O livreiro do Alemão

Livros podem mudar vidas. Essa é a experiência do jovem Otávio César de Souza Júnior, de 28 anos, que teve sua vida literalmente transformada após encontrar um livro no meio do lixo, aos 9 anos, quando se dirigia para um campo de futebol.

Enquanto seus amigos buscavam brinquedos em meio aos entulhos, Otávio foi atraído por um antigo exemplar traduzido do conto espanhol Don Gaton. Ao abrir aquele livro, percebeu que um mundo se abria a sua frente, e desde então sua vida e de todos ao redor se modificou. Passou a frenquentar bibliotecas municipais após as aulas atrás de livros infantojuvenis e suas histórias.

Talvez a leitura cause isso, uma imensa vontade em compartilhar.

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Desde seu encontro com aquele exemplar jogado no lixo, Otávio se dedica à literatura. Em 1998 participou do projeto Teatro na Escola, no qual já trabalhava a questão do incentivo à leitura. Movido pelo desafio de estimular a leitura nas comunidades próximas a sua, o jovem morador do complexo da Penha, conjunto de favelas no Rio de Janeiro, foi em busca de cursos, oficinas e workshops que pudessem ajudá-lo a buscar metodologias para serem posteriormente aplicadas em um projeto de incentivo à leitura. Fez, então, escola de teatro, cursos de ilustração, escrita, contação de histórias, entre outros.

Em 2006 fundou o Projeto Ler é 10, Leia Favela, projeto de incentivo à leitura de caráter itinerante, com o objetivo de aproximar as crianças dos livros para descobrir o prazer e o aprendizado que a leitura promove.

Otávio Júnior acredita que para formar um leitor, um dos principais pontos é facilitar o acesso das crianças ao livro. E é assim que a biblioteca itinerante percorre as mais de 14 comunidades que constituem os complexos da Penha e do Alemão, munido de uma tenda, livros e uma lona para colocá-los.

O projeto começou com uma mala de livros, na qual o jovem levava seu acervo para compartilhá-lo com as crianças das comunidades. Com o tempo, passou a receber doações, apoio das associações de moradores e o projeto que começou pequeno foi se transformando. Atualmente, mais de 10 mil crianças já foram beneficiadas com o Ler é 10, que conta com uma biblioteca fixa, a Biblioteca Comunitária do Caracol, inaugurada em 2011 no Complexo da Penha, e a unidade itinerante que percorre todas as comunidades do complexo do Alemão, permanecendo em torno de três a quatro dias em cada local.

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Os encontros são guiados por uma metodologia lúdica. Otávio se apresenta para as crianças, fala dos livros, propõe brincadeiras, jogos, trava-línguas, charadas, criando assim uma atmosfera especial entre as crianças e o livro, buscando facilitar o processo de aproximação.

Sua luta foi árdua. Inicialmente, teve que lidar com a desconfiança da comunidade, do que realmente ele poderia querer com o projeto, qual seria sua intenção por trás da chamada promoção de leitura. Aos poucos, foi conquistando a confiança da comunidade e ganhando força e apoio. Outra situação enfrentada foi a violência nas comunidades. Antes da pacificação ser implantada, Otávio lidava com uma verdadeira zona de guerra que afetava tanto a viabilidade de locomoção dentro das comunidades como o psicológico de todos, principalmente das crianças. Além de todos esses fatores, nas favelas o índice de analfabetismo funcional é grande e para tentar driblar o problema, os jogos, a hora do conto e todas as atividades propostas em torno do universo do livro são de suma importância para que as crianças despertem o interesse pelo livro.

O contato de cada criança com o livro se dá de forma particular, e muitas vezes, de forma lenta. Algumas inicialmente deixam os livros de lado, não conseguem manter a atenção por muito tempo, outras se fixam logo nas ilustrações e assim passam a folhear os livros. Cada criança com um tipo de aproximação. Otávio observa que durante os quase seis anos de projeto, o saldo é positivo, as crianças começam a se interessar pelos livros, recontam as histórias, produzem também seus próprios livros e sempre querem saber quando o projeto retornará.

O acervo do Ler é 10 conta atualmente com cerca de 3.800 livros, entre poesias, infantojuvenis, folclore e outros, que costuma transportar em Kombi, ônibus ou qualquer meio disponível para os encontros previamente agendados nas associações de moradores, escolas e organizações não-governamentais.

Democratizar a leitura nas comunidades, fornecer opção de diversão e cultura. Conquistar o maior número possível de leitores, transformar a comunidade carioca em que vive na maior biblioteca a céu aberto do mundo, esses são alguns dos sonhos do Livreiro do Alemão e os objetivos do projeto Ler é 10.

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