O universo cotidiano e mágico de Heena Baek 

“Certa manhã, 
quando abri os olhos, 
percebi que chovia lá fora.”

 Assim começa Pão de nuvem, primeiro álbum escrito e ilustrado pela autora sul-coreana Heena Baek e recém-publicado no Brasil.  Logo nesse começo, a escritora nos apresenta um universo que parece sintetizar o conjunto de sua obra: a fronteira entre o dentro e o fora, entre o real e o imaginário. A cena que acompanha esse breve texto mostra uma janela embaçada pela chuva, separando o interior da casa do mundo exterior, enquanto a personagem anuncia ter acabado de abrir os olhos. 

Pão de nuvem abre-se com a cena prosaica de uma manhã chuvosa: uma família felina desperta, o pai corre atrasado para o trabalho, os filhos permanecem em casa com a mãe. Nada mais trivial. A atmosfera, no entanto, logo se transforma quando os dois gatinhos, encontram uma nuvem presa a um galho e dela a mãe cozinha pães mágicos, capazes de fazê-los voar e ir em direção ao pai, como pequenos heróis, a salvá-lo da fome, do atraso e de um ônibus lotado. Afeto, solidariedade e a disposição infantil para cuidar do outro são chaves importantes deste livro e, como veremos, estarão presentes também em outras obras da autora.

Heena Baek (ou como ela assina em seu país, Baek Heena) nasceu em Seul, em 1971. Formou-se em tecnologia educacional na Ewha Womans University e em animação de personagens no California Institute of the Arts, nos Estados Unidos. Trabalhou em publicidade e na produção de mídia infantil, antes de mergulhar no universo do livro ilustrado. Desde então, vem construindo uma trajetória marcada por narrativas que transitam entre o cotidiano urbano e o fantástico, entre o reconhecível e o insólito, que podem até desafiar a lógica adulta, mas dialogam diretamente com o universo infantil e sua tênue fronteira entre esses mundos.   Em 2020, tornou-se a primeira autora sul-coreana a receber o Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA), um dos mais prestigiados prêmios internacionais da literatura infantil. 

Sua técnica é singular: Baek constrói bonecos, figurinos e minuciosos cenários, fotografa cada cena e, assim, cria composições que lembram a estética do stop motion ou até mesmo um teatro de bonecos.  Essa materialidade visual, que aproxima a ilustração da cenografia e da arquitetura em miniatura, confere ao leitor uma experiência estética distinta, ao propiciar tanto o reconhecimento do espaço doméstico quanto o estranhamento do que nele irrompe como impossível.

Seus livros transitam por apartamentos, praças, cozinhas, salas e quartos, ruas, lojas e mercados, apresentando espaços facilmente identificados por todos nós. E é justamente nesses lugares comuns que o extraordinário acontece: uma nuvem transformada em pão que faz voar, balas que revelam sentimentos, uma gata que pare um pintinho e aprende a amá-lo, um cachorro que compartilha seus pensamentos, percepções e desejos, uma lua que derrete em noite de calor sufocante em uma grande metrópole. 

No Brasil, Baek chegou em 2022 com dois livros que se conectam de um modo muito especial, ao trazer personagens comuns: Eu sou cachorro, que saiu pela Amelì e Balas mágicas, pela Companhia das Letrinhas. No primeiro título, conhecemos intimamente o cachorro Bolinha, vemos o mundo a partir de sua perspectiva, e temos acesso ao seu mundo interno, experimentando a solidão do apartamento quando todos saem e a alegria efusiva de uma saída à rua. A família (o menino, seu pai, a avó e o cachorro), a casa e a rotina são bastante comuns em suas caracterizações. O que surpreende é a voz narradora canina, que, aliada à sensibilidade da autora ao costurar o vínculo entre o menino Dong Dong e o cachorro, permeando-o de cuidado e afeto, confere graça e ternura à obra. 

Em Balas mágicas, acompanhamos Dong Dong mais crescido, morando com o pai e seu velho companheiro, Bolinha. Tornou-se um menino solitário que descobre balas especiais – ao serem chupadas, mostram-se capazes de lhe dar acesso às vozes e pensamentos de pessoas (o pai, a avó), animais (o cachorro Bolinha) e até mesmo de objetos (o sofá). Sua avó já não vive mais, e por meio de uma das balas, ele consegue ouvi-la e matar um pouco a saudade. Em todos os casos, o convite que o livro faz ao leitor é bastante sedutor ao colocá-lo em contato profundo com a interioridade de cada participante da história, desvelando facetas, nuances, sentimentos e pensamentos. 

Para além da continuidade dos personagens, os dois títulos guardam semelhanças estéticas e éticas. Assim, como em Eu sou cachorro, a narrativa transcorre em cenários urbanos muito concretos, feitos de fotografias e bonecos esculpidos pela própria artista, compondo uma atmosfera em que não se sabe se estamos diante de uma cena de filme, de uma esquina ou praça conhecidas ou da desordem costumeira em nossas casas. Dessa maneira, a autora convida seus leitores a habitar um espaço em que a realidade é tão convincente quanto fantástica. Em relação aos aspectos éticos, os dois livros potencializam o sentimento de empatia que a literatura é capaz de promover ao nos fazer habitar a pele de um outro, experimentando a intimidade de sua existência. 

