qual Comunidade Educativa CEDAC e Instituto Emília se envolveram de corpo e alma, a equipe da CE CEDAC resgatou alguns dos momentos mais impactantes daqueles três dias tão intensos.

Todas saímos com uma sensação de que o nosso mundo pede muito mais arte, mais afeto, mais poesia, mais infância. As conversas que tivemos o prazer de ouvir, entre especialistas brasileiros e internacionais apaixonados e comprometidos com a infância, colocaram-nos o desafio de pensar em como exercer menos controle e permitir mais liberdade para sentir, pensar, criar, descobrir e para aprender com as crianças.
Logo na mesa de abertura, a argentina Maria Emília López nos deu referências preciosas para que, na relação com os bebês e crianças bem pequenas, consigamos gerar situações em que continuem a viver a poesia que já está colocada em sua cultura desde o momento do nascimento. Lembrou-nos que logo após o “intempestivo ato” do nascimento, é com a linguagem que acolhemos um bebê no mundo, num “berço cultural”, cheio de referências daquele grupo que o cerca. Marcou a nós todos quando disse que “o que realizamos com as crianças cria matrizes artísticas e éticas para lidarem como seres humanos durante toda a vida”.
Esta mesa ainda abordou de forma contundente a importância da presença de adultos com “disponibilidade psíquica” para interagir com as crianças, para que elas possam construir, assim, seu próprio psiquismo interno. A tarefa da mãe é ter disponibilidade para o seu bebê, com carícias e palavras poéticas. Assim se realiza o encontro de linguagem humana. A musicalidade da linguagem alimenta subjetivamente a criança; o afeto está no significado que o bebê dá à linguagem, o vínculo se reforça com a mediação da linguagem. Os bebês, quando recebem cuidados culturais, afetivos, vivem situações de hospitalidade, e assim aprendem a exercer esses cuidados consigo mesmos e com os outros.
Quem pode sair ileso a reflexões como essas? Como adultos, mães, pais ou professores que somos, como não repensar a própria atuação a partir desse diálogo tão profundo e intenso com as diversas possibilidades que a primeira infância nos apresenta?
A mesa Rompendo Paradigmas e Semeando Futuros Leitores foi, juntamente com a de políticas públicas que encerrou o seminário, a que abriu mais espaço para a discussão dos desafios para a formação leitora, na visão de uma livreira (Lara Meana), uma educadora comunitária (Bel Santos) e uma formadora de professores (Patrícia Diaz). Bel Santos marcou o acesso ainda desigual a acervos de qualidade e comoveu a todos quando disse que “as comunidades carentes – em que faltam palavras – precisam das melhores palavras “. Lara, por sua vez, lembrou que bons livros servem para todas as idades. Compartilhou a sua experiência pessoal de ter tido acesso livre, e não mediado, à biblioteca dos pais: “Crescer com uma biblioteca irregular (livros de variados gêneros e de diferentes qualidades – livros álbum, gibis, informativos, poemas, narrativas…) e sem um adulto para castrar me permitiu descobrir o meu próprio caminho leitor”.

Bel Santos nos convidou a pensar na importância da horizontalidade na mediação de leitura: “não é só o mediador quem sabe ler. A leitura se dá no espaço de leitura, no diálogo em torno do que se lê. Precisamos sair da arrogância de quem acha que sabe ler”. Assim, a reflexão sobre quem pode ser mediador de leitura pode ir se ampliando para envolver, de forma mais democrática, todos aqueles que podem e querem dialogar sobre o que está no processo de leitura.
Para nós, educadoras, parece que, mais uma vez, somos chamadas a olhar para essas interações de uma forma menos cartesiana e mais lúdica, mais familiar, mais, reforçando, horizontal. É menos ler “para” as crianças e mais ler “com” as crianças. É tratar a arte, a palavra com mais naturalidade porque elas nos permitem, assim como permitem às crianças desde bem pequenas, compreender melhor a vida, nomear aquilo que nos toca, aquilo que, muitas vezes, nos aflige.
Revisitamos o nosso papel como mediadores de leitura e contadores de histórias também nas oficinas com Lara Meana e Beatriz Sanjuan. De Lara, ouvimos que mediar não é explicar, mas, sim, escutar e devolver as perguntas de forma mais organizada. “O mediador precisa fazer perguntas que não tenham respostas dirigidas. Deve permitir que todos falem… ou mesmo que não falem”, disse Lara, para um público que se permitiu silenciar.
Beatriz Sanjuán nos levou a pensar sobre por que contamos histórias às crianças. E nos surpreendeu com a simplicidade e profundidade da sua resposta: Para nos fazer humanos e para compartilhar as lições básicas da vida – cantar, divertir, jogar, comunicar, conviver, escutar, movimentar, abraçar… Os contos ensinam que vivemos de diferentes maneiras e que morremos. Entendemos a vida experimentando as coisas e por meio dos contos podemos viver essas experiências – correr riscos ao enfrentar o lobo – e construir as conexões com os outros e com a vida.

Ou, como diz Lara, nos contos nos reconhecemos todos, adultos e crianças. “Todas as pessoas têm características dos personagens dos contos de fadas. Temos contradições! Nós mães, somos fadas, mas também somos bruxas. Sensações importantes são vividas, conhecidas pelos livros. Quando a criança vive essas sensações, ganha mais estrutura.”
Na mesa em que foram discutidos os Clássicos, desestabilizou-se a ideia de um grupo de cânones reconhecidos e legitimados em uma tradição literária específica, a europeia, para se considerar também outras narrativas, como os contos de etnias locais que existiam no continente americano antes mesmo da invasão europeia.
Ou como indicou Sara Bertrand, na sua oficina, toda boa literatura é política. “Escrever é um ato político, social, pessoal. Escrever não é banal. Não se escreve para imitar, a escrita é um ato interior profundo, novo, é quando nos ouvimos e ninguém pode imitar nossa música, nosso canto, nossa voz narrativa – o que vem por imitação soa falso.”
A pergunta que ecoou para todas nós pode ser traduzida no desafio trazido por Maria Emília: “Como viver mais poeticamente a terra?”. Quem sabe seja necessário começar por nós mesmos, como estamos vivendo esse mundo? Será que é possível vivê-lo mais poeticamente? Será que podemos possibilitar essa vivência mais poéticas no nosso convívio, nos nossos trabalhos e, assim, garanti-la também nas relações e instituições da primeira infância? Essa nos parece ser uma escolha política mais do que didática.1Contribuíram para esse texto Alda Beraldo, Carolina Glycerio, Fátima Fonseca, Gisele Goller, Marília Novaes, Patrícia Diaz, Renata Grinfeld, Roberta Panico, Sandra Medrano e Simone Azevedo. O Seminário Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância 2018 foi realizado em parceria com o SESC e o Itaú Social.
Fotos: Sofia Colucci.
Notas
- 1Contribuíram para esse texto Alda Beraldo, Carolina Glycerio, Fátima Fonseca, Gisele Goller, Marília Novaes, Patrícia Diaz, Renata Grinfeld, Roberta Panico, Sandra Medrano e Simone Azevedo. O Seminário Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância 2018 foi realizado em parceria com o SESC e o Itaú Social. ↩︎
