Fora das caixas e armários: literatura em movimento na EMEI

Em abril de 2023, iniciei o trabalho de coordenação pedagógica em uma EMEI que fez a opção pela Educação Integral. Logo ao chegar na Unidade, a primeira ação foi a observação do cotidiano e o acompanhamento das práticas pedagógicas em curso, com a intenção de conhecer o trabalho desenvolvido e identificar os desafios existentes para efetivarmos o Currículo da Cidade: Educação Infantil na perspectiva da integralidade.

A Unidade já apresentava avanços no trabalho pedagógico com a infância, como a redução de mesas nas salas, a ausência de planejamento baseado em datas comemorativas e a valorização da escuta das crianças. No entanto, identifiquei a necessidade de intervir no trabalho com a linguagem literária, pois, embora já houvesse práticas de leitura, elas eram ainda incipientes e precisavam ser ampliadas para favorecer o desenvolvimento das crianças. Percebi problemas, como o armazenamento dos livros em armários, dificultando o acesso, a pouca presença de livros nos contextos de aprendizagem e a existência de um acervo novo guardado em caixas, sem uso. Além disso, ao investigar as práticas docentes, constatei que a leitura literária não era frequente e que grande parte do acervo era desconhecida por professoras e crianças.

A partir do diagnóstico sobre as práticas de leitura docente, iniciei a mobilização de livros no momento de formação continuada com os grupos de professoras. Os livros que estavam armazenados em caixas começaram a ser disponibilizados para uso em sala. Era uma ação inicial e necessária. Nesse processo, esteve em pauta a dimensão formativa. Foram realizados diversos encontros formativos com as professoras. Em especial, destaco uma ação externa, ocorrida em uma livraria de bairro, próxima à EMEI. A intenção era proporcionar um momento de diálogo do grupo docente com uma livreira, de forma que ela compartilhasse sua relação profissional e pessoal com os livros.

Após o contato com o acervo, avançamos na discussão sobre a leitura literária na EMEI e retomamos duas ações que já tinham ocorrido em anos anteriores e que, naquele momento, estavam sem continuidade: a “leitura simultânea” e a “biblioteca circulante”.

A primeira ação ocorria com a escolha prévia de livros pelas crianças, mediante cartazes, que seriam lidos por um profissional da escola. Quinzenalmente, destinávamos um dia e horário para a leitura literária, que era feita por todos os professores e pela coordenação pedagógica. A frequência dessa ação foi muito positiva, pois movimentava a rotina da EMEI a partir dos livros e da leitura literária. Gradativamente, as crianças foram se habituando às ações envolvidas nessa prática: escolha do livro mediante a escrita do seu nome no cartaz; recebimento de ingresso para participação na leitura; deslocamento pela EMEI até o local do livro escolhido; leitura literária; compartilhamento da leitura com sua turma.

Importa notar que havia uma etapa prévia à leitura simultânea, a qual se dava com o manuseio e a interação das professoras com os livros. Outro ponto a se destacar foi que o coordenador pedagógico, considerando a homologia de processos, também participava das leituras simultâneas feitas às crianças, de maneira a contribuir para a eficácia e legitimidade das ações de leitura.

Ainda se tratando da ação de leitura simultânea, foi possível abordar a bibliodiversidade, pois, no decorrer do ano, as crianças puderam ter acesso a um acervo que, dentre outras questões, tematizava a questão indígena, livros sem texto e autores significativos da produção literária contemporânea. Em destaque, sinalizo a relevância da linguagem literária como recurso para se executar uma educação antirracista. Na escolha e na seleção de livros para a leitura simultânea, demos destaque para que, nesses momentos, houvesse representatividade negra nas obras.

No âmbito da coordenação, outra ação envolvida com a leitura literária foi a mobilização das professoras para a retomada de uma prática, a biblioteca circulante, que já tinha ocorrido na EMEI, mas que, em 2023, não estava em curso. Foram agrupados livros que contemplam a bibliodiversidade, e que tinham a função de servir como acervo literário para empréstimo.

A prática da biblioteca circulante consistia no empréstimo semanal de livros feitos pelas crianças. Essa ação também envolvia a escolha das crianças por livros que fossem de seu interesse e permitia que o livro fosse levado para casa. Com isso, as crianças tinham a oportunidade de vivenciar outras experiências mediadas pelos livros literários com suas famílias. Foram agrupados livros que constituíssem um acervo literário para empréstimo, e que contemplassem a bibliodiversidade. 

Um fator importante a se destacar é a interlocução com as famílias. No decorrer do ano letivo, as reuniões e/ou encontros com as famílias, foram considerados momentos formativos. Nesse sentido, em todas as reuniões, a coordenação pedagógica trouxe para as pautas assuntos ou temas do Currículo da Cidade para discutir com as famílias, inclusive sobre cultura escrita. Além de dialogar com as famílias a respeito da organização do trabalho na Educação Infantil com a linguagem escrita, também entravam como pauta as ações que ocorriam com a leitura literária na EMEI.

Além da apresentação das práticas como leitura simultânea e biblioteca circulante, a leitura literária sempre perpassou as pautas dos encontros com as famílias. Um exemplo disso foi a preparação das famílias para a entrega dos livros do Programa Minha Biblioteca, em que contextualizamos essa política pública, o programa Minha Biblioteca, e sua função na trajetória escolar das crianças.

Outro aspecto relativo a ampliação do acesso aos livros foi a permanente presença dos acervos literários, infantil e adulto, nos momentos de formação, como reunião pedagógica e/ou encontros de horário coletivo ou projeto especial de ação. Nesses momentos, os títulos eram mobilizados por meio de relatos de leitura feitos pela coordenação ou compartilhamento de leituras feitas pelas professoras.

O investimento de mobiliário nas salas de referência foi outro passo importante na consolidação do trabalho com a leitura literária na EMEI. No segundo semestre houve o ganho no acesso das crianças ao acervo de livros literários. Mensalmente eu fazia a troca dos livros e gibis dos expositores, e houve a possibilidade das crianças sempre acessarem novidades e livros novos nos expositores das salas de referência.

Já no final do segundo semestre a coordenação pedagógica iniciou mais uma ação relacionada de acesso ao livro literário, que foi o “Clube de Leitura”. A chegada de um acervo literário em que haviam 30 (trinta) exemplares de cada título, e intencionalidade de obter mais avanços qualitativos na interação das crianças com os livros motivou esta ação.

A partir daí, a coordenação pedagógica fez as primeiras reuniões do clube de leitura, em parceria com as professoras, junto com as crianças. Nestes momentos o coordenador levava os livros até as salas de referência e mediava uma breve conversa com as crianças sobre o que seria um clube de leitura. Em seguida realizamos a leitura do livro. A leitura em voz alta era feita pelo coordenador e professoras, e as crianças tinham os livros em mãos, para acompanhar e por conseguinte fazer sua leitura. Ao final conversamos sobre o livro lido.

Ao final do ano letivo, na avaliação da coordenação pedagógica, o conjunto de ações e experiências pedagógicas realizadas durante o ano de 2023 relacionadas à promoção da leitura literária foi bastante positivo, já que possibilitamos que livros literários estivessem fora de caixas e armários. Com isso, garantimos experiências diversificadas com grande potencial de aprendizagem mediante o acesso ao livro literário, e a literatura esteve em constante movimento na EMEI.

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  • Coordenador pedagógico da Rede Municipal de Ensino de São Paulo e doutor pela Universidade Federal de São Paulo, onde desenvolveu pesquisas sobre práticas de leitura escolares. É ciclista e fundador da Editora Betina.

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