Em Picolé de lua (2023), a ambientação volta-se para uma noite escaldante em uma cidade grande. Nada é idealizado: há a vida comprimida em pequenos apartamentos, a solidão dos moradores em meio a ventiladores girando e ar-condicionados exaustos, e a possibilidade da insônia rondando todos. Até que a lua, também incapaz de suportar o calor, começa a derreter, e a zelosa síndica de um prédio transforma suas gotas em picolés luminosos distribuídos entre os vizinhos. O gesto é mágico ao trazer alívio para o calor, mas também desencadeia novos dilemas, como a perda da morada dos coelhos lunares. O que poderá ser feito para restituir o lar a esses animais? Mais uma vez, a autora costura o real e o maravilhoso, e a alternativa encontrada reafirma a presença da generosidade, da solidariedade e da invenção diante das adversidades. Nesse processo, Heena também desloca os atributos da infância para além de seus limites etários: a síndica é construída de modo análogo às crianças, deixando entrever em seus gestos, atitudes e inclinações, a marca do olhar infantil que se abre ao outro.

Embora esses quatro livros tenham muitas semelhanças em sua forma e conteúdo, Baek não se repete. Em Mamãe do pintinho (2024) abandona os cenários miniaturizados e fotografados, e lança mão da ilustração em carvão para narrar a história de uma gata de rua faminta e nada confiável, que, ao engolir um ovo prestes a eclodir, vê nascer dentro de si um vínculo imprevisto com um pintinho. A mudança de técnica não rompe, mas renova seu modo de narrar: segue ali a capacidade de transformar o corriqueiro em extraordinário e de revelar afetos e transformações improváveis. E aqui, a aproximação da autora ao universo infantil se dá tanto pela temática “mamãe e filhinho”, quanto pela presença de uma teoria bastante comum às crianças sobre o nascimento – parir seria como fazer cocô? 

Em entrevista gravada ao Astrid Lindgren Memorial Award, Baek conta que sempre se sentiu deslocada numa sociedade excessivamente realista. Foi uma menina solitária –talvez como Dong Dong – e sempre ligada ao desenho, mas afirma evitar recorrer exclusivamente à própria infância como referência, pois reconhece o risco de cristalizar uma única ideia de ser criança. Assim, cultiva um olhar atento ao entorno, sobretudo à Seul contemporânea, que serve de pano de fundo para muitos de seus livros. 

Entre o realismo do cenário e o inusitado da imaginação, entre a densidade material das miniaturas e a leveza do faz de conta, Baek constrói uma obra original. Ela parece nos lembrar que o fantástico pode surgir daquilo que estamos mais do que acostumados a ver: uma pequena nuvem, uma bala comprada na vendinha da esquina, um cachorro de apartamento ou uma gata de rua, a lua cheia numa noite quente. 

Em tempos em que se corre o risco de padronizar as vivências das crianças e de fragilizar os vínculos comunitários, suas narrativas oferecem tanto a possibilidade de reconhecimento, quando o leitor se encontra nos cenários, nos objetos e nas rotinas, quanto a experiência do inesperado (pela surpresa, pelo insólito, pela fantasia). Há, em suas obras, uma abertura para a singularidade que emerge do comum e para o imprevisível, que também se anuncia na perspectiva do outro, que é sempre acolhido, ouvido, considerado.  Nesse sentido, Heena Baek reafirma o lugar da literatura infantil como espaço de invenção estética, de encontro consigo e com o outro , de reflexão sobre a vida partilhada.

Bibliografia

Baek Heena – the 2020 Astrid Lindgren Memorial Award laureate, disponível no canal Astrid Lindgren Memorial Award, no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=QMjv-AUETQM&t=3s, acesso em 23/09/2025. 

Molinero, Bruno. É hora dos novos autores florescerem, diz Heena Baek sobre a onda coreana. Artigo publicado em 8 de março de 2024, no jornal A Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/era-outra-vez/2024/03/e-hora-dos-novos-autores-florescerem-diz-heena-baek-sobre-a-onda-coreana.shtml Acesso em 23 de setembro de 2025. 

Livros de Heena Baek

Balas mágicas; tradução de ARA Cultural. São Paulo: Companhias das Letrinhas, 2022.

Eu sou cachorro.

Picolé de lua; tradução de ARA Cultural. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2023.

Pão de nuvem; tradução de ARA Cultural. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2024.

A mamãe do pintinho; tradução de ARA Cultural. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2025. 

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  • Ana Carolina Carvalho

    Psicóloga (USP) e mestre em Educação, Linguagem e Arte (Unicamp). Formadora de educadores pelo Instituto Avisa Lá e CE CEDAC. Assessora na área de leitura em redes públicas, escolas particulares e editoras. Membro da Equipe Destaques Emília e do Grupo de Trabalho de Novos projetos.

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