Livros para a vida toda

O tema proposto para esta conversa, “livros para a vida toda”, abre múltiplos caminhos de reflexão, que se entrelaçam e se alimentam mutuamente. O fio condutor escolhido para desenvolver este tema é a formação de leitores. Afinal, estamos falando das infâncias, da linguagem e da possibilidade de habitar as palavras e delas se apropriar como sujeitos.

A proposta é percorrer um caminho feito de perguntas.

O que nos oferece o mercado?

Do ponto de vista do mercado editorial e considerando o atual contexto de superprodução que caracteriza a maior parte dos países, torna-se cada vez mais necessário identificar quais são os livros que se destacam e que permanecerão vivos ao longo do tempo, acompanhando seus leitores pela vida toda.

Para dar uma ideia da dimensão dessa produção, foram inscritos aproximadamente 4400 títulos para concorrer ao Prêmio Bologna Ragazzi 2026, e sabemos que nem todas as editoras enviam seus livros para avaliação. 4.400 novidades publicadas em diferentes partes do mundo.

Além da produção mundial, basta observar o caso brasileiro. Considerando a quantidade de livros recebidos anualmente para avaliação nos Destaques Emília, percebemos um crescimento constante e expressivo do número de títulos publicados. O Brasil foi o sétimo país que mais enviou livros para o prêmio de Bolonha, embora possamos dizer que o mercado editorial brasileiro não vive exatamente seu momento mais dinâmico. 

Retomando o fio da reflexão, temos diante de nós um mercado superaquecido, no qual os livros verdadeiramente inovadores muitas vezes acabam se perdendo em meio a uma avalanche de publicações. O resultado é uma sensação de excesso do mesmo: fórmulas que se repetem, temas que se repetem, tendências que se multiplicam. Em suma, livros demais e, frequentemente, pouca diversidade efetiva. 

Sabemos que o componente subjetivo é decisivo para que um livro encontre seu leitor. Os leitores são diferentes entre si, e inúmeros fatores contribuem para a construção de suas preferências. No entanto, quando pensamos em leitores em formação, antes que consigam consolidar um repertório capaz de sustentar critérios próprios de escolha, o papel dos mediadores e mediadoras torna-se fundamental.

Quanto maior for a diversidade oferecida — de temas, gêneros, linguagens, estilos e perspectivas — mais amplo será o repertório disponível para que crianças e jovens construam seus itinerários leitores e se constituam como leitores autônomos.

Mas que leitores?

Essa pergunta, que à primeira vista pode parecer retórica, é decisiva para orientar aquilo que selecionamos e para revelar o que entendemos por infância, juventude, leitura e literatura.

Ninguém melhor do que Graciela Montes para nos oferecer parâmetros para pensar essa questão:

Quando dizemos que alguém ‘é um leitor’ e o imaginamos como alguém audacioso e sagaz, que se insurge contra discursos paternalistas ou repressivos, alguém inquieto, curioso, incitador de ideias e corajoso para entrar sem guias turísticos nos labirintos (como pedia Nietzsche), parece que não estamos pensando exatamente em um leitor de manuais de instrução, e possivelmente também não em um devorador de folhetins.

Em que leitor estamos pensando?

Em um leitor de manuais?

Em um leitor de fórmulas prontas?

Ou em um leitor autônomo, inquieto, desobediente, audaz, capaz de questionar e interpretar o mundo?

Que leitor queremos formar? Essa é uma pergunta fundamental.

Dependendo da resposta, serão diferentes os livros selecionados e também os critérios de qualidade que orientarão essa escolha. Até aqui falamos da mediação, mas essa reflexão se aplica a todos os agentes da cadeia do livro: escritores, ilustradores, editores, bibliotecários, livreiros e todos aqueles que, de alguma forma, participam da construção dos percursos leitores.

Isso significa que, para além da qualidade da escrita ou da excelência das ilustrações, existem critérios orientados por concepções nem sempre explícitas ou conscientes.

Por exemplo, se partimos da ideia de que a infância necessita de instruções e de que os adultos têm a responsabilidade de transmitir orientações corretas, é natural que encontrem espaço para livros excessivamente moralizantes, com mensagens fechadas e respostas prontas.

Livros fáceis. Livros que infantilizam a infância. Livros paternalistas, sem silêncios, sem ambiguidades e sem surpresas. Infelizmente, sabemos que esse tipo de produção continua sendo abundante e encontra amplo espaço no mercado. Assim como os livros de autoajuda que procuram estar a serviço das infâncias no enfrentamento do cotidiano e de suas emoções.

Teresa Colomer afirmou certa vez que nada revela melhor o pensamento de uma sociedade em determinada época do que sua literatura para crianças e jovens. Talvez possamos ir um pouco além e dizer que nada revela melhor o horizonte leitor dos adultos do que aquilo que eles escolhem oferecer às crianças.

Penso que se torna cada vez mais urgente contextualizar a leitura e a literatura dentro do mundo em que vivemos: um mundo marcado pela complexidade, por suas desigualdades profundas, na sua diversidade, barbárie e violência contra as infâncias. Se há algumas décadas ainda era possível falar de “infância” no singular e tomar como referência um cânone praticamente hegemônico da literatura infantil e juvenil, hoje essa noção se transformou radicalmente.

É importante enfatizar que essa aparente universalidade sempre esteve associada à invisibilização e marginalização de amplos setores da sociedade, historicamente excluídos do acesso à cultura, à leitura. Os dados disponíveis mostram de forma contundente o crescimento das desigualdades entre as infâncias. Em nosso continente, infelizmente, essa é uma realidade compartilhada por muitos países.

Ao mesmo tempo, novas vozes vêm questionando os cânones estabelecidos e ampliando os imaginários possíveis, trazendo outras experiências, outras histórias, outras cosmologias e outras formas de compreender o mundo. Essas vozes enriquecem a literatura e ampliam o universo de possíveis leitores.

Sabemos que uma das portas de entrada para a leitura é a possibilidade de reconhecimento, principalmente entre aqueles cujos imaginários nunca foram representados. Não se trata apenas de encontrar um reflexo de si mesmo, mas de identificar elementos de pertencimento que permitam ao leitor compreender-se como parte de uma comunidade humana mais ampla, na sua identidade e na sua diferença.

Nesse sentido, reconhecer a existência de infâncias e juventudes, sempre no plural, torna-se imprescindível. Reconhecer outras literaturas — com personagens, temas, espaços, perspectivas e cosmologias diferentes das tradicionalmente legitimadas — é fundamental para sensibilizar e acolher novas gerações de leitores. Defender o acesso à literatura como um direito é, hoje, mais urgente do que nunca.

Gostaria de abrir um breve parêntese para compartilhar alguns resultados recentes das pesquisas sobre leitura no Brasil.

A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2025, revelou que o país perdeu quase sete milhões de leitores nos últimos quatro anos. Pela primeira vez na história da pesquisa, os não leitores passaram a ser maioria. 53% dos brasileiros não leram sequer parte de um livro — impresso ou digital, de qualquer gênero — nos três meses anteriores à realização do levantamento. A queda ocorreu em todas as faixas etárias, níveis de escolaridade e grupos sociais.

Por outro lado, a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, trouxe um dado aparentemente contraditório: 18% dos brasileiros com mais de 18 anos compraram pelo menos um livro em 2025, representando um crescimento de cerca de três milhões de novos consumidores em relação ao ano anterior. Mas, o dado particularmente mais significativo é o protagonismo das mulheres nesse mercado. Elas representam 61% dos compradores de livros, com destaque para as mulheres negras da classe C, hoje o grupo mais expressivo entre os consumidores.

Esses números nos ajudam a compreender quem são os leitores brasileiros de hoje e mostram como novas vozes, novos sujeitos e novos territórios de leitura vêm ampliando horizontes e iluminando margens que, durante muito tempo, permaneceram invisíveis.

