O movimento relatado no projeto Literatura periférica: território de bebês e crianças pequenas integra um projeto ainda maior da Unidade Educacional, que se refere ao direito à cidade e à ocupação do espaço público por bebês e crianças. Nesse sentido, a literatura também foi vista por nós, educadores, como um território a ser visibilizado e ocupado por todos nós. A qualificação do acervo perpassou pelos princípios estéticos e éticos do PPP (Projeto Político-Pedagógico) da Unidade Educacional, numa perspectiva decolonial e a partir da pergunta: como potencializamos o cuidado no início da vida?
A leitura literária, em especial de poemas, em nosso projeto, tem como intencionalidade ampliar as experiências estéticas, qualificar o repertório de bebês e crianças valorizando autorias negras, periféricas, do nosso território, bem como a cultura dos saraus. Um sarau na praça, no espaço público, envolvendo toda a escola, todas as famílias, comunidade, equipamentos do entorno e território, explicita que a literatura para nós é arte e garantia de direitos. A arte é caminho de ocupação do espaço público. A poesia é linguagem das infâncias, que aproxima poeta e criança na curiosidade, na inventividade e na brincadeira com a palavra.
Assim, o projeto perpassa a formação, o trabalho cotidiano com bebês e crianças nas salas de referência, o trabalho com as famílias, comunidade, entorno, artistas e equipamentos do território e culmina nos dois Saraus na Praça que realizamos, um em cada semestre de 2023. Bebês e crianças são valorizados através do acesso à leitura, a periferia é valorizada através das autoras e autores periféricos, especialmente negras.
A seguir, listamos algumas etapas do projeto:
-Estudo do território e do acervo literário no PEA (Projeto Especial de Ação);
-Estudo sobre decolonialidade e literatura antirracista no PEA;
-Estudo de Narrativas Negras;
-Organização nas salas de referência com acervo acessível para bebês e crianças, com literatura indígena, literatura negro-brasileira, livros com temática da cultura e filosofia africana, contos africanos, migrantes, orientais, contos da américa latina, poemas para crianças, livros rimados, parlendas, quadrinhas, brincadeiras cantadas, Cadernos Negros, livros de autores do nosso território como Cidinha da Silva, Nivaldo Brito, Dinha Maria, Helena Silvestre, Sergio Vaz, Cocão Avoz;
-Rodas de leitura cotidianas em todos os agrupamentos;
-Momentos livres de apreciação de livros em todos os agrupamentos;
-Envios de poesias e dicas literárias para as famílias por meio de redes sociais;
-Apreciação da playlist criada nas plataformas digitais “Sarau na Praça” em todos os agrupamentos;
-Circulação da “brincadeira da peneira” (brincadeira tradicional) entre bebês e crianças nos diversos grupos;
-Vídeos e visitas de Dona Edite, que recita no Sarau da Cooperifa;
-Edições do Sarau na Praça;
-Produção de artes para divulgação e convites do Sarau na praça (digitais e físicos)
-Produção de tecidos com poemas que ficam permanentemente nos espaços externos da escola e na praça, como acolhimento estético;
-Produção de varal de poesias e de cordéis no Sarau na Praça;
-Produção de quadrinhas e lambes com os MGII
-Registros nos diários de bordo, redes sociais e inscrição para o prêmio Paulo Freire.
Essa integração e parceria é uma das premissas que permeia todo o nosso trabalho. Como princípio, também podemos citar a literatura como experiência coletiva de linguagem e de linguagem coletiva e o necessário e emancipador encontro com a palavra. Como mencionado, há uma ampla divulgação dos Saraus na Praça, que acontecem aos sábados, tanto pelas redes sociais quanto pelos convites que são entregues pessoalmente pelas crianças nas andanças pelo entorno. Os eventos são realizados com a presença de bebês, crianças, famílias, equipamentos do entorno, comunidade e convidados. Há leituras literárias nos agrupamentos, de poesia e literatura antirracista, para acolher os participantes nas reuniões com as famílias. Durante o Sarau, as famílias participam da brincadeira da peneira, das brincadeiras cantadas e são convidadas a recitar no microfone com seus filhos e filhas, já que defendemos a leitura de mundo a todos:
“O mundo de linguagem, é como uma pele que nos reveste, a morada que habitamos pela qual percebemos o mundo que nos rodeia, pela qual lhe atribuímos sentidos, nos expressamos e nos colocamos nele. É neste mundo que existe a literatura. É neste mundo de palavras e de silêncios, de morte e de renascimento que a literatura constrói seu sentido mais humano.”
Yolanda Reyes (2012)
O projeto privilegia o acervo literário decolonial, na perspectiva de gênero, classe, raça e inclusão. Assim, os livros que trazem representatividade e abordam essas temáticas de forma qualificada são os mais utilizados. Outro critério marcante nesta composição são os livros de autoria periférica, especialmente autores da Zona Sul. Todos os projetos do CEI buscam à valorização dos saberes periféricos, legitimando produções literárias por vezes subjugadas. Se entendemos o conhecimento como emancipador, a palavra periférica precisa ser considerada. É imaginário, identidade, pertencimento e descolonização da experiência estética. Em 2022, quando recebemos a Patrícia, formadora da Diretoria Regional no CEFAI como intérprete de LIBRAS, ela nos auxiliava em diversas ações, garantindo a acessibilidade. O compromisso com a equidade, inclusão e integralidade também apareceram nas participações de Dona Edite (pessoa idosa, negra, cega), na valorização dos equipamentos do território, nas diferentes estratégias de mediação de leitura para bebês e crianças com TEA.
A variedade do acervo literário não perpassa apenas obras consideradas da literatura infantil, potencializando e ampliando o repertório de bebês e crianças com textos de autores periféricos, mulheres negras, indígenas, em consonância com os princípios estéticos do Currículo da Cidade: Educação Infantil, com a concepção de infâncias do Currículo Integrador da Infância Paulistana, com os apontamentos sobre as diferentes linguagens dos Indicadores de Qualidade da Educação Infantil, dentre outros pontos. Os desdobramentos ocorrem nas ações formativas, na participação de eventos no território, nas visitas aos equipamentos culturais e ao recebermos convidados.
O direito à literatura é também o direito à cidade.
Imagem: Christian Robinson
Referência
REYES, Yolanda. Ler e brincar, tecer e cantar. Literatura, escrita e educação. São Paulo: Editora Pulo do Gato, 2012.