Uma biblioteca na África

Na África, quando um ancião morre,
toda uma biblioteca desaparece.
Amadou Hampâté Bâ

Sonhar a biblioteca 1 Texto publicado originalmente em Jardín LAC – Lectura, arte e conversación em (y para) el espacio público – 2/09/2022 – https://www.jardinlac.org/post/una-biblioteca-en-%C3%A1frica.

Sonhar com uma biblioteca na África é sonhar com um lugar de exclusão. A população letrada é uma escassa minoria. A maior parte são homens de uma quase inexistente classe média que vive nas cidades ou meninos e meninas (sobretudo meninos) que aprendem a ler no colégio numa língua que não escutam em sua casa (a língua do país colonizador, que, todavia, segue exercendo sua rapina nas ex-colônias). A maior parte das pessoas na África subsaariana que vive em zonas rurais (e é a maioria da população) não poderia decifrar as letras alinhadas horizontalmente e impressas no papel, principalmente as mulheres e as meninas, que se incorporam ao mundo do trabalho não remunerado desde que têm idade para carregar um irmão nas costas.


É que na África há mais de duas mil línguas e só uma dezena se escreve. Embora seja verdade que o trabalho evangelizador dos missionários fez com que a Bíblia fosse transcrita em um monte de línguas africanas, fixando os sons que ouviam com a grafia latina, de tal sorte que muitas línguas têm um só texto escrito: a Bíblia. O aprendizado do Alcorão, nos lugares de África onde esse credo é mantido, é oral: as crianças na escola corânica aprendem a recitar de memória os versos do Alcorão.

Na África a literatura, a história, a religião e as leis são orais. Se chamarmos de literatura “o que tem letra, ou seja, o que se escreve, e “história” o período entre a aparição da escrita com o os povos indo-europeus que inventam a escrita cuneiforme; se chamarmos “religião” o conjunto de crenças fixadas nos livros sagrados e “leis” os códigos escritos que regulam nossa convivência, então, África não tem literatura, mas folclore; não tem história, mas pré-história; nem religião, mas superstições animistas. Em definitivo, é um território sem lei. Esses homens e mulheres, barbarizados por nossos conceitos, só são civilizados quando aprendem nossos idiomas escritos e se submetem as nossas leis escritas que permitem o saque de sua terra e os mergulham na obrigação de pagar uma dívida externa que nunca poderão pagar.

Sonhar na África com uma biblioteca cheia de livros é sonhar com um lugar onde os africanos e sua cultura oral não cabem. A literatura africana é apenas um grão de poeira na praia editorial mundial. Em 2021, Libros de las Malas Compañías publicou pela primeira vez um autor da Mauritânia em espanhol. Nunca até hoje fora traduzido em nenhum país de fala espanhola nenhuma obra mauritana. É verdade que agora, nos Estados Unidos, se aposta numa literatura africana para aliviar a tensão racial: publicam sobretudo autoras afrodescendentes ou africanas formadas nos Estados Unidos (isso que se tem chamado de “literatura feminina” produz grandes vendas). Tampouco pessoas negras são protagonistas das histórias nestes livros: se contam nos dedos das mãos os livros do panorama literário europeu ou americano cujos protagonistas são personagens negras, embora em alguns países americanos a população negra seja majoritária.

Sonhar com uma biblioteca em África é sonhar um espaço onde meninos e meninas se encontram com livros onde eles não se sentiriam protagonistas porque contam histórias que nada têm que ver com eles nem com seu mundo. Além disso, para eles e elas, o livro não é um objeto familiar, nem sequer amigo: em suas casas não há livros, só histórias ao redor do fogo, que crepita e enche a noite de luz e de sombras. As chuvas torrenciais do verão e a umidade do mangue em que vivem também não combinam muito bem com os livros.

O edifício

Como fazer real o sonho de uma biblioteca no sul do Senegal, em Casamance, