Livros para a liberdade

Trabalhar com promoção de leitura e formação de leitores pode ser comparado a um trabalho de formiga. Parte destas “formigas” comprometidas com a resistência e a democratização da leitura se reuniram na sede da Defensoria Pública do Estado de Estado de São Paulo para o seminário Remição em rede: formação de leitores e diminuição de pena1O Seminário Remição em Redes foi organizado pelo Comitê de Cultura do Grupo Mulheres do Brasil e Defensoria Pública, aconteceu em São Paulo, em 19 de novembro de 2019.. Estes movimentos, coletivos e ONGs se organizam e trabalham difundindo a leitura para pessoas que estão presas.

A primeira mesa, “O Universo Jurídico”, contou com a participação de João Marcos Buch, juiz da vara de execuções penais de Joinville (SC), colocou de cabeça para baixo a ordem do mundo jurídico. Depois de ouvir o Juiz, torci realmente para que todos os que participam desse universo de deuses e semideuses, se sensibilizem e concentrem suas energias para cuidar dos encarcerados e se esforcem para que a leitura seja um direito humano para todas e todos. Jamais pensei que existisse um juiz, bem-humorado com um trabalho extraordinário de remição de pena pela leitura.

A segunda mesa foi de tirar o fôlego, estavam presentes amigos e pessoas extraordinárias, inimaginável: Bel Santos, Luiz Ruffato e José Castilho com mediação de Janine Durand. Bel abriu sua fala compartilhando suas lembranças nas rodas de leitura incentivadas pelas comunidades eclesiais de base. Falou da Bíblia e da obra de Jorge Amado e de muitas coisas mais. Falou de seus esforços junto com os jovens de Parelheiros para que os livros estejam em todos os lugares, praças, escolas, ônibus, cemitérios… um trabalho de formiguinha, como bem disse Bel.

Agradecimentos à bibliotecária que, mesmo que não cumprisse esta função, incentivou Luiz Ruffato a entrar no mundo dos livros, da leitura e da literatura. Sorte a nossa, de seus leitores e daqueles que ainda poderão ler seus livros. Percebi na sua fala precisa e descontraída a importância da leitura e o papel desempenhado por ela na construção de sua identidade responsável pelo lugar encontrado neste vasto mundo.

Que desafio o de José Castilho: explicar o PNLL – Plano Nacional do livro e da leitura – e sua trajetória de militância na época da ditadura militar; lembrou dos muitos momentos que contribuíram para o retrocesso; falou do governo Fernando Henrique Cardoso, do MEC (Ministério da Educação) e do Minc (Ministério da Cultura); contou como nos governos progressistas a pasta ganhou orçamento bilionário, com uma secretaria especial para implementar políticas publicas do livro, leitura e bibliotecas; e como no pós-impeachment de Dilma Roussef, a secretaria voltou para o subsolo do ministério.

No painel “Remição de pena pela leitura”, o debate teórico foi conduzido pelos homens, mas o trabalho de colocar a mão na massa, de fato, é protagonizado por mulheres, e que mulheres: Claudia (Ação Educativa), Daniela Mediolaro (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), Rafaela Deiab (Cia das Letras), Janine Durand e Luciana Gerbovic (Remição em Rede), com mediação de Luciana Burr (Mulheres do Brasil).

Que inspirador assistir a tantas vozes femininas apresentando seus trabalhos complexos e seus esforços diários para incentivar e garantir o direito à leitura de todos aqueles que são marginalizados por boa parte da sociedade. Este painel foi ao mesmo tempo forte e sensível, impactante para os que puderam assistir; quanta coragem e dedicação dessas grandes mulheres que resolveram agir para provocar mudanças inimagináveis.

O painel “Arte, Cultura e Resistência” contou com a presença de Jardson Remido, Priscila Pâmela dos Santos (Oficinas de Cultura -OAB/SP), Bruno Ramos (Favela no Poder e do Movimento Nacional do funk) e eu, Isaac Souza Faria (Núcleo de Jovens Políticos), com mediação de Debora Gobitta (Roteirista, Diretora de cena e integrante do comitê de cultura do grupo Mulheres do Brasil).

A potente intervenção poética de Jardson Remido denunciou o racismo estrutural, as desigualdades sociais e a preocupação das elites com os jovxns das periferias que tem acesso aos livros. Priscila uma jovem advogada também compartilhou o seu trabalho inspirador dentro da OAB/SP onde promove oficinas de cultura nas penitenciárias.

Foram compartilhados preocupantes dados estatísticos que mostram o Brasil como o 3º país com o maior numero de presos, com investimento de R$ 4 bilhões e população carcerária que cresce 8,3%. Apenas 1% das pessoas que estão presas concluíram o ensino superior. Impossível desconsiderar estes números.

No meu caso, não pude deixar de lembrar com orgulho de minha professora da 1ª série que me ensinou o cuidado com a coisa pública e que a participação é sempre o melhor caminho; assim como de minhas historias na escola e da criação do coletivo NJP – Núcleo de jovens políticos – , que surge para discutir problemas da escola e acaba se tornando um importante instrumento de reivindicação na região de M Boi Mirim, na cidade de São Paulo. Falei da esperança que tenho de que um dia o salário mínimo seja digno, que se invista R$ 3.500,00 nas crianças e jovens; e que a educação, saúde, moradia, cultura e transporte sejam pensados para todos e não para alguns. Que os livros e os encontros sejam instrumento de transformação da sociedade e que a Política, a boa Política, seja praticada por todos nós.

E para finalizar, nada como lembrar que “dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação’’.


Imagem: Ilustração de Fernando Vilela, Gravura Cidade, 2014.


Nota

  • 1
    O Seminário Remição em Redes foi organizado pelo Comitê de Cultura do Grupo Mulheres do Brasil e Defensoria Pública, aconteceu em São Paulo, em 19 de novembro de 2019. ↩︎

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  • Isaac Souza Faria

    Em 2008 participou da fundação do coletivo Núcleo de Jovens Políticos da zona sul de São Paulo. Foi eleito o conselheiro mais jovem do distrito do Jardim Angela e o mais votado. Foi indicado para o prêmio Virada Sustentável. Em 2015, como membro do NJP, iniciou o projeto Clube de Leitura “Quilombo Mirim”, uma parceria com a editora Companhia das Letras e Gestão da escola, que ganhou prêmio Nacional - Retratos da Leitura do Instituto Pró-Livro. Atualmente estuda História e é aluno do RenovaBr, a maior escola de Políticos do Brasil, conselheiro da UBS Vera Cruz, UPA, Rede Hora Certa e Centro de Especialidades Odontologicas e coordenador do movimento de Transportes da Região de M Boi Mirim.

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Uma resposta

  1. Isaac você inspira e transforma por onde passa, que sorte a nossa ter sua leitura do Seminário e a sua parceria na luta pelo direito humano á leitura como um direito fundamental.