Editoras pela Palestina

O passado é pai e filho de Israel.
O futuro é filho de Gaza.
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Alexandra Lucas Coelho

Faz dois anos desde o início dos desdobramentos brutais que se seguiram a 7 de outubro de 2023, e desde então saio diariamente, seja lá onde eu for e estiver, com meu Keffiyeh. Este ato aparentemente isolado e individual, certamente, contém uma forma de identificação, resistência e solidariedade com o povo palestino, com o seu sofrimento e um rechaço ao genocídio do qual tem sido vítima. Um não ao racismo sistêmico que, no fundo, sustenta esta barbárie que justifica o extermínio de um povo, de uma cultura, de toda uma população; um não à desumanização com a qual o mundo observa e acompanha os atos atrozes de aniquilação cometidos, dia após dia, contra crianças, mulheres, idosos, enfim, contra o povo palestino.

De ato isolado, ele se converte em bandeira de uma causa – decisiva nos dias de hoje, certamente a maior – quando, por exemplo, se estabelecem conexões de cumplicidade com outras pessoas que, como eu, – seja lá onde for – carregam essa mesma bandeira. Se, ao longo destes meses, fui percebendo que esse ato não era tão isolado e individual, hoje está clara a sua importância para lembrar e afirmar o compromisso e a solidariedade com a luta palestina. Ou, como diz Alexandra Lucas Coelho, “Gaza está em toda parte”.

Sem dúvida, o mundo não é e nem será mais o mesmo depois deste genocídio; as questões e os impasses, até aqueles mais locais e urgentes, assumem novas posições no tabuleiro geopolítico. Gaza desequilibra e mostra os limites da atual (des)ordem mundial, ao lado da gravidade do que ocorre, por exemplo, em países como o Sudão e o Congo. Gaza é a expressão mais radical das profundas contradições e impasses contemporâneos. Gaza escancara as desigualdades ontológicas de uma sociedade – e um mundo – regida pela lógica do capital. Gaza escancara o profundo racismo sobre o qual, secularmente, se justificaram os processos de colonização e subordinação de povos inteiros, tão necessários para as diversas formas de acumulação capitalista. Gaza escancara a falência dos ideários que sustentaram ideologicamente a opressão e a sujeição da maioria sempre: democracia, humanismo, liberdade de expressão, liberdades individuais — qual o sentido hoje? Estas palavras se esvaziaram de sentido e, na sua abstração, ganham adeptos de todas as tendências, de acordo com as “narrativas” que falarem mais alto e se fizerem mais presentes nas redes. Mas, mesmo assim, é em nome delas que as maiores atrocidades continuam sendo impetradas (já se sabe dos milhões investidos por Israel para a construção de tais narrativas nas redes sociais).

O “velho mundo” e sua (des)ordem estão de cabeça para baixo. “O mito da superioridade ética ocidental”, como disse o presidente Lula recentemente no seu discurso na ONU, “está enterrado sob os escombros de Gaza”. Esta afirmação não é nem nova, nem original, mas a destruição de Gaza e a aniquilação do povo palestino, pela ação brutal do Estado de Israel, jogam sobre esses escombros a derradeira pá de cal. Os sinais são claros: o silêncio da Europa — na verdade, a sua cumplicidade — diante das atrocidades cometidas em Gaza. Somente depois de meses, de mais de centenas de milhares de mortes, e de uma mobilização da sociedade civil mundial sem precedentes contra o genocídio, alguns governos da Europa passam a reconhecer o Estado Palestino e a falar em genocídio. Um passo, no mínimo, tímido, ainda insuficiente e muito distante de colocar um ponto final nestas atrocidades e pensar em um futuro para o povo palestino.

Por outro lado, o governo dos EUA, maior suporte financeiro e político do Estado de Israel e “bastião das garantias democráticas e da liberdade no mundo”, se arvora no direito de se inserir onde não é chamado. E propõe e exige tratados de paz que só afirmam a dominação externa sobre o povo palestino. Enfim, está mais do que na hora de virar o disco. Não foi uma mera casualidade que o primeiro país a denunciar os horrores a serem cometidos em Gaza tenha sido a África do Sul — bom não esquecer os massacres contínuos a que este continente foi e está sendo submetido pelas forças coloniais e pelos seus representantes locais.

