Precisamos falar de educação midiática

Em entrevista à Emília, Januária Alves destaca a importância de estarmos atentos à nossa cidadania digital: “o que curtimos, postamos e compartilhamos tem consequências”

Januária Cristina Alves tem uma longa trajetória no campo da educação midiática. Jornalista, educomunicadora, mestre em Comunicação Social pela Escola de Comunicação e Arte da USP, é Membro da UNESCO MIL Alliance, Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informaconal da UNESCO. Por mais de uma década conduziu, ao lado de Flávia Aidar, o Folha Educação, um dos projetos pioneiros na formação de leitores de jornais. Tem uma robusta  bagagem de cursos e formações voltados a professores e mediadores de leitura.

É também escritora com mais de 50 obras infantojuvenis publicadas, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti. Em nova parceira com Flávia Aidar, lançou em 2019  o livro Como não ser enganado pelas fake news (Editora Moderna).

Januária explica que a escola sempre trabalhou com os meios de comunicação – antes os veículos impressos tinham o protagonismo -, mas era algo mais voltado às disciplinas de Língua Portuguesa e História. A experiência no Folha Educação, conta, buscou dar um tratamento multidisciplinar e transdisciplinar. Hoje a Base Nacional Comum Curricular inclui o campo jornalístico-midiático para os anos finais do ensino fundamental e ensino médio. Seria ideal, no entanto, que essa formação tivesse início ainda mais cedo, com as crianças, ressalta.

A explosão das fake news, com a eleição que levou Donald Trump à presidência, colocou nos holofotes a importância da alfabetização midiática e o debate sobre o acesso à informação de qualidade como um direito. A Unesco chegou a produzir material de formação de professores sobre essas questões. Afinal, ”como viver em um mundo mediado e midiatizado e não levar isso pra escola?”.

Em maio, Januária ministra o curso on-line na Emília Educação para as redes na escola: como construir contranarrativas na internet, justamente com  a proposta de instrumentalizar os educadores para o trabalho com a leitura crítica das mídias.

Leia a seguir os principais trechos da conversa com Januária.

Priscilla Brossi – Poderia explicar a importância da alfabetização midiática nos dias atuais?

Januária Cristina Alves – Gosto de colocar em perspectiva histórica. As fake news não são novidade. Mas o que muda é a chegada da internet, a velocidade que ela traz, tudo ficou amplificado. Caiu na rede, perdemos a noção para onde vai e como se espalha. Tal velocidade de disseminação permite o descontrole e estamos vendo prejuízos concretos. Não é à toa que a Organização Mundial da Saúde cunhou o termo infodemia. Pessoas estão morrendo por causa de informações falsas. É muito sério.

As plataformas nasceram com esse objetivo lindo de democratizar a informação, de fazer com que todos tivessem acesso, todos pudessem postar, mas a realidade não é bem assim. Tem gente compartilhando conhecimento de qualidade, ciência, pesquisa, mas também tem gente compartilhando teorias da conspiração. É uma construção de narrativas.

O grande desafio hoje é compreender de que matéria são feitas essas narrativas. Como podemos desconstruí-las? Está na mão da gente essa tarefa. O tal leitor crítico, o sonho de todo educador, requer uma formação de longo prazo. O leitor crítico começa com um leitor desconfiado, aquele que não engole qualquer coisa que vê escrito. É a pessoa que questiona. E para isso é preciso recuperar, na escola, o valor da pesquisa, da investigação.

A construção do leitor crítico passa por essa formação, pela leitura da palavra e a leitura do mundo, como dizia Paulo Freire.

PB – Os meios digitais estariam contribuindo para um tipo de leitura mais fragmentada e superficial?

JCA  – Com certeza. Essa geração não tem fôlego para ler um texto longo. A própria rapidez das mídias sociais convida à fragmentação, à leitura superficial. Cada vez mais vemos aos pedaços. Temos leitores com muito mais dificuldade de juntar as pontas.

Ser nativo digital garante a compreensão crítica? Não exatamente. Lembro-me de uma pesquisa feita com alunos da Universidade de Stanford que revelou a incapacidade de diferenciar um texto publicitário de um texto informativo, o que é preocupante.

Por outro lado, os professores ficam em um posição complicada. Nunca antes, uma geração mais nova soube mais que uma geração mais velha, como no caso das tecnologias, das mídias digitais. Isso pode  gerar inseguranças. Alguns docentes já me questionaram como fazer a leitura crítica da mídia sem terem formação jornalística. Mas é importante buscar a compreensão de como o universo da mídia funciona. A gente tem que se colocar como leitor. Em muitos cursos com professores eu começo perguntando sobre seus hábitos de leitura, que veículos lêem ou acessam e como selecionam as informações.

Vemos hoje uma grande angústia de não conseguir dar conta de consumir toda a informação que gostaríamos, gerando a já conhecida FOMO (fear of missing out, algo como “medo de estar por fora”). Isso afeta sobremaneira os jovens. Eles não se desconectam, o que efetivamente não garante que saibam mais e melhor.

PB – De que forma os educadores podem atuar para garantir que a complexidade de pensamento seja preservada em meio a debates tão superficiais que muitas vezes se estabelecem na internet?

JCA – É um grande desafio. Não há uma resposta fácil.