E acredito que não seria equivocado ampliar essa reflexão para outros países latino-americanos que vivem processos semelhantes de democratização do acesso à cultura e de conquista de espaços por grupos historicamente excluídos, inviabilizados.

A leitura como prática emancipadora

Acredito que, para pensar nos “livros para a vida toda”, precisamos antes refletir sobre quais livros, quais leitores e quais leituras estamos considerando. Vivemos um momento em que os desafios apenas se multiplicam. Nesse contexto, é importante reconhecer que a leitura não é uma prática homogênea, nem acontece da mesma forma em todos os espaços e circunstâncias. Hoje sabemos que as tecnologias digitais, as redes sociais e, mais recentemente, a inteligência artificial disputam de maneira intensa nossa atenção e nosso tempo.

Os impactos sobre as infâncias e juventudes são evidentes. Lê-se muito, talvez mais do que nunca. Mas lê-se de outras formas. Maria Teresa Andruetto escreve, em seu ensaio Literatura e resistência:

“Não existe literatura sem anomalia, sem ruptura, sem desvio. A literatura está sempre em busca do estranho, do incomum, do diferente, do particular. O protagonista é sempre alguém que apresenta algum tipo de conflito com o sistema, com a sociedade ou com o mundo em que vive. Há sempre algo deslocado naquilo que se narra, e é precisamente isso que gera a narrativa.”

Talvez seja justamente essa capacidade de deslocamento que torne a literatura ainda mais necessária nos dias atuais. Entre outras coisas, a literatura nos obriga a desacelerar, um ato de resistência frente ao ritmo alucinante das redes sociais. Ela nos convida a habitar outras temporalidades, a imaginar outras vidas, a experimentar outras perspectivas e a conviver com a complexidade.

Segundo a neurocientista Marianne Wolf, a leitura mobiliza um conjunto extremamente sofisticado de relações entre percepção, memória, linguagem, imaginação e emoção. Em suas pesquisas, Wolf destaca a importância da chamada leitura profunda — uma leitura reflexiva e analítica — para o desenvolvimento do pensamento crítico, da empatia e da capacidade de estabelecer conexões complexas.

Sua preocupação é conhecida: a aceleração dos ambientes digitais pode comprometer justamente essas capacidades que a leitura literária ajuda a desenvolver. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de compreender que diferentes suportes e diferentes práticas produzem diferentes formas de atenção.

A leitura literária exige tempo, concentração. Exige disponibilidade. Exige silêncio. Exige a disposição de permanecer em uma pergunta sem a necessidade imediata de uma resposta.

Recentemente, a revista The New Yorker publicou uma extensa reportagem sobre a crise da alfabetização e dos hábitos de leitura entre crianças e jovens. Um dos dados mais inquietantes mostrava que, em 1984, apenas 8% dos adolescentes de 13 anos afirmavam que “nunca ou quase nunca” liam por prazer. Hoje, esse percentual chega a 29%.

O que aconteceu? Certamente não podemos atribuir essa mudança à qualidade da literatura produzida para crianças e jovens nas últimas décadas. Ao contrário, vivemos um momento de criatividade e de grande diversidade de vozes. As razões são múltiplas e complexas. Entre elas estão as transformações nos modos de socialização, o aumento do tempo de exposição às telas, a fragmentação da atenção e o consumo cada vez mais passivo de conteúdos digitais.

Diante desse cenário, formar leitores críticos, curiosos e capazes de refletir sobre o mundo torna-se uma tarefa ainda mais urgente. E torna-se ainda mais complexa se apenas os leitores profundos, como os denomina Marianne Wolf, tiverem as capacidades básicas para acessar textos literários.

Talvez esse seja um dos maiores desafios de nosso tempo. Porque não se trata apenas de formar leitores. Trata-se de formar sujeitos capazes de interpretar a realidade, questionar discursos, imaginar alternativas e participar ativamente da construção de um futuro melhor.