É hora de mudar a direção do olhar, de escutar essas juventudes que, como diz mais uma vez Alexandra Lucas Coelho:

“esta á a geração mais perto da liberdade e mais longe da culpa. Dessa culpa europeia que nunca chegou a ser transformação. Que nada salva e nada cria, ao contrário. Que desde 7 de outubro mata ou dá licença para matar. E se vimos o pior do humano nos últimos sete meses, se vemos o que nunca tínhamos visto, também nunca estivemos tão perto desse futuro. Ou o futuro nunca foi tão urgente, como sabem todos os que lutam também pelo planeta. A Palestina nunca foi tão urgente, e nunca se fundiu tanto com o nosso destino comum. Com o que é ser humano. Estar aqui na Terra hoje”. (313/314)

Daí a esperança que exalam as manifestações nos campi dos EUA, muitas reprimidas violentamente em nome da defesa do sionismo e dos direitos inquebrantáveis e inquestionáveis de Israel. Dois pesos, duas medidas. O que serve para Israel não serve para a Palestina. Não é de hoje que se trava uma luta intensa para inviabilizar e reduzir ao mínimo a vida do povo palestino. Aliás, há tempos, Gaza já tinha sido transformada no maior campo de concentração a céu aberto do mundo. Trata-se de expulsar os palestinos de seu território, fazer desaparecer Gaza (objetivo este que, como se sabe e é muito importante frisar, não começa em 7 de outubro), deslocá-los para concluir mais uma das etapas do antigo projeto de colonização do território pelo Estado de Israel. Afinal, “Gaza é uma mina de ouro imobiliária, já fizemos a demolição, agora construir o terreno é barato. O plano está na mesa de Trump”, nas palavras recentes, aos risos (SIC), do ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich. Disponível nas redes para quem quiser conferir. Projeto expansionista que não se limitava aos territórios palestinos, como também já foi declarado.

Mas não só os estudantes, como a sociedade civil, com o reforço de artistas e intelectuais, têm respondido com manifestações e protestos cada vez maiores em todos os cantos do planeta: na Itália, na Espanha, na França, na Bélgica, na Alemanha, na Tunísia e em muitos países mais, em nome do fim do genocídio e pela liberdade da Palestina — “Palestina livre do rio ao mar”. Nesta direção, vale registrar o papel decisivo e uma profunda admiração e agradecimento à coragem e iniciativa de todas e todos que participaram da Global Sumud Flotilla. As 43 embarcações, com ativistas de 45 países, representando a todos nós em uma das ações humanitárias mais significativas da história recente, foram sumariamente e ilegalmente interditadas por Israel antes de atracarem em águas palestinas, em setembro de 2025. Tratados como “terroristas”, os membros da flotilha foram humilhados, presos, alguns deles torturados em uma prisão de alta segurança no meio do deserto, antes de serem extraditados.

Enquanto ainda aguardamos a extradição de alguns ativistas, entre os quais se encontra Thiago Ávila, em greve de sede para protestar contra os tratos dados aos presos, e que as mobilizações se ampliam pelo mundo, Israel, totalmente alheio, no alto de sua arrogância e protegido pela impunidade que os EUA, a Europa e praticamente todos os governos continuam lhe dando, com raríssimas exceções, segue bombardeando Gaza (só no 1º fim de semana de outubro, foram mais de 160 bombardeios) e impedindo a entrada de alimentos e de ajuda humanitária, garantidos pelo direito internacional.

São praticamente inexistentes as ações concretas que impedem Israel de continuar com seus propósitos de aniquilamento do povo palestino, um dos maiores horrores cometidos neste século, num cenário único e jamais visto: em direto pelas redes sociais, ao alcance de todos aqueles que quiserem ver. A qualquer momento, podemos assistir, aterrorizados, aos bombardeios, às crianças feridas, amputadas, quando não mortas, vagando sozinhas; à destruição pela destruição; a hospitais bombardeados, escolas destruídas — o objetivo é claro: dizimar. Tiveram que se passar dois anos, até ver Gaza reduzida a escombros, com um número de mortos que não para de crescer, e muitos protestos, para sensibilizar alguns países. É difícil, inclusive, adjetivar o que estamos vendo: intolerável? Indecente? Bárbaro? Desumano? Talvez estes adjetivos ainda sejam insuficientes para descrever esse horror — o massacre de um povo diante dos olhos do mundo.

Como entender esta insensibilidade das potências mundiais frente ao massacre a que está sendo submetido o povo palestino?

Está em cima da mesa a profunda desinstrumentalização das consciências e o que ela produz em termos da desumanidade e da insensibilidade necessárias para olhar o extermínio de um povo, de uma cultura secular, e tocar a vida como se não fôssemos Gaza. Sim, Gaza é aqui, Gaza está em toda parte, Gaza somos todos nós. E dela depende para onde soprarão os próximos ventos… Dela depende o futuro das infâncias e juventudes de nosso tempo. Sim, daquelas com as quais trabalhamos — nós, formadores e promotores de leitura, nós que fazemos livros para as infâncias e juventudes. Nós apostamos na leitura.

