Flor de Pedra: uma narrativa sobre o tempo que nos resta

Ao iniciar a leitura de Flor de Pedra, novo romance de João Anzanello Carrascoza, lançado em março de 2025, o leitor se depara, já nas primeiras linhas, com um sutil estranhamento, pois é o próprio cemitério quem narra suas memórias. Dividido em duas partes – A vida até agora (Livro I) e A vida daqui em diante (Livro II) -, a obra configura-se como uma rapsódia de vozes e lembranças, em que a morte não é ponto final, mas uma oportunidade para reflexões sobre o tempo, os afetos e o sentido da existência. Partindo de um diálogo direto com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Carrascoza vai além da intertextualidade e propõe um questionamento lírico e filosófico sobre como vivemos e o que deixamos para trás.

Essa inquietação, longe de ser uma novidade, integra uma tradição literária que remonta à célebre indagação do príncipe da Dinamarca: “ser ou não ser, eis a questão”, numa das mais emblemáticas crises existenciais da dramaturgia. A dúvida e seu enfrentamento sempre colocaram o ser humano diante do imponderável, dos seus medos e fantasmas, como se vê na tragédia shakespeariana. A herança de dialogar com os mortos diante da incerteza nos conduz aos tempos de Luciano de Samósata, em Diálogo dos Mortos, passa pelo Bardo de Avon e chega até nós por meio da narrativa do defunto-autor Brás Cubas. É nesse território que Flor de Pedra se inscreve, sendo ao mesmo tempo herdeiro e recriador dessa linhagem. Carrascoza nos convida a retomar a clássica questão existencial com um olhar renovado.

Na trama, reencontram-se os elementos centrais do projeto literário do autor: a delicadeza dos afetos, os vínculos e rupturas familiares, a imprevisibilidade da vida, a instabilidade do ser e do existir. Embora familiares ao leitor de Carrascoza, esses temas ressurgem, como a Fênix egípcia, sob novas formas, envoltos em lirismo e alegorias.

O protagonista encarregado de retratar as vicissitudes da existência não é uma pessoa, mas o próprio cemitério de Cravinhos, cidade natal do autor e presença recorrente em sua obra. A escolha por essa perspectiva inusitada permite que o romance se desdobre, por meio da prosa poética, em pequenas histórias entrelaçadas, como fragmentos de um espelho partido. Fiel e ao mesmo tempo subversivo em relação ao modelo machadiano, o narrador de Flor de Pedra anuncia: “eu reverencio quem narra suas memórias póstumas, mas, em minhas divisas, fulguram só lembranças vivas” (p. 11).

Se o grafismo dos capítulos mimetiza a estética de Memórias Póstumas, a estrutura rapsódica do livro, repleta de micronarrativas, favorece a construção de um painel múltiplo da condição humana. Indo além, a narrativa dialoga com a própria obra de Carrascoza: o Capítulo XXVI, por exemplo, nos apresenta à jovem Beatriz, egressa das páginas da Trilogia do Adeus. A autorreferência opera aqui como camada de um mesmo universo literário.

Destaca-se também o uso da técnica barroca da justaposição de contrários. Ainda na primeira parte da obra, os capítulos CIX (Uma alma penada) e CX (Enterrado vivo) evidenciam essa operação estética: o narrador ironiza, à la Machado, a descrição de uma alma penada feita por “homens perturbados” para, logo em seguida, mergulhar na desumanização provocada pela rotina da vida moderna. A alternância entre o sublime e o trágico ao longo de suas páginas evoca o contraste barroco como força organizadora do sentido.

Um dos eixos centrais do livro, a sucessão de contrastes atua como modo de investigar os limites entre vida e morte. Se na primeira metade, somos apresentados às múltiplas faces da finitude por meio de fragmentos de vidas interrompidas, é na segunda que Flor de Pedra ganha fôlego e expande seu escopo, entrelaçando essas memórias com os saberes acumulados pela humanidade, abrindo espaço para uma filosofia do tempo vivido.

Outro aspecto que merece destaque é a questão da temporalidade (representada no capítulo CXII – Vida Intermediária), em que presente, passado e futuro são encarnados por uma mulher que enterra a mãe e amamenta a filha, um momento poético e contrastante com as passagens que abordam as vítimas da pandemia e o negacionismo.

Sob uma perspectiva mais abrangente, o romance opera como um caleidoscópio existencial. Ao mesmo tempo em que escava a morte, celebra a pulsação da vida, ainda que filtrada pelas vozes silenciadas de um cemitério. A reflexão sobre a finitude, longe de ser melancólica, transforma-se em convite à lucidez.

Nesse ponto, o livro ecoa o princípio estoico do memento mori (“lembre-se de que você vai morrer”), sem perder de vista o contraponto vital do carpe diem (“aproveite o dia”). A presença da morte, de certo modo, é o que alimenta a urgência da vida. Essa perspectiva pode ser reforçada pela inserção de uma biblioteca na segunda parte da narrativa, tornando-se praticamente impossível dissociá-la da vanitas, dentre as quais destaca-se a alegoria da caveira debruçada sobre os livros, representando a transitoriedade humana e a necessidade do conhecimento como metáfora da vida.

A partir dessa premissa, Carrascoza se apropria de recursos consagrados da tradição literária para tecer um estilo próprio, em plena pós-modernidade, ressignificando filosoficamente morte e vida.

O italiano Giorgio Agamben, em O tempo que resta: um comentário à carta aos romanos (2017), propõe uma leitura provocativa da temporalidade humana: “não é o instante em que o tempo acaba, mas o tempo que se contrai e começa a acabar (…) – ou, caso queiram, o tempo que resta entre o tempo e o seu fim” (Agamben, 2005, p. 62). É sobre esse tempo — o tempo que resta — que Flor de Pedra se debruça e nos faz refletir.

FLOR DE PEDRA

Editora: Faria e Silva
Nº de páginas: 240
Formato: 14,6 X 21
Data de publicação: fevereiro 2025

Imagens: Detalhes ilustrações de Sydney Smith do livro Town is by the Sea, de Joanne Schwartz.

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  • Eduardo Rocha

    Eduardo Rocha é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e pesquisador em literatura brasileira contemporânea. Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero e especialista em Crítica Literária pela PUC-SP, também é licenciado em Letras e bacharel em Jornalismo. Realizou cursos de extensão na Universidade de Paris e na Universidade Internacional da Andaluzia. Atuou como editor-assistente na Agência Folha (Grupo Folha) e integra o júri do Prêmio Sebrae de Jornalismo. Atualmente, é professor universitário na Unimes.

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