É bastante conhecido o relato de Freud observando seu neto brincar com um carretel e balbuciar algo parecido com fort-da (vai-e-vem). A ação da criança, suas palavras e a ausência da mãe permitem que Freud imagine que esse jogo estaria na origem da constituição subjetiva, emulando alguém que atua ativamente a desaparição e a reaparição do objeto materno. Não basta viver, é preciso contar. Essa pode ser a máxima dos grandes saltos subjetivos que vivenciamos. Para que algo se transforme, antes o transformamos em palavras. E a separação da mãe, de sua função de referência, pode ser considerada um dos primeiros desafios do ser humano. Desamparados, pensamos “e agora?”. Mas poder dizer “o que será que mim?” já atesta, obliquamente, a presença de um eu que sempre pode fazer algo com o que lhe acontece.
E a literatura endereçada a crianças e jovens pode apontar algumas bonitas direções para esse fazer. O tema da separação é bastante explorado nos livros para crianças. É claro que o assunto em si não basta, ele é uma parte. Pode ser um começo, um meio ou uma consequência de um trabalho com as diversas linguagens que compõem o livro: o texto verbal, a narrativa visual e, por vezes, o próprio objeto (formato, dobra, virada de página) participam de uma composição aberta à entrada do leitor. Já são clássicos títulos como Bebês corujas, de Martin Waddell e Patrick Benson; Boa noite, lua, de Margaret Wise Brown e Lina e o balão, de Komako Sakai, para citar alguns incontornáveis que apresentam a experiência da separação da mãe, seja diretamente, seja metaforizada no sono ou no brinquedo.
Assim, considerando a experiência de leitura das crianças, a questão da mãe também atravessa a literatura de Sara Bertrand. Na obra da escritora chilena o tema da mãe não é dado de antemão por meio de entrevistas ou paratextos explicativos. É mais sutil, algo que se percebe em uma leitura transversal dos livros dela a que temos acesso no Brasil: Lá fora, os fantasmas, A memória do bosque e A mulher da guarda. Livros com experiências de leitura absolutamente singulares. Na medida que, em literatura, forma e conteúdo se articulam, recolho alguns elementos da composição dessas obras para imaginar como elas podem chegar nos leitores.
Lá fora, os fantasmas já intriga pelo título. Essa inversão sintática encena um desejo, cumpre uma função pragmática, age com palavras. De quem? Na imagem da capa, vemos uma criança que engatinha entre pernas de adultos. A voz narrativa diz: “Nada é suficiente, eu sei. Nem a coberta, nem os mimos, nem as árvores da praça.” Essa reflexão, essa fala consigo mesmo, pode ser tanto da criança quanto da mãe, que aparece na imagem com mãos enormes arrumando o café da manhã enquanto o filho amarra os sapatos para sair. No decorrer do livro, o texto, em forma de diálogo interno, insiste em manter a ambiguidade sobre sua origem. Já a narrativa imagética, criada pela mexicana Amanda Mijangos, dá realidade aos pensamentos enunciados no texto. As sequências plásticas mostram uma criança que sai andando pelas ruas sozinha, brinca com pássaros no pátio da escola, desenha na companhia do cachorro, observa outras crianças com suas mães pela janela e, enfim, adormece e sonha com aranhas, armários, fantasmas, solidão. Até que amanhece e a mãe, representada com grandes pernas, está sentada à beira da cama e lhe diz “entendo que faz muito frio em minha ausência.” Eles brincam afetuosamente e a rotina segue, com a ida para escola e as muitas horas passadas longe. A maior virtude do texto verbal, além de um belo jogo metafórico entre luzes, sombras e bichos, é a sustentação da ambivalência sobre a origem da voz narrativa. O tempo todo o leitor pode ouvi-la vindo tanto da mãe quanto da criança.
Uma menina, uma princesa e um gato se encontram ao redor da mãe em A memória do bosque. Numa narrativa mais longa, com ares de conto de fadas fantástico, mãe e filha conversam enquanto viajam em uma caminhonete com a carroceria repleta de coisas de casa. A mãe conta a história de “uma princesa que vivia em uma lagoa fazia muitos séculos”, ao que a garota retruca com lugares-comuns das histórias infantis ou adivinhações de um enredo bem previsível. Ela vai driblando a aridez do caminho batido pela filha ao introduzir no relato um gato que a convida para brincar e se confundir com a natureza, abrindo espaço para a curiosidade da menina. A filha se deixa seduzir pelos elementos-surpresa que a mãe imagina em voz alta. Elas passam a morar no mesmo bosque imaginário quando, já anoitecendo, chegam à porta aberta de uma nova casa. Um livro delicado em que as imagens de Elizabeth Builes fornecem o cenário real e imaginado para os diálogos de lenta aproximação entre mãe e filha. Quais memórias pode essa menina guardar de sua mãe? É a pergunta que fica em mim depois de ler.
Por fim, um livro de Sara Bertrand que surpreende pelo modo de relação entre as palavras e as imagens. Em vez de dividir a página, ou mesmo a dupla de páginas, com as ilustrações, a narrativa verbal de A mulher da guarda só começa após um prólogo onírico que joga o leitor em uma sequência de ilustrações em preto branco e cobalto criadas por Alejandra Acosta. O que vemos? Flores, troncos de árvore com grandes olhos nos ocos, um cavalo azul, pássaros, uma casa abandonada, um castelo, uma cadeira vazia e uma garota espreitando essas cenas. O texto verbal anuncia uma história longínqua “da mulher mais bonita do mundo em cima de um cavalo azul”. Quem conta é Jacinta, uma criança a quem resta cuidar dos irmãos depois de perderem a mãe. E ela faz isso contando toda noite a história da mulher que os guarda como um anjo – ou uma mãe. Guiados pela narração da menina, os irmãos são envoltos nesse universo lendário e também estão em busca de uma apropriação subjetiva da nova casa, da floresta ao redor e de todas as aproximações entre o seguro e o desconhecido, o certo e o inesperado, o aqui e agora e o porvir que essas imagens textuais e visuais evocam.
