Ilustrar as coisas

Nos últimos anos, eu me fiz e me fizeram perguntas de vários tipos sobre o ofício de ilustradora e de autora de imagens e textos. Perguntaram se eu me sentia “dividida”, talvez porque este trabalho tem características implícitas de movimento, as mesmas qualidades e formas da viagem, uma necessidade de pesquisa e reconhecimento dos espaços construídos em suas fisicalidades e em suas abstrações.

Perguntaram se eu tinha mestres inspiradores.

Perguntaram por que eu prefiro a colagem.

O porquê de ser fascinada pela costura que pode se tornar paisagem no papel.

De quê deriva minha paleta de cores.

Perguntaram se as cadeiras eram importantes na minha vida de ilustradora, já que eu nunca tinha desenhado uma… se eu tinha trepado em árvores, se eu tinha um esconderijo para encontrar inspirações, e tantas outras coisas.

De onde venho? Venho de onde saí.

Sou originária da Sardenha. Um lugar pobre, mas rico de signos, onde o vento desenha as árvores retorcidas, onde o lentisco e a eufórbia colorem manchas eternas, onde as ondas parecem com aquelas sonhadas pelos pincéis dos mestres japoneses, uma ilha com muitos vazios e silêncios, onde o mar ensina uma gradação de cores infinita, entre elas o verde-celadon, o verde-zimbro, o príncipe azul da Prússia.

Certamente tudo isso me influenciou.

Por sorte, ninguém ainda me perguntou onde eu quero chegar.

Por que a colagem? Por que a costura?

Simplesmente adoro… os gestos da colagem, o entusiasmo do procurar, do parar e recolher os pedaços de si, as próprias memórias. Livre-arbítrio, frescor do gesto, naïveté da colagem; estas tem sido características irrenunciáveis para o surrealismo, o dadaísmo e toda a arte moderna em geral.

A colagem é saber ler, eleger, escolher, envolvendo todos os cinco sentidos, é um gesto prático, carnal, assim como Pennac 1Daniel Pennac, escritor francês (1944-) e autor de Diário de Escola (Ed. Rocco).entende todo o saber.

Na colagem se aninha o gesto da descoberta, da invenção.

Escrever para a infância nunca foi uma prática “menor”, pouco séria ou redutora, de colorir artificialmente, de cortar pela metade. Quem não é capaz de perceber a integridade e a franqueza da criança continua uma pessoa pela metade, dividida.

Em seus estudos sobre o ato de imaginar e de criar na infância, Lev Vygotsky afirma o quanto nossa memória é importante como impressão. É a história de nossa experiência e a memória interior que permite a reiteração dos gestos, dos pensamentos, que consente uma atividade reprodutora. Vygotsky compara nosso cérebro a uma folha de papel dobrada; no ponto da dobra estará um signo que constitui ao mesmo tempo “o resultado de uma modificação produzida e a predisposição da mesma no futuro”.

Eu quero ter a memória desta dobra de papel, por isso faço literatura para a infância.

Acho que não existe uma coisa que eu não gostaria de ilustrar. Ilustrar é como externar o pensamento através das imagens, e nós temos inevitavelmente uma ideia sobre tudo aquilo que nos circunda.

Ilustrar uma pedra pode ser às vezes tão difícil quanto ilustrar um sentimento, quando à pedra queremos dar uma alma. Quanto mais vou adiante, mais me dou conta do quanto pode ser complexa a ilustração e a literatura para crianças, que estão entre os públicos mais atentos e livres que existem, plenos “coautores” do nosso trabalho.

Quem são meus mentores? Quem mais me influenciou? Não dou conta de dizer, são muitos, tantos, são todas as pessoas cujos olhares encontro pelo caminho, são todos aqueles que confiam na disciplina da casualidade.

O estudo da arte e dos artistas ocupa a maior parte do meu tempo.

Sou profundamente convicta que a nossa característica é estar sempre em movimento e uma estratificação de outras características adquiridas e reelaboradas.

Artistas como Jean Hans Arp, o nosso eclético Bruno Munari, artista, designer, ilustrador, escritor, mas sobretudo inventor, eram devotos daquela que defini como disciplina da casualidade.

Penso em Bruno Munari, quando ele citava a “lei do acaso” de Hans Arp, para mostrar às crianças, aos adultos e a quem quiser como “transportar um fato no campo da arte e reconstrui-lo com a fantasia”, como posicionar os pedaços de retalhos, de papel colorido, de caixas, de tal modo que assumam uma posição casual.

“E assim com calma e sem pensar em Rafael, reconstruimos uma coisa que antes não existia, uma coisa que ninguém jamais havia visto antes, uma coisa que nem nós conhecíamos, uma coisa que jogaremos de imediato no lixo porque será uma porcaria. Perseverando chegaremos lá.”

Aqui está, portanto, por que escrever e desenhar para crianças: para lembrar da própria imperfeição entre as dobras de uma folha, em um signo imperfeito, para trocar com a criança folhas de memórias jamais perfeitas, por que nós, como a criança, nos envergonhamos diante das nossas linhas tortas e desproporcionais, porque eles não sabem que fingimos não ter sido crianças.2Texto publicado originalmente em L’Iindice dei Libbri per Ragazzi, supplemento al numero 4, abril 2017.

Tradução Roberto Almeida


Imagem: Ilustração de Daniela Murgia.


Notas

  • 1
    Daniel Pennac, escritor francês (1944-) e autor de Diário de Escola (Ed. Rocco). ↩︎
  • 2
    Texto publicado originalmente em L’Iindice dei Libbri per Ragazzi, supplemento al numero 4, abril 2017. ↩︎

Compartilhe

Post Author

Autor

  • Daniela Iride Murgia

    Daniela Iride Murgia é ilustradora e artista visual com um diploma em Arte Oriental e mestrado em ilustração. Recebeu diversos prêmios como: participou da ILLUSTRARTE 2012 e 2013, Lisboa; finalista do Prêmio Internacional V Compostela para Livros de Imagens, Espanha; prêmio para o melhor livro de imagens A la Orilla del Viento 2012, Fundo de Cultura Económica, México. Prêmio Caniem, Câmara Nacional da Indústria Editorial Mexicana 2013; finalista no Prêmio Italiano Andersen 2015, Itália. Nos últimos anos, colaborou com Il Sole 24 Ore, Telecom, Vogue, l'Espresso, FCE / México, Edizioni Corsare / Itália, DADA, Artebambini / Itália, Edições Notari / Suíça, Topipittori / Itália.

Artigos Relacionados

Engrenagens que contam histórias