O professor e a palavra: ler para se emancipar

William Stoner não nasceu para ser professor. Filho de agricultores pobres, conhecia apenas a aspereza da terra e a repetição exaustiva dos dias. O futuro que lhe estava destinado era previsível: reproduzir o gesto ancestral de plantar, colher e sobreviver. Foi a universidade, porém, oferecida como promessa de técnica, que abriu-lhe uma fresta, um curso de agronomia para devolver em conhecimento aquilo que o campo exigia em suor. Mas, em uma sala de aula quase anônima, ao ouvir um professor falar sobre Shakespeare, Stoner se descobriu outro. Não houve revelação grandiosa, não houve epifania iluminada: apenas a palavra, dita em voz alta, encontrou nele um terreno fértil. O mundo, de repente, se deslocou.

Essa cena, tão simples e comum, é talvez uma das mais poderosas metáforas da docência: um jovem sentado numa sala de aula, escutando, e a literatura abrindo nele uma morada. Não foi a técnica que o emancipou, mas a palavra. E esse gesto quase banal, um homem ouvindo outro homem ler, contém algo que a educação tantas vezes esquece: a leitura é um acontecimento capaz de mudar a vida.

Para Stoner, o futuro não era uma sucessão de oportunidades imprevisíveis, mas uma biblioteca. Esse espaço, concreto e simbólico, tornou-se território a ser explorado, ampliado, habitado. Há uma radicalidade nessa imagem: ser professor é viver numa biblioteca, não apenas física, mas interior. É construir em si mesmo uma reserva de palavras, ideias e imagens que sustentem a existência, mesmo quando o mundo insiste em desvalorizar o fazer docente.

E, no entanto, quando olhamos para a formação dos professores, vemos uma contradição dolorosa. A literatura, quando aparece, costuma ser tratada como adorno, como disciplina secundária, como passatempo ou ilustração. Reduzida a fragmentos em apostilas ou a exercícios de análise que matam a experiência estética, a leitura raramente é vivida como fundamento. A universidade parece dizer ao futuro professor que ele deve dominar técnicas, metodologias, estratégias, mas que ele não precisa habitar uma biblioteca, não precisa ler para existir. Essa negligência não é apenas curricular; é uma amputação ética.

Não se trata de exigir que todo professor seja erudito, nem de cobrar dele uma erudição enciclopédica. O que está em jogo é a possibilidade de viver a leitura como experiência radical, como modo de compreender e de partilhar mundos. A leitura não é fuga: ela nos esfrega a realidade no rosto, obriga-nos a encarar as dores de Antígona, as paixões de Fedra, os delírios de Dom Quixote, os infernos de Dante. Habitar essas vidas é, paradoxalmente, aprender a habitar melhor a nossa. Ler é encontrar palavras para dizer o indizível, consolo para o sofrimento, horizontes quando tudo parece estreito. Um professor que não experimenta essa força pode até recomendar livros, mas não testemunha nada. E sem testemunho, a leitura na escola se reduz a tarefa sem alma.

Quantas vezes pedimos aos nossos estudantes que leiam, enquanto o professor permanece alheio, sem jamais compartilhar suas próprias experiências de leitura? Quantas vezes se indicam livros não lidos, se distribuem listas que não foram percorridas, se repetem práticas que nunca foram vividas de dentro? Há uma fratura silenciosa nesse gesto: exige-se do estudante algo que, muitas vezes, não é sustentado pelo exemplo. É como se a escola dissesse, brutalmente, que o professor não precisa ler; que sua função é apenas ensinar, cumprir currículo, aplicar métodos. Mas como formar leitores sem ser, antes, habitado pela palavra?

A biblioteca, para Stoner, era mais que um espaço físico. Era promessa de futuro. Novas alas poderiam ser abertas, livros acrescentados, outros retirados, e, no entanto, sua essência permaneceria intacta: um território de vida. Essa imagem assombra quando olhamos para nossas escolas: quantas bibliotecas estão trancadas, relegadas ao porão, tratadas como depósitos de livros didáticos vencidos? Quantas são pensadas apenas para as crianças, como se o professor não tivesse lugar nelas? Ao negar ao professor o direito de ler, a escola o priva de futuro. Diz-lhe, em silêncio: “a leitura não é para ti.” E, nesse gesto, perpetua o ciclo da ausência: professores que não leem formando alunos que tampouco se tornarão leitores.

Ser professor leitor é, antes de tudo, assumir uma responsabilidade ética. É testemunhar, diante das crianças e dos estudantes, que a leitura é uma maneira de de ampliar horizontes, reconhecer outras possibilidades de mundos e criar relações de empatia. Alberto Manguel, em sua confissão de leitor, lembra que escrever pode ser uma atividade secundária, mas ler é vital. Essa urgência não é um luxo intelectual; é o reconhecimento de que sem livros não respiramos. Ler é, portanto, um gesto de sobrevivência. E se o professor não experimenta essa necessidade visceral, como pode convocar os estudantes para ela?

Não se trata de performance nem de exibição: não é preciso citar dezenas de livros ou ostentar erudição. O essencial é encarnar, com humildade e presença, a possibilidade de que a palavra possa transformar uma vida. O professor que lê não apenas transmite conteúdos; ele convoca, convoca para uma vida mais larga, mais cheia de sentidos. Ele mostra, mesmo sem anunciar, que é possível viver de outro modo. Jacques Rancière já advertia: “não se emancipa outrem sem ter antes se emancipado a si mesmo.” E é essa advertência que dá peso ao gesto do professor leitor, pois não se trata apenas de ensinar, mas de viver a leitura como experiência de liberdade, antes de oferecê-la como caminho ao outro.

Por isso, devolver à biblioteca sua centralidade não é uma tarefa administrativa, mas uma urgência pedagógica e política. Não como recurso instrumental, mas como espaço de emancipação. Uma escola sem professores leitores é uma escola condenada a práticas mecânicas, sem alma, sem horizonte. Uma escola assim pode até sobreviver institucionalmente, mas não gera vida, não oferece futuro.

Stoner terminou sua existência no mesmo espaço onde a havia começado: a sala de aula. Mas não era mais o mesmo homem. A literatura o atravessou, e foi através dela que ele se reconheceu professor. Essa cena final, silenciosa e quase cruel, não é apenas a história de um personagem, mas uma advertência: não se sustenta a docência sem palavra.

Se o futuro do professor é uma biblioteca, não pode ser a biblioteca de portas fechadas e estantes empoeiradas, mas aquela que pulsa no corpo de quem lê. É preciso que o professor entre nela, não como visitante eventual, mas como habitante. Porque uma escola sem professores leitores é apenas um edifício; mas uma escola onde a palavra é vivida torna-se território de humanidade. A docência, afinal, não se sustenta em técnicas nem em protocolos: sustenta-se na convicção de que a palavra pode atravessar uma vida, como atravessou Stoner, como pode atravessar cada um de nós.

REFERÊNCIAS

MANGUEL, Alberto. Notas para uma definição de leitor ideal. São Paulo: Edições SESC São Paulo, 2020.
RANCIÉRE, Jacques. O mestre ignorante – cinco lições sobre emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.
WILLIAMS, John. Stoner.Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2015.

Imagem: Ilustração de Ximo Albadia

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  • Talula Trindade

    Talula Trindade é educadora, pesquisadora e formadora de professores. Dedica-se a criar caminhos entre leitura, escrita, infância e imaginação, apostando numa prática pedagógica que une escuta, estética e presença. Pedagoga, especialista em formação de leitores, mestre e doutora em Educação, desenvolve projetos voltados à mediação literária, à formação de leitores e à produção de registros pedagógicos autorais e sensíveis. Seu trabalho parte da convicção de que toda educação começa por uma escuta e que, para educar com sentido, é preciso antes habitar o tempo com delicadeza.

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