Neste contexto, a leitura emancipadora se converte em um ato poderoso e necessário, não podendo ser entendida apenas como um instrumento de alfabetização ou de acesso à cultura. Ela é também uma ferramenta de transformação social. Uma prática que permite questionar estruturas de poder, responsáveis pelo limitado acesso à educação e à leitura.

De tal sorte que, como mediadores, educadores, bibliotecários, professores, editores e agentes culturais, nossa responsabilidade vai muito além da seleção de bons livros. Cabe a nós criar espaços de escuta e diálogo abertos e respeitosos com os leitores e leitoras de todas as idades. Cabe a nós reconhecer as múltiplas realidades dos leitores e construir pontes entre essas experiências e os livros.

Somente assim poderemos contribuir para a formação de leitores que não apenas sejam leitores de literatura, mas que encontrem nela ferramentas para compreender o mundo, transformar a si mesmos e participar de forma mais consciente da construção de sua própria história.

Quais são os livros para a vida toda?

Muitos autores e autoras já falaram sobre os livros que marcaram suas vidas. Maya Angelou, por exemplo, refletiu diversas vezes sobre a importância da leitura durante sua infância e juventude. Em sua autobiografia Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola, ela descreve como a literatura lhe ofereceu pertencimento, força e possibilidades de imaginar outros futuros em momentos particularmente difíceis de sua vida.

Não é pequena nossa responsabilidade como pontes entre livros e leitores, o que selecionamos, indicamos, oferecemos e a forma, o como, lemos e apresentamos esses livros é determinante para a formação dos itinerários leitores, caminho de construção dos livros para a vida toda.

Porque, para além dos livros, dos leitores e da mediação, existe a realidade concreta das infâncias que vivem hoje em meio a guerras, deslocamentos forçados, fome, violência e exclusão. Nesse sentido, vale, mais uma vez, recordar mais um trecho do texto já  citado, de Maria Teresa Andruetto: 

/…/ a literatura para a infância — e todo o ecossistema que a envolve, composto por escritores, ilustradores, editores, pesquisadores, mediadores, professores, bibliotecários, instituições, prêmios e organizações — não pode hoje desviar o olhar de Gaza.

Encerro com um poema:

Palavras coloridas com um certo cheiro

Vou aprender palavras novas.

Esquecer as palavras:  cozinha comunitária, fila da água potável, seis da manhã, ordem de evacuação, zona de perigo.

Vou esquecer a umidade da tenda e o calor que faz dentro dela, que parece uma bola de fogo entre uma e cinco horas da tarde. Vou esquecer as moscas, como eram irritantes.

Mas não vou conseguir esquecer do som dos mísseis, nem do barulho dos aviões de ajuda humanitária, nem de ficar no alto de um morro, acenando e gritando para eles: “Aqui! Jogue aqui!”

Não esquecerei a palavra genocídio nem os drones, e talvez, mesmo depois da guerra, eu continue a ter pesadelos com eles…

Vou apagar a palavra “deslocamento” da minha vida e nunca contarei para ninguém, nem para os meus amigos, o número de vezes que fui deslocada.

Vou aprender palavras novas e usar essas palavras nas minhas redações: “família”, “casa”, “vida”.

Quem dera cheguasse logo o primeiro dia depois da guerra…

[Thair al-Chawi, 14 anos. Acampamento de Al-Faez]

Imagem: Christian Robinson

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  • Fundadora, diretora e publisher da Emília. Doutora em História Econômica pela USP e especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona; diretora do Instituto Emília e do Laboratório Emília de Formação. Foi curadora e coordenadora dos seminários Conversas ao Pé da Página (2011 a 2015); coordenadora no Brasil da Cátedra Latinoamericana y Caribeña de Lectura y Escritura; professora convidada do Máster da Universidade Autônoma de Barcelona; curadora da FLUPP Parque (2014 e 2105). Membro do júri do Prêmio Hans Christian Andersen 2016, do Bologna Children Award 2016 e do Chen Bochui Children’s Literature Award, 2019. É consultora da Feira de Bolonha para a América Latina desde 2018 e atua na área de consultoria editorial e de temas sobre leitura e formação de leitores.

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