A leitura literária cotidiana e os artistas por trás das obras como forma de aproximação do livro

Sou professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental I e, em 2023, fui professora da turma de Infantil. Nessa turma, a leitura literária é diária. Os livros ficam à disposição das crianças na prateleira ou em algum espaço de aconchego na sala de referência. Também há momentos em que eu convido as crianças e leio com elas, livros escolhidos por mim ou por elas mesmas.

Baseio-me no que diz no PPP (Projeto Político-Pedagógico) da Unidade: “É importante que a professora se preocupe com a qualidade literária dos livros. Recomenda-se que a roda de leitura seja uma atividade permanente, com frequência diária e que seja bem planejada…”. Sendo assim, organizo e garanto tempos e espaços para leitura mediada ou individual.

Essa prática cotidiana com os livros aproxima as crianças de diferentes narrativas e projetos gráficos que, aos poucos, conversam com elas, um pouquinho mais a cada vez que um livro é acessado novamente. As pequenas leitoras e os pequenos leitores criam intimidade com esse objeto carregado de sentido e cultura, elencando leituras preferidas, livros que são procurados dia a dia e, muitas vezes, até disputados.

Certo dia, trouxe uma caixa com livros e uma criança disse: “Oba!  Eu estava procurando esse há um tempão!”. Observei, também, um menino que, diariamente, quando chegava mais introspectivo, ia direto procurar o livro Este é o lobo e olhava cada página com atenção e seriedade nos olhos. Depois, guardava e procurava alguém para brincar, era quase um ritual. Não temos um tempo reservado apenas para ler, visto que essa obrigatoriedade certamente afastaria as crianças do livro. Como diz Daniel Pennac, em Como um Romance: “Ler não suporta o imperativo.  Aversão que partilha com alguns outros: O verbo amar… o verbo sonhar… Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: Me ame! Sonhe! Leia! Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler! (Pennac, 1993, p.13).

Então, os livros ficam expostos ou dispostos no tapete, no colchão ou na sombra de uma árvore no parque convidando silenciosamente. Afinal, a literatura também é uma linguagem que acessa a criança no silêncio do convite…

Eu, particularmente, tenho preferência por livros com tom divertido! Aqueles que fazem o leitor interagir, rir, tomar pequenos sustos… E percebi que frequentemente eram essas as leituras que eu escolhia fazer com as crianças. Mas pensando em diversificar os assuntos, resolvi implementar uma rotina de escolha prévia dos livros a partir de um ponto em comum e organizá-los em uma lista. Essa lista, que era semanal, ficava exposta na parede da sala de referência. 

Apresentei ao todo, três listas, ao longo de três semanas, com os assuntos: Criaturas incríveis, Mulheres autoras e Livros de autoria indígena. Dentro desses assuntos, também garanto a estruturação dos princípios de equidade, integralidade e inclusão, presentes no Currículo da Cidade: Educação Infantil.

No decorrer dessa proposta, percebi grande interesse das crianças em relação à autoria. Gostavam de dizer que lembravam o nome das autoras e autores, e fazer perguntas sobre o assunto.

—Prô, essa moça é a Silvana Rando, né?

Disse L., de 5 anos, ao pegar o livro “Gildo”.

— Foi mesmo um indígena que escreveu esse livro? Como é mesmo o nome dele?  Perguntou M., de 5 anos, ao pegar o livro “A mulher que virou Urutau”, de Olivio Jekupe e Maria Kerexu.

Partindo deste interesse das crianças, do meu envolvimento com autoria de livros para infância e do acervo com diversidade de autoras e autores que temos na Unidade, comecei a pensar em trazer mais intimidade com essa parte do livro, de uma forma que fosse para além da leitura do trecho “Sobre a autora/autor” no fim da obra. 

Iniciei, então, a busca por livros do nosso acervo que tivessem a mesma autoria (preferencialmente três títulos de cada) para as crianças observarem semelhanças nos traços, nas cores, no estilo de cada autora/autor, conhecendo assim um pouco mais dos artistas por trás das obras e, quando possível, seus processos de criação, buscando oferecer diversidade literária partindo da diversidade de autorias, estilos de ilustração e narrativas.

Aproveitando que, no retorno do recesso de julho, encontramos uma árvore repleta de lagartas, trouxe, do meu acervo pessoal o livro “A Lagarta Comilona”, de Eric Carle. Do acervo da Unidade, apresentei no mesmo dia: “Uma aranha muito ocupada” – que tem o mesmo formato do livro da lagarta e assinatura artística inconfundível de Eric – a colagem. Naquele dia, fiz a leitura das duas histórias algumas vezes a pedido das crianças e passei a deixar os livros juntos na prateleira, que passaram a ser acessados com frequência.

Outro dia, trouxe “O artista que pintou um cavalo azul”, também de Eric Carle. Esse tem um formato grandão, mas o estilo de ilustração é o mesmo. É o único dos três que traz um pouco da história do autor nas últimas páginas. Mais que uma apresentação   superficial, esse texto conta a história de como Eric começou a ilustrar, passando por temas como nazismo, segunda guerra e arte realista! Algumas crianças fizeram perguntas sobre esses temas, e a leitura do livro provocou muita conversa para além da história.