É inevitável repensar prioridades e as mudanças que tudo isto, consciente ou inconscientemente, provoca na nossa forma de nos colocarmos no mundo. Que aprendizados extrair de tudo isto? Como isto vai afetar escolhas, em todos os campos? O que é preciso recuperar desta experiência tão dolorosa que seja prioritário — no campo político, ético, humano? Muitas questões se colocam; olhar para onde os novos ventos sopram é nossa responsabilidade. Muito se fala das cosmogonias e formas de pensar a que a decadência do pensamento e da ordem ocidental abriram espaço: pensamento circular, Ubuntu como filosofia de vida, comunidade, o humano como parte e extensão da natureza, rechaço do consumo, Bem Viver… enfim, novos/velhos ventos que podem mudar a vida e a paisagem e assim guiar para um futuro onde a vida prevaleça.

O sentimento de revolta diante de tudo isto e a necessidade de marcar presença ativa, de fazer resistência de alguma forma junto ao povo palestino, às suas crianças e às atrocidades a que estão sendo submetidas, me acompanham e desestabilizam desde o início do genocídio. O que fazer? Pergunta esta histórica que, consideradas as suas dimensões atuais, nos coloca diante de um dos maiores dilemas contemporâneos.

Dado este contexto, na última Feira de Bologna, em abril de 2025, conheci o Tamer Institute for Community Education – Ramallah – Palestine, um instituto de propósitos semelhantes aos do Instituto Emília. Numa das mesas em que eles participaram, mostraram um dos seus últimos lançamentos, I will not write poetry [Não vou escrever poesia e outros textos], escrito e ilustrado pelas crianças do Mar e das Laranjas de Gaza nestes últimos meses. Um tesouro, um manifesto, um registro comovente e assustador.

Fiz contato com a representante do Literary and Knowledge Production Program, do Tamer Institute, propondo que publicássemos o livro no Brasil e toda a sua arrecadação fosse para apoiar as suas ações em Gaza. Foi aí que nasceu a ideia de formar um coletivo de editoras que pudesse viabilizar o projeto. Muito rapidamente, a ideia foi abraçada por algumas editoras. Coordenado pelo Selo Emília, pela Editora Tabla e pela Palavras Educação, o coletivo se constituiu e fazem parte dele as editoras: Barbatana, Bazar do Tempo, Bináh, Boitempo e Boitatá, Casa das Letras, Caixote, Lumiar, Padaria de Livros, Peirópolis, Pó de Estrelas, Quelônio, Solisluna, Veneta, Oh! e WMF Martins Fontes.

Além da contribuição financeira, o livro será também uma forma de ampliar a visibilidade sobre a questão palestina entre leitoras e leitores brasileiros. Com lançamento previsto para novembro deste ano, esperamos que este livro seja uma ponte para quem quiser contribuir com a luta do povo palestino, com suas crianças, seus jovens e seu futuro.

Gaza é o marco do nosso tempo.
Tornamo-nos hospedeiros da Palestina.
Toda gente livre desde o rio até o mar.
Toda gente livre, não há outra moral.
Ou: nunca mais é para toda gente.
O passado é pai e filho de Israel.  O futuro é filho de Gaza.

Contamos com vocês para ampliar ao máximo esta ação, divulgando o livro, pois quanto mais livros forem vendidos, mais ajuda enviaremos!

Compre na pré-venda em Palavras

Imagem: Ilustração de Ximo Abadia para a @globalsumudflotilla

  1. Alexandra Lucas Coelho, Gaza está em toda parte, Editora Bazar do Tempo, SP: 2025. Leitura que recomendo enfaticamente para ter uma aproximação da vida nos territórios palestinos, desde uma visão jornalística, rigorosa, generosa e profundamente humana. ↩︎

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  • Fundadora, diretora e publisher da Emília. Doutora em História Econômica pela USP e especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona; diretora do Instituto Emília e do Laboratório Emília de Formação. Foi curadora e coordenadora dos seminários Conversas ao Pé da Página (2011 a 2015); coordenadora no Brasil da Cátedra Latinoamericana y Caribeña de Lectura y Escritura; professora convidada do Máster da Universidade Autônoma de Barcelona; curadora da FLUPP Parque (2014 e 2105). Membro do júri do Prêmio Hans Christian Andersen 2016, do Bologna Children Award 2016 e do Chen Bochui Children’s Literature Award, 2019. É consultora da Feira de Bolonha para a América Latina desde 2018 e atua na área de consultoria editorial e de temas sobre leitura e formação de leitores.

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