Uma tribo nômade inicia uma viagem para chegar às cavernas que serão seu refúgio. Ao longo do percurso, vemos como a mulher mais jovem está atenta às mudanças da natureza, aos acontecimentos que se evidenciam ao seu redor. Ao chegar ao refúgio, essa jovem vê, na superfície das rochas, a possibilidade – e a necessidade – de expressar o que viveu durante a viagem. Foi assim que, um dia, nos primórdios da existência humana, nasceu a narração, nasceram as histórias que acompanharão a humanidade desde então até hoje.
O livro Ugh! Um relato do pleistoceno nos convida a imaginar esse período distante, há milhões de anos, e como viviam nossos ancestrais. É de autoria do ilustrador Rafael Yockteng e do escritor Jairo Buitrago. Originalmente editado por María Osorio, da Babel Libros, em 2022, chega agora ao Brasil pela parceria editorial entre a Solisluna Editora e o Selo Emília.
Trata-se de uma obra ilustrada, quase silenciosa: o texto chega apenas no final como epílogo. É o resultado de um longo processo de escolhas e decisões a seis mãos, em que o texto da história original de Jairo foi sendo tomado pelas ilustrações de Rafael.
Não é frequente que um livro saia com o nome do ilustrador antes do nome do escritor, mas aqui tal decisão foi tomada. “O trabalho de Rafa levou quatro longos anos, que aumentaram consideravelmente quando o texto foi retirado, pois tivemos de contar em imagens os espaços vazios que ficaram quando o texto foi retirado. Não havia dúvida de que o tempo dedicado ao livro pelo ilustrador devia ser recompensado”, explica María Osorio.
Para conhecer mais sobre o processo de criação de Ugh!, a Revista Emília conversou por e-mail com os autores e com a editora. A seguir os principais trechos da conversa.

Priscilla Brossi – Como surgiu a ideia para o livro?
Jairo Buitrago – Sempre me fascinou a arte rupestre criada nas profundezas das cavernas escuras. Considero-a igualmente perturbadora e muitas vezes até inexplicável, pelo menos para mim. Era arte, sem dúvida, o que se fazia no alto das paredes e dos tetos, com pigmentos de terra moídos ou esculpidos diretamente na pedra dura. Em um livro anterior, já abordava o tema na obra de ficção científica, publicada pela primeira vez na Suécia e no Canadá, que ganhou o título Pinturas Rupestres. Tinha esse fascínio bem presente. Senti que a próxima história que deveria contar era a origem dessas pinturas e a necessidade humana de criá-las.
Rafael Yockteng – Jairo me conta várias histórias a respeito, mas eu gosto de uma em que ele estava olhando para o céu, enquanto descansava num colchão inflável na piscina e, ao tentar se levantar, caiu e fez o ruído UGH! Eu e o Jairo gostamos muito dos animais, da pré-história, das histórias, do passado e do que veio depois. Este livro foi uma oportunidade de narrar uma aventura em um momento misterioso da humanidade, momento do qual podíamos nos apropriar e contar à nossa maneira.
Priscilla Brossi – E como a editora recebeu a ideia? Pareceu estranho um livro sobre a pré-história?
María Osorio – Nenhum tema me parece estranho para um livro infantil. A versão que recebi era muito simpática sobre a vida no Pleistoceno, narrando como a primeira história foi contada neste planeta. Isso me convenceu. Contar a gênese do nosso trabalho parecia valer a pena. Nessa mesma tarde, recebi um artigo sobre o assunto e um convite para uma conferência sobre a origem do desenho e a pré-história. Fui com o Rafael à conferência (Jairo estava no México) e saímos convencidos da necessidade de fazer o livro, mas não um livro dos “Flintstones” e sim um livro que contasse os acontecimentos que levaram àquele dia, àquele primeiro dia do início da narração.

PB – Como foi o processo de criação do livro?
JB – Rafael trabalhou na minha história e propôs muitos elementos, a escolha do preto e branco, o ritmo da marcha da família nômade. Ele estava profundamente empenhado na história e trabalhamos com María, como sempre, cada um contribuindo à sua maneira, mas convergindo muito e, neste caso particular, permitindo que o Rafael levasse o tempo necessário porque foi um trabalho árduo com uma reflexão gráfica meticulosa.
RY – Jairo vivia no México e não conseguimos conversar muito, mas sempre que nos encontrávamos falávamos sobre as imagens. A certa altura comecei a me apoderar da história e ele me deixou trabalhar para contar sua história. María sempre foi a minha professora e guia em quase tudo o que faço. Sua opinião e visão foram fundamentais para tudo neste livro. Ela não é uma mediadora, é uma editora que é também a autora do livro, tal como o Jairo e eu. Neste livro ocorreu o mesmo que com Jairo, uma vez que ela viu que eu estava mergulhado na obra, me deixou trabalhar. Muitas vezes perguntava o que achava de uma imagem ou outra e ela só me dizia o quanto gostava. Confiaram totalmente no que eu estava fazendo e eu sou muito grato por isso.
PB – A forma como o livro apresenta a história é interessante. Fazemos uma viagem silenciosa com imagens e só no final encontramos o texto…
MO – O que se seguiu foi um trabalho só com o Rafael (o roteiro da história de Jairo foi o mesmo desde o primeiro momento) em que durante um ano pesquisamos sobre a pré-história, buscamos a forma de desenhar, a definição dos personagens e da técnica. Assim, um dia, conseguimos definir os personagens. Depois, Rafael apareceu com uma página dupla desenhada a lápis, em grafite. Nessa ocasião, Jairo estava em Bogotá e não hesitamos nem um minuto: era a forma de contar a história. A partir daí, as imagens adquiriram uma força tal que decidimos que o texto não fazia falta, nem havia necessidade de cor. A força daqueles desenhos era avassaladora. Nesse momento, Jairo escreveu o epílogo que faz parte do livro.
JB – No processo de edição o meu texto desapareceu, tinha muito humor, onomatopeias, canções, rimas. Mas não fez falta. María soube orientá-lo e dar-lhe força como um livro silencioso, gosto muito mais assim. Quanto ao texto que fecha o livro, custou-me muito, tive de redescobrir a minha própria história. Claro que me tomou menos tempo que Rafael para fazer as ilustrações… sinto que para mim foi uma eternidade. Não conseguia encontrar o tom, mas não queria que o texto final fosse irrelevante. Depois de dezenas de rascunhos, encontrei! Voltei ao meu fascínio pela arte rupestre e pensei nos materiais e na sua estreita relação com os artistas e criadores, algo tão mágico que resistiu ao tempo e está conosco neste momento.

PB – Por que a escolha da técnica com grafite para as ilustrações?
RY – Nunca tinha feito um livro assim. Para dizer a verdade, já trabalhava digitalmente há anos e no início ia ser um livro colorido, no computador, rápido de fazer. Mas depois de quatro anos de trabalho, usando a ferramenta mais básica de qualquer desenhador, as imagens que estão no livro são o resultado. Decisão a partir de uma busca que fiz, depois de testar diferentes técnicas e fazer muitos esboços. Deparei-me com uma imagem a lápis de que gostei muito e decidi fazer um teste. Fiquei muito surpreso com o resultado e a resposta da minha editora quando a viu foi um sonoro sim, esse é o caminho. Não sei se tomei a decisão, acho que foram vários fatores, entre eles María, minha editora, e sem dúvida a história de Jairo, que precisava de ser contada em tons de cinza e com muitos detalhes para que pudéssemos entrar na vida desses personagens que viveram durante o Pleistoceno.
PB – Vivemos num mundo digital, já tão permeado pela inteligência artificial. Neste contexto, como veem este olhar para nossos antepassados que o livro propõe?
MO – Este livro nos convida a imaginar o mundo, a senti-lo como nosso. Como algo muito próximo de nós, a pensar que foi neste planeta que nos tornamos o que somos e onde temos que seguir vivendo. As máquinas, supomos, nunca serão capazes de pensar criativamente sobre o passado, apenas em tendências para o futuro. Eu temeria o dia em que a imaginação humana pudesse ser ultrapassada pelas máquinas.
RY – Há algum tempo conheci uma pessoa que começou a me falar sobre os “atlantes”, como a primeira civilização humana da Terra, a mais antiga e sábia, blá blá blá, uma civilização de DOIS MIL ANOS. Ele tinha um livro, provavelmente vendido por um messias atlante. Conversei com ele sobre a história da humanidade a partir de exemplos conhecidos, com a sorte de ter o google para que ele pudesse perceber na conversa que tinha caído. É impossível saber exatamente a nossa pré-história, mas é muito importante saber um pouco de onde vivemos para podermos avançar como civilização. O nosso livro é ficção, não se enganem, é importante que saibam disso também.

PB – Uma menina como protagonista da primeira história contada seria um convite a imaginar um novo caminho de evolução para a humanidade?
MO – Em muitos dos artigos que lemos e palestras que ouvimos, a possibilidade de ter sido uma mulher que viu o que estava acontecendo, entendeu e depois contou era enorme. Os homens, ocupados em garantir a sobrevivência do seu “rebanho”, só conseguiam ver a parte hostil do mundo que os rodeava (embora, mesmo nesse sentido, seja a menina que repara, a primeira não só a viver, mas a primeira a observar o mundo e a compreendê-lo). Jairo viu isso desde o primeiro momento. A história, a que é contada em imagens, é fiel à primeira que Jairo contou em palavras, o roteiro é o mesmo, a história não muda. O que a fez crescer e comer o texto foi a qualidade impressionante da interpretação de Rafael.
JB – Não sei, a única mensagem para o futuro é a permanência da arte e da interpretação que cada um faz da realidade. Lembrei-me de Picasso quando visitou as grutas de Altamira e disse: “Em 15.000 anos não inventamos nada!” e talvez tivesse razão. O alcance desta arte é espantoso: a arte das grutas ainda hoje é compreensível, vigorosa, tão impressionante, mas também quer narrar, quer dizer-nos alguma coisa, as mãos que as traçaram eram narradoras-ilustradoras. Era uma arte de sobrevivência, mas também mágica e ritual. Um mamute traçado na rocha é poesia, é a nossa visão do Pleistoceno, é ficção, é uma história contada com grande liberdade. O fato de a personagem ser uma menina, uma artista nômade, uma visionária, não é, obviamente, gratuito.
RY – Seria lindo.