Assistimos, então, a um vídeo de Eric Carle em uma entrevista em seu ateliê, mostrando seu processo de criação. As crianças ficaram surpresas com a quantidade de gavetas que ele tem para guardar suas pinturas texturizadas, e retalhos dessas pinturas todas separadas por cor. Também se impressionaram com sua habilidade ao usar o estilete cortando as imagens, colando e formando as figuras de alguns livros que as crianças já conheciam.  O vídeo gerou ainda mais curiosidade sobre as obras de Eric, e algumas crianças quiseram experimentar o processo que ele mostra no vídeo: Pintar/texturizar folhas, depois recortar e colar formando ilustrações… Uma forma diferente de desenhar!

Em seguida, quis mostrar às crianças exemplos de autorias brasileiras, valorizando nossa   diversa produção editorial. Não poderia deixar de apresentar Ângela Lago. Ela foi uma das autoras femininas que apresentei superficialmente e autora de um dos livros preferidos da turma: “ABC Doido”. 

Além desse, temos mais dois títulos da autora em nosso acervo: “Criaturas da Ilha de Corso” e “Cântico dos Cânticos”. Desta vez, trouxe os três de uma vez só, para explorarmos livremente. Diferente de Eric, Ângela explora diferentes traços e formas de desenhar, e nesses títulos específicos vemos isso. Em “Criaturas da ilha de Corso”, ela participou como autora do texto; em “Cântico dos Cânticos”, ela desenha com lápis e usa das posições de abertura do livro para dar vida às ilustrações, e, em “ABC Doido”, cria usando o computador! Inclusive, assistimos a uma entrevista da autora em que aparecem cenas dela em casa e trabalhando nas imagens digitais desse livro.

Outro autor apresentado foi Marcelo Cipis, artista plástico e autor de livros ilustrados.  Os livros-imagem “De passagem” e “O sonho do Abaporu” já chamavam atenção das crianças tanto pelo seu tamanho, como por suas cores e desenhos com detalhes surreais. Acrescentei à nossa prateleira o “Entre Tantos”, livro ilustrado sem os toques de fantasia dos outros dois, porém com o mesmo traço. Aproveitamos para conhece outras obras de Marcelo Cipis, que também tem muitos quadros.

Além dos livros, trouxe uma foto de Marcelo Cipis e algumas informações sobre o autor que circularam em meio aos livros. Quando um livro traz tanto conforto, a chupeta fica de lado. Os dedos caminham pelas ilustrações, talvez como se quisessem sentir questionando: será que é de verdade? Ler é um convite ao corpo todo!

Buscando apresentar autores negros, aproveitei que o livro “Da minha janela”, do autor Otávio Junior, já tinha caído nas graças das crianças e ficou entre os preferidos da turma por um bom tempo. Apresentei também o “De passinho em passinho”, e mostrei fotos e vídeos do autor contando um pouco da sua história: Otávio encontrou um livro em um lixão e apaixonou-se por literatura. Desenvolveu projetos literários baseando-se na representatividade negra e periférica, levando muita literatura às crianças e aos adultos. 

Sobre o planejamento desse trabalho, ao escolher os livros a partir da autoria, não tive a intenção de falar massivamente das autoras e autores, mas de olhar para os elementos que compõem o livro e que fazem parte da narrativa de forma singular. Cada autor mostra o mundo a partir de suas vivências. Para falar com as crianças sobre gênero, antirracismo e equidade, é essencial dar voz a mulheres, pessoas negras, e com diversas histórias de vida. 

Além do mais, a partir dessa experiência de observar e dialogar sobre as obras, as crianças vão ampliando seu conhecimento e percepção sobre diferenças entre os projetos gráficos, as ilustrações, o texto e até mesmo a falta dele. Permite uma aproximação com a produção do livro, entendendo-o também como objeto histórico. 

Como citado no início deste documento, literatura é linguagem,

[…] Portanto, as múltiplas linguagens são possibilidades de expressão que bebês e crianças podem escolher e experimentar. E sendo a linguagem instrumento de expressão de sentimentos e de experiências vividas, não se exercitam as múltiplas linguagens nem as culturas infantis sob a forma de aula, mas como expressão autêntica das crianças, como troca entre adultos e crianças, entre crianças de mesma e de diferentes idades.  Esses princípios são complexos porque não aprendemos a lidar com eles em nossa formação (São Paulo, 2022, p. 104).

Acredito que essa foi a motivação principal de iniciar esse caminho com as crianças, já que é o que nos encanta e fascina que conseguimos compartilhar e pesquisar junto às crianças refletindo nosso encanto e fascínio.

Imagem: Christian Robinson

Referências

PENNAC, Daniel. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica.  Currículo da cidade : Educação Infantil. – 2. ed. – São Paulo : SME / COPED, 2022.

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  • Caroline Gusmão Figueira Santesso é pedagoga, professora de Educação Infantil da rede pública de São Paulo e, atualmente, formadora municipal do LEEI. Escreve para as infâncias e é autora dos livros Estupefato e Embasbacado, Tatu Atarantado, Tanto e Oh Não.

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