Fazer roupas novas com velhos tecidos

Os desafios de dar visibilidade e conquistar um lugar para as línguas indígenas no panorama editorial mexicano, a partir da experiência da Pluralia Ediciones1.

Editar livros em línguas indígenas é algo novo, difícil — quase impossível atualmente — sem um financiamento oficial ou coedições com instituições do nosso país. O livro bilíngue é uma mercadoria sem mercado, tanto entre os falantes da língua quanto entre os que não a falam.  E, no entanto, publica-se em línguas — agora chamadas de nacionais, após a recente aprovação da Lei de Direitos Linguísticos.

Algumas poucas editoras cumprimos essa missão de forma independente. O Estado também publica, embora com objetivos, qualidades e propósitos distintos dos nossos.

No México, atualmente, há 23,2 milhões de pessoas que se identificam como indígenas, das quais 7,4 milhões falam uma das 68 línguas nacionais — e dessas, apenas alguns milhares sabem ler ou escrever nelas. Muitos vivem na pobreza ou na pobreza extrema; mas muitos, neste século, se incorporaram ao sistema e se tornaram invisíveis enquanto indígenas. Outros são profissionais, autores, ativistas: tomaram a palavra e estão decididos a nunca mais permitir que falem por eles, a exercer plenamente seus direitos e a cobrar uma dívida histórica muito antiga.

As leis, as políticas e o discurso oficial das instituições encarregadas de zelar pelos interesses da população indígena são bastante avançados: somos um país multicultural, com educação intracultural, com defesa das línguas, combate ao racismo e à discriminação. Mas a realidade é outra: prevalecem a demagogia, a simulação e a banalização. As línguas se perdem porque os espaços para exercê-las são regionais, enquanto todo o movimento do país — educação, burocracia, saúde, economia e justiça — ocorre em espanhol.

No México, a partir da década de 1980, teve início um programa nacional de educação em línguas indígenas e de formação de docentes falantes. Acadêmicos progressistas e ventos de libertação nacional — como a Declaração de Barbados2 —, junto a falantes e comunidades, colocaram esse programa em movimento.

Simultaneamente, reforçou-se a educação nacional nas comunidades, o que fez com que as línguas — em ambos os casos — fossem rapidamente substituídas pelo espanhol. O processo de eliminação das línguas não era novo; o que mudou foi a velocidade.

Das fileiras do magistério indígena — professores, mediadores comunitários e linguistas nativos formados naquela época — surgiu uma geração vigorosa de intelectuais e lideranças; mas também uma boa quantidade de caciques.

E então, em 1994, para grande surpresa da população mexicana, o EZLN3 se levantou em armas com o lema: “Nunca mais um México sem nós”, que transformou para sempre as consciências tanto de indígenas quanto de não indígenas, além de alterar as relações de poder entre as comunidades — zapatistas ou não — e o restante da população e do governo. Nada voltou a ser como antes, e já não era — nem é — possível se amparar na ignorância ou na inocência.

Os filhos dessa geração tiveram a oportunidade de pensar, decidir, consultar e estudar. O tempo da submissão e da obediência ficou para trás. O grande dilema passou a ser: voltar ou não às suas comunidades — e como voltar? Como se relacionar com a população majoritária, com as instituições e com outras línguas originárias?

A partir do ano 2000, iniciou-se um programa que previa a compra de livros em línguas indígenas e em espanhol para bibliotecas públicas, escolares e de sala de aula. Ninguém sabia produzi-los, avaliá-los, selecioná-los. Finalmente, passaram a ser propostos diversos títulos, que passaram a ser adquiridos em grandes tiragens desde então. Não foi uma concessão nem uma iniciativa espontânea do novo governo: foi uma condição imposta pelo Banco Mundial, após a declaração constitucional de que o México era um país pluriétnico e multicultural.

Desde então, publica-se para o Estado, mas as políticas editoriais são intermitentes, erráticas e atreladas aos mandatos de governo.

Foi nesse contexto que a Pluralia Ediciones — e eu, como autora vinculada a ela — iniciamos um projeto único e especial no campo da edição em línguas originárias. De um lado, acolhemos uma série de autores e poetas — quase todas mulheres — numa coleção que circulou acompanhada de áudios nas respectivas línguas indígenas. Posteriormente, a coleção se ampliou com livros infantis, mais poesia, análises políticas, antologias e ensaios voltados para jovens e o público em geral. De outro lado, como autora com anos de experiência prévia em publicações em línguas indígenas, incluí textos coletados em campo ou em bibliotecas — materiais históricos de antropólogos e linguistas, agora adaptados para leitores não acadêmicos.

Dos textos coletados por professores, como parte do primeiro projeto de edição de materiais de leitura no início do programa de Educação Indígena, ou a partir do trabalho com crianças, pais e instrutores em comunidades, dentro do projeto de educação comunitária indígena da segunda metade dos anos 1990.

Meu trabalho, mais do que o de autora, é o de coordenadora e adaptadora de livros coletivos: colaboram compiladores, tradutores, designers, ilustradores, divulgadores. Todos os textos são originais; às vezes mudam ao serem adaptados para o público infantil, mas nunca em seu conteúdo. Procuramos difundi-los tanto nos lugares onde a língua é falada quanto em outros contextos, onde é possível compilar textos semelhantes. Todos os nossos livros são um convite à replicação, à produção regional, com o objetivo de promover a leitura e a escrita em línguas indígenas. As novas tecnologias aproximam esses livros dos estudantes do ensino médio que são falantes, promovendo a alfabetização em suas línguas.

Além disso, ao serem distribuídos entre falantes de outras línguas originárias e também entre a população mestiça, busca-se promover o respeito, o interesse e o reconhecimento de outras culturas e formas de existência — que contribuam, como uma pequena gota no mar dos preconceitos, para dissolver o racismo e a discriminação sistêmicos que ameaçam as línguas, os falantes e suas culturas.

A isso somam-se um design refinado e uma edição cuidadosa feita por falantes ou autores das próprias línguas. Livros destinados aos pobres não precisam ser pobres. Nosso projeto é literário, visual e político.

Existe uma grande lacuna entre quem se reconhece como indígena e quem fala uma língua indígena. E a lacuna entre quem fala a língua e quem a lê ou escreve é ainda maior.

Nosso desejo é poder acompanhar os livros e conhecer seu impacto — o que institucionalmente é complexo —, realizar oficinas, promover a ressignificação das publicações a partir das comunidades. Muitos dos textos comprados para preencher as cotas de livros em línguas nos sistemas educacionais são traduções ou “correções” de textos originados nessas línguas, ajustados para serem politicamente corretos e demagogicamente convenientes.

A edição não pode estar separada de ações e lutas em outras esferas: a defesa das línguas, dos falantes e de seus territórios é feita junto com eles, para que as instituições aprimorem suas políticas educacionais, editoriais e epistêmicas. Uma única língua e uma única cultura sempre nos tornará mais pobres. A diversidade não dispersa — enriquece.

A próxima geração de autores e pesquisadores indígenas criará seus próprios livros, contará com editores, revisores e críticos vindos de seus próprios povos. Por ora, nós nos propusemos a fazer livros com eles, e não para eles ou sobre eles. Apostamos que, mesmo estando em uma língua que o leitor não fala, o espanhol possa finalmente servir de ponte para os propósitos comuns dos povos indígenas — e não mais ser uma língua de conformismo, submissão e colonialidade.

A Conquista foi um sucesso: uniformizaram-se hábitos, informações e nações. Cada vez se falam menos as línguas, e as culturas estão mais ameaçadas pela globalização de um sistema excludente, onde a identidade tende a se transformar em mais uma mercadoria — banalizada e folclorizada pelo poder para adormecer seus usuários e cumprir cotas de uma suposta equidade, que muitos falantes rapidamente passam a assumir como sua.

Mas a Conquista também foi um fracasso: há cada vez mais autores, mais consciência da especificidade de cada povo, de seus direitos, de sua riqueza, de seus potenciais; apropriando-se de novas tecnologias, propondo novas temáticas, teorizando a partir de outros lugares, firmando novas alianças. O fim que lhes foi decretado já chegou — e eles sobreviveram e ressurgiram. Lá estão, depois de 500 anos, em transformação, conhecedores de algumas das possíveis soluções para o caos apocalíptico que vivemos — e que ainda viveremos.

Tradução: Dolores Prades

Notas:


  1. Texto apresentado na mesa redonda Thousands of Roots, One Shared World: The Strength of Diverse Voices in Children’s Books na BCBF 2025. [Milhares de raízes, um mundo compartilhado: a força das vozes diversas nos livros infantis], que contou com a participação de: Carolina Ballester, Diretora Executiva do IBBY; Mary E. Glenn, Chefe da Seção de Vendas e Marketing das Publicações da ONU, Departamento de Comunicações Globais das Nações Unidas; Daniel Munduruku, autor, Brazil: Elisa Ramirez Castañeda, autora, Mexico; Ed Oner, illustrador, Marrocos; Jöelle Betse Maestracci, editora, Editions Vizavi, Editions Pielo, Ilhas Mauricios; Marit Alette Utsi, Vice-diretora da Davvi Girji e presidente do Conselho da Sálas – Associação Sami de Jornais e Editoras, Noruega.Com mediação de Dolores Prades. ↩︎
  2. A Declaração de Barbados, foi redigida em 1971 por um grupo de antropólogos e pesquisadores latino-americanos reunidos na ilha de Barbados. Trata-se um documento histórico que denunciou a situação de opressão, marginalização e negação de direitos vivida pelos povos indígenas das Américas. O texto criticava duramente o papel do Estado, das elites e até mesmo das ciências sociais na manutenção da desigualdade e da colonialidade, e propunha uma mudança radical nas relações entre os povos indígenas e as sociedades nacionais. Ao defender a autodeterminação, a valorização das culturas indígenas e o reconhecimento de seus saberes, a Declaração marcou um ponto de inflexão nas políticas indigenistas e inspirou movimentos sociais, reformas educacionais e novas abordagens acadêmicas em diversos países latino-americanos. É considerada até hoje um marco na luta por justiça histórica e epistemológica para os povos originários do continente. (N da T). ↩︎
  3. EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) é um movimento político, indígena e armado que surgiu no sul do México, no estado de Chiapas, e ganhou projeção internacional em 1º de janeiro de 1994, ao declarar guerra ao governo mexicano, no mesmo dia em que entrou em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Inspirado nas ideias do revolucionário Emiliano Zapata e estruturado por comunidades indígenas majoritariamente maias, o EZLN denunciava a pobreza, a marginalização e a exclusão histórica dos povos originários no México. Sua luta se fundamenta na autonomia indígena, nos direitos territoriais, na dignidade, na horizontalidade política e na resistência anticapitalista. A frase que marcou seu levante foi: “Nunca mais um México sem nós.” Desde os Acordos de San Andrés (1996), o EZLN abandonou as armas e atua como movimento político e civil de base, promovendo educação autônoma, saúde comunitária, justiça local e organização coletiva em seus territórios. Tornou-se uma referência internacional na luta por justiça social e pelos direitos dos povos indígenas. (N da T). ↩︎

Compartilhe

Post Author

Autor

  • Elisa Ramírez

    Elisa Ramírez Castañeda, nasceu na Cidade do México em 1947. É poeta, socióloga, tradutora e pesquisadora de campo. Foi fundadora e presidente do Conselho Diretor da Casa de Cultura do Istmo, em Juchitán, Oaxaca. Foi coordenadora do projeto editorial Tradição Oral Indígena da Direção de Educação Indígena e da Direção de Publicações da Secretaria de Educação Pública do México. Coordenou coleções de poesia e das séries bilíngues da Ediciones Toledo. Trabalhou no Tiempo de Niños, Cultura Infantil e Alas y Raíces, do Conselho Nacional para a Cultura e as Artes, como assessora do programa de atividades infantis e autora. Escreveu e colaborou em inúmeros livros infantis e juvenis nos quais trabalha com a tradição oral indígena, com destaque para a coleção Fazedores de Palavras, publicada pelo CONAFE (Conselho Nacional para o Desenvolvimento Educacional). Em 2002, foi jurada do Prêmio Netzahualcóyotl para Escritores em Línguas Indígenas.

Artigos Relacionados

Literatura para desarmar racismos geracionais

Parâmetros curriculares nacionais

Quando a afro-bibliodiversidade lê Monteiro Lobato