Enquanto
Essas obras literárias me levam a pensar o que fazemos e o que esperamos enquanto lemos literatura. Tanto a leitura íntima e solitária do adulto quanto a leitura partilhada com as crianças fazem circular coisas, mistérios, vazios. A literatura coloca o leitor em estado de pergunta. E aprendi muito sobre isso com os ensaios da escritora argentina Graciela Montes, a quem sempre cito por grande afinidade metafórica:
A leitura nos coloca diante do enigma. Ela, digamos, perplexifica. Deixa-nos à beira da iminência. E é esse enigma, essa iminência, essa primeira escuridão com a qual alguém, justamente, se confronta que o leva a ler. É esse o vazio que deve ser preenchido. Esse silêncio que se enche com palavras. É assim que a leitura respira. O ar não entra sozinho em nossos pulmões, é o vazio que se faz nos pulmões que arrasta o ar para dentro. E com a leitura é igual. Tem que haver um vazio que será preenchido lendo. Se o vazio não estiver ali, de nada adiante empurrar a leitura para dentro. O vazio, metaforicamente a pergunta, o que não se sabe, o que faz falta. (MONTES, 2020, p. 33)
Como não relacionar essa compreensão da leitura como respiração com a elaboração de Maria Carolina Fenati sobre o rosto das mães, lembrando a fala de Yolanda Reyes, outra admirável leitora de livros e crianças, de que o rosto da mãe é o primeiro livro do bebê (REYES, 2010):
O meu rosto de mãe é feito dos meus pés porque é o meu corpo todo, aquele que minhas filhas testemunham e que sei qual é. É um rosto com gosto de fruta doce quando elas alcançam com a língua, comem e se lambuzam de delícias porque se sentem amadas. É um rosto amuleto que elas podem guardar na palma das mãos e apertar com os dedos para sentir a minha companhia, e que podem esquecer ou partir quando preferirem estar sozinhas. É um rosto paisagem para que elas descansem entre as árvores que são os meus olhos e deles se afastem sabendo que podem voltar. Um rosto de mãe tão próximo que elas sintam o meu cheiro e eu o delas e distante para que elas possam fazer a minha figura explodir como uma estrela distante. (FENATI, 2024, p. 72)
Dentro e distante. Assim são as mães, os livros, a literatura; impregnam a gente de referências. Vão e vem. Chegam, desaparecem. Às vezes ficam. Por isso a importância de colocar crianças e mães – esses seres dos começos – em contato com obras abertas, ricas em imagens e fortes em palavras desacostumadas às coisas. A formação do leitor literário é um processo que pode ser muito precoce para que seja bem longo, contínuo e se renove a cada livro que explora elementos-surpresa para contar o que já sabemos, a dura delícia de viver, os encontros marcados e os faltosos, o amor pela mãe e seus excessos, o já sentido que se mostra em palavras até então não ditas assim. Um fósforo na escuridão, como diria William Faulkner.
Continuo imersa e enquanto escrevo respiro, me desprendo num lugar e reapareço noutro, escuto e escrevo com outras mulheres, suas histórias, nosso passado e nossos destinos. Pouco a pouco, embora vorazmente, nós, mulheres com crianças ao redor – nossas crianças, quaisquer crianças –, riscamos um fósforo que ilumina as palavras por dentro, vemos rostos e paisagens insuspeitados e tomamo-las como nossas moradas. (FENATI, 2024, p. 12)
Referências
BERTRAND, Sara; ACOSTA, Alejandra. A mulher da guarda. Trad. Cicero Oliveira. Coleção Fronteira Ilustrada. Lauro de Freitas: Solisluna; São Paulo: Selo Emília, 2019.
BERTRAND, Sara; MIJANGOS, Amanda. Lá fora, os fantasmas. Trad. Valéria Pergentino e sara Bertrand. Lauro de Freitas: Solisluna; São Paulo: Selo Emília, 2023.
BERTRAND, Sara; BUILES, Elizabeth. A memória do bosque. Trad. Valéria Pergentino e sara Bertrand. Lauro de Freitas: Solisluna; São Paulo: Selo Emília, 2022.
FENATI, Maria Carolina. Enquanto. Coleção Contínua. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2024.
KOMAKO Sakai, Lina e o balão, Editora Pequena Zahar,
MONTES, Graciela. Elogio da perplexidade. In: Buscar indícios, construir sentidos. Trad. Cícero Oliveira. São Paulo: Selo Emília; Lauro de Freitas: Solisluna, 2020. https://issuu.com/solislunadesigneditora/docs/buscar_indicios
REYES, Yolanda. A casa imaginária: leitura e literatura na primeira infância. Trad. Marcia Frazão e Ronaldo Periassu. São Paulo: Global, 2010.
WADDELL, Martin, e Patrick Benson, Bebês corujas,Editora Leiturinha.
Imagem: ilustração do livro Os bebés corujas, de Martin Waddell e Patrick Benson, Editora Leiturinha.