As crianças e a guerra: com idade de sempre, sem idade feliz

Na guerra, a única coisa que as crianças pequenas fazem é tentar sobreviver. Elas não fazem parte desse conflito, nem das decisões que o desencadearam, mas participam dele. Sabem que essa guerra não é sua e reclamam por ter que abandonar sua casa, seu bairro, seus amigos; por ter que se esconder em um refúgio quando as sirenes uivam a noite inteira ou o dia todo, e continuam uivando, e se desencadeia esse círculo infernal: correr e abraçar-se.

Choram pelos seus mortos, o pai, os avós, a mãe perdida, como o personagem de Claude K. Dubois no livro Corre Akim1:

Ele porcura um rosto. Sua mãe, sua irmã, seus amigos.
Em vão.
“Mamãe, mamãe…”, chora Akim

Choram também porque continuam vivos. Observam esses rostos, cadáveres de pessoas que não reconhecem, ou sim, que um dia cruzaram na rua, em um outro tempo que parece ter se passado há séculos, sabem que isso é estar morto. Mortos bem mortos. Como a pomba que o gato comeu no pátio da escola tempos atrás, quando ainda andavam de bicicleta na rua, ou brincavam com as bonecas sem cabeça que a mamãe preferiu jogar no lixo. Mortas. E continuam mortos os vizinhos enterrados sob toneladas de cimento, as bombas não respeitam e caem onde caem, derrubando mundos conhecidos que se tornam infernais. E sabem que envelhecem e que isso também é a guerra: receber um tipo de sabedoria que deveria ter chegado muito mais tarde, na idade da avó ou do vizinho que via a gente passar na rua sentado em sua cadeira de rodas. Onde será que ele está? Talvez uma bomba caiu e o matou. Já sabem que tudo acaba.

Saber que sabem é um aprendizado que qualquer menina ou menino receberia, pouco a pouco, em circunstâncias menos extremas, o problema com a guerra, sua profunda radicalidade; sabem também que a guerra os transforma em alvos frágeis, perfeitos para perpetrar um holocausto, porque estão chamados à vida e o arrebatamento desse chamado é mais forte que qualquer bomba de fragmentação. A mãe fala: “não saia, lá fora é perigoso” e a menina ou o menino sairá para conhecer o que é o “perigoso”, até onde vai esse som, até onde chega, como se sente esse perigo que caiu sobre o primo, o irmão, o amigo da escola. Desenhar a arquitetura do medo, ou seus contornos por dizer assim, é um passatempo da infância. O problema é que os números existem, antipaticamente irreais, sempre atualizando a matança, lembrando-nos do quão absurdos somos, seres humanos, que não aprendemos nada de nada. Séculos de existência para reivindicar uma e outra vez a guerra,— como é possível? De todo modo, nós, adultos do mundo todo, sabemos que já são mais de 60 mil mortos em Gaza e que cerca de um terço são meninas e meninos. Ou seja, 18 mil crianças perderam a vida nesta matança desproporcional — e seguimos contando. Outros 34 mil foram feridos e perto de um milhão tiveram que se deslocar. Meninas e meninos que partiram com a roupa do corpo, que sentirão falta de suas casas e bairros, meninas e meninos que sabem que certas coisas na vida se aprendem na porrada, esse tipo de conhecimento onde a letra entra com sangue.

Então, a desobediência que antes praticavam com total liberdade se transforma em questão de vida ou morte: brincar ou morrer. “Brincamos de mortos?”, propôs meu filho à sua irmã quando a avó morreu. Era a primeira morte que lhes tocava viver e, por alguma razão, não disseram “a vovó morreu”; simplesmente, em suas brincadeiras, carrinhos e cascas de nozes caíram mortos no poço de areia. Mortos também caíram os bonecos de plástico do Lego. E seguiram-se seus funerais: longas filas de bichos de pelúcia e animais de plástico rendendo-lhes tributo. A infância é difícil de derrubar, prevalece em circunstâncias díspares com a mesma teimosia com que uma criança decide que não gosta de leite ou que não quer dormir. A infância sobrevive a quase tudo, exceto, claro, à morte — e este é o problema que temos hoje: milhares de meninas e meninos caem mortos diante de nossos olhos e, como advertiu Susan Sontag muitos anos atrás em seu ensaio Diante da dor dos outros2, é pouco ou quase nada o que pode fazer o sujeito do outro lado do mundo. A globalização nos deu de presente essa infâmia: a proximidade com o horror. Com todos os horrores. Mas não nos disse como ajudar a mitigá-los, como uma pessoa comum e simples, um cidadão qualquer, pode exercer algo além de seu direito ao desespero e ao choro diante de tanta calamidade.

O que fazemos com a guerra? Penso que poderíamos começar suprimindo esse “nós”. Não existe um “nós”, existe um “eles”, os que acreditam que a guerra pode ter algum sentido. Tampouco existem heróis nem glórias a distribuir, exceto para um punhado de poderosos brutamontes a quem não importa ver o mundo arder. Todos os demais — meninas, meninos, mulheres, jovens, homens e idosos — a padecem como podem.

Por isso me sinto tentada a reivindicar o poema de Gabriela Mistral quando diz “com idade de sempre, sem idade feliz”, porque há infâncias que vale a pena enterrar cuidadosamente, porque não foram felizes — quem dera tivessem sido. Mas para algumas pessoas, outrora crianças da guerra, do holocausto, de Chernobyl, de Hiroshima ou de Nagasaki, para citar alguns nomes, voltar ao lugar da infância implica descobrir como sobreviveram; pessoalmente, sinto uma mistura de respeito e apreensão por aquela menina que sobreviveu. Estranho não ter me feito perguntas sobre essa infância além do horror que descubro por trás da sombra ou da cortina da memória. Quero dizer, minhas perguntas não estão dirigidas à criança que sobreviveu e que reclama aquele pedaço de infância roubada, aquela idade feliz que tantos recordam; minhas perguntas se dirigem ao passado hostil e ao presente contínuo. Então, que outra opção resta senão deixar de romantizar a infância? Existem infâncias infelizes. Não há mais o que dizer. Infâncias que talvez terão, para sempre, invertido seus caminhos. Sim, meninas e meninos sobrevivem a tudo, ou quase tudo, exceto à morte — essa bomba que os atingiu no caminho de casa, por exemplo —, mas essas meninas e esses meninos tristes, esses que sabem que a morte existe para além dos brinquedos quebrados porque a viram de muito perto, crescem hoje junto de nós, adultos de um mundo estranho. Adultos com pouquíssimas respostas diante de tais massacres, exceto, talvez, sofrer nossa incapacidade de agir. E me vêm à mente os espaços, esses que meninas e meninos constroem com tanta facilidade, essa película finíssima que os separa da miséria ao redor; porque a infância é resistente, talvez mais ainda do que a guerra e dessa idade de sempre da qual quero arrancar, recordo o poder que os livros tiveram para construir um abrigo. Um refúgio. E penso nas meninas e meninos de Gaza, nas meninas e meninos da Ucrânia, nos milhares de meninos migrantes que um dia atravessaram o mar, que chegaram a uma margem, que cruzaram um deserto, que enfrentaram ondas, que conheceram a selva, que teimosamente seguiram brincando mesmo sem água, comida ou teto — essa menina ou esse menino que se levanta a cada manhã e é capaz de invocar a magia e dizer que o cachorro tem fome porque disse: “au, au, quero empanada”. Essa menina ou esse menino que abre os olhos com surpresa quando o avô fala mais alto e deixa escapar um palavrão. Essa menina ou esse menino que por um tempo invoca o espírito da infância apesar da paisagem ao redor, uma cidade feita de arames farpados ou que desaba pelos bombardeios. Essa menina ou esse menino disposto, em qualquer língua, em qualquer lugar, a dizer: “era uma vez”. E penso que talvez o que nos reste seja contar essas infâncias, uma e outra vez, para não esquecer. Demonstrar essa grandeza: a da infância que sobrevive sem idade feliz e que perdurará nesses adultos — se tiverem a oportunidade de chegar a sê-lo — e que talvez possam eles mesmos contar o que viram, o que sofreram, como a artista austríaca Ceija Stojka em Isto aconteceu, que sobreviveu a Auschwitz dormindo entre os mortos, naquele silêncio, entre aqueles corpos, aos 8 anos, encontrou refúgio: “Durante a libertação, os soldados nos tocavam para saber se éramos de verdade, se estávamos vivos. Não concebiam que estivéssemos ali rodeados de cadáveres, que entre os mortos ainda restassem vivos”.

Parafraseando-a, direi que entre os mortos ainda restam meninas e meninos que brincam, meninas e meninos que crescem, que aprendem a sobreviver; meninas e meninos que darão testemunho do poema de Gabriela Mistral porque sabem que essa idade de sempre pode ser uma idade infeliz, mas aprenderam o que é a guerra e esse conhecimento somos nos que devemos recuperar, porque é fundamental para acabar com ela. Escutar meninas e meninos me parece tão sensato que eu o declararia um direito — e deixo vocês com o verso de Gabriela Mistral, a menina que perdeu cordilheiras em um país estranho:

“Me nació de cosas
que no son país;
de patrias y patrias
que tuve y perdí;
de las criaturas que yo vi morir,
de lo que era mío y se fue de mí”.3

Tradução: Dolores Prades
Imagem: Ilustração de Fatima Abu Madi, 14 anos, do livro
I will not write Poetry and other Texts (no prelo).

  1. Akim court [Corre Akim], no original: Il cherche un visage. Sa mère, sa soeur, ses amis/ En vain./ “Maman, maman…”, pleure Akim./, La joie de lire, Collection Pastel, 2012. ↩︎
  2. Sontag, Susan. Diante da Dor dos Outros, Cia das Letras, 2003. ↩︎
  3. Tradução livre: “Me nasceu de coisas/ que não são país;/de pátrias e pátrias//que tive e perdi;/ das criaturas que eu vi morrer,/ daquilo que era meu e se foi de mim”. Extrato do poema “Pais de la ausência”, publicado na coletânea Tala, Ediciones Sibilina S.L., 2010. ↩︎

Compartilhe

Post Author

Autor

  • Sara Bertrand

    Sara Bertrand vive e trabalha em Santiago do Chile. Estudou História e Jornalismo na Universidad Católica de Chile, onde lecionou no curso "Apreciação estética de livros juvenis" no diplomado homônimo da Facultad de Filosofía y Humanidades. Escreve para a Fundación La Fuente e ministra oficinas no Laboratório Emília. Foi vencedora do New Horizons Bologna Ragazzi Awards 2017 com La mujer de la guarda (Babel, 2016); do White Ravens 2017 com No se lo coma (Hueders, 2016); da Medalla Colibrí 2019, com o Manifiesto literal, mujeres impresas (Planeta, 2018); do Prêmio Banco del Libro de Venezuela 2016 com Cuando los peces se fueron volando (Tragaluz, 2015), e em 2018, com La mujer de la guarda. Foi traduzida para o francês, catalão, italiano e português. Seus últimos livros são Afuera (2019, Emecé) e A mulher da guarda (Solisluna/Selo Emília, 2018) – este último tendo obtido o Selo de Distinção da Cátedra UNESCO no Brasil, em 2019.

Artigos Relacionados

Ilustração de Amma Finseca para o livro 'Meninas', Editora Veneta, 2024

A língua infantil: da coisa ao entendimento

A literatura para crianças e jovens, um saco de gatos?