David Buckingham, pesquisador inglês que desde a década de 1990 estuda a relação de crianças e jovens com as mídias, lançou em 2019 um importante documento, The media manifesto, em que ele dizia termos chegado a um ponto em que não há mais como voltar: é preciso levar as mídias para sala de aula, o mundo on-line tem que conversar com o mundo off-line, temos que fazer as coisas se juntarem. O professor vai ter que encontrar uma maneira de fazer isso, mas também precisa contar com apoio para lidar com esses desafios e pressões.

Paulo Freire era certeiro: a gente tem que levar a vida para dentro a escola. Permitir o celular na sala, ver junto com os alunos, entrar, explorar. Tal como se constrói o repertório leitor. Afinal, não se forma leitores só com um determinado autor ou gênero. A gente já vivem bolhas. Não é à toa que há uma crise de intolerância ao diverso, ao diferente, a quem não pensa como a gente. Eu ainda acho que a escola é lugar privilegiado para responder a isso. É onde se pode abordar as diferenças. Todos juntos. A escola é e deve continuar sendo o grande laboratório para a tolerância.

Por outro lado, a gente sabe que a escola faz parte de um sistema. A escola particular tem clientes, a escola pública tem que lidar com questões políticas, ideológicas…

Não é uma equação simples.

PB – As redes sociais são muito presentes em nossa sociedade. Alunos e professores estão conectados, consomem, em algum medida, produzem conteúdo em seus perfis. Qual o papel que essas redes têm na educação?

JCA – Documentários como O dilema das redes e Privacidade hackeada mostram a realidade que as plataformas não têm mais como negar. O movimento agora é no sentido de tentar reverter os danos minimamente, porque o estrago está feito, a gente sabe disso.

São importantes as iniciativas de educação midiática que estão acontecendo nas próprias redes.  Mas precisamos lembrar o modelo de negócio que estrutura o modo como essas redes operam. Para que possamos fazer mudanças é preciso questionar o modo como as plataformas ganham dinheiro e aí o buraco é mais em baixo. Os nossos dados são a grande moeda.

Não vejo uma solução fácil. Mas precisamos nos colocar em movimento como cidadãos. Temos um problema mas também o compromisso para encontrar saídas. Nossa atenção é uma das maiores commodities da atualidade, é muito valiosa para as plataformas. Precisamos estar atentos a isso.

PB – Como você avalia o conceito de curadoria em um contexto que os algoritmos têm papel cada vez maior?

JCA – Não vejo outra saída: precisamos abrir o pensamento. Lidar com as conversas e com pensamentos diferentes. É importante que a escola possa acolher as diversidades.

As redes sociais – que foram criadas para serem uma espécie de ágora, uma linda praça onde todos poderiam se expressar – tornaram-se um campo de guerra. O exercício do debate e a colocação do contraditório não podem estar ausentes de nossas vidas.

O acolhimento à diversidade é fundamental na escola. Como elemento de formação, que não acontece como mágica, ao contrário: constrói-se um pouquinho a cada dia. E a gente vai construindo, inclusive para que possamos ter representantes no governo que entendam a importância disso.

Não é simples. Mas se garantirmos o espaço para o diálogo, já vamos caminhar. Para que as novas gerações  passem a ver essas coisas como um direito. Afinal, a informação é um direito garantido pela Constituição. É nosso direito ter informação correta. Não se limita ao acesso à rede de internet. Tudo isso faz parte do que chamamos de política da informação.

Tomara que as futuras gerações possam criar outros modelos de negócios para as plataformas, mais inclusivos e sustentáveis. Caso contrário, as desigualdades serão perpetuadas.

PB – Algum país de referência para a educação para mídias?

JCA – A Finlândia é o grande modelo de alfabetização midiática e informacional na escola. Tem um programa nacional, capitaneado pelo primeiro ministro, tamanha a importância dada ao tema. É o país com menores índices de crenças nas fake news, afinal o trabalho é feito desde de a educação infantil, está na grade curricular deles, há uma preocupação extrema. E obviamente é um país onde todos têm acesso, ou seja , esse primeiro degrau de acesso está garantido. O segundo degrau é a leitura crítica de que estamos falando. E as universidade têm linhas de pesquisas. A Finlândia é o grande case, o sonho de todo educador midiático.

PB – Trata-se, então, de política pública…

JCA – Ainda que a realidade do Brasil seja muito diferente da Finlândia, há algumas iniciativas. No último edital de livros didáticos para o ensino médio, por exemplo, consta o eixo educação para as mídias. Na rede pública de São Paulo, discutia-se, antes do início da pandemia,  a inclusão de disciplina eletiva justamente para tratar desse tema.

A gente sabe que precisa ser uma política pública. É um assunto que envolve questões políticas, de como ver o mundo. Interessa cidadãos bem informados? É uma pergunta importante.

Diante da premissa de que no Brasil só os ricos comprariam livros, que leitor se imagina quando é feita uma decisão política dessas?

Estamos em uma encrenca grande, mas sempre tem saída.

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  • Priscilla Brossi Gutierre

    Jornalista com experiência em gestão de projetos de comunicação. Especializada no desenvolvimento de estratégias de conteúdo editorial, incluindo planejamento, edição, curadoria e redação, para diferentes formatos e mídias. No Instituto Emília, atua no plano de relacionamento com a imprensa e edita a newsletter mensal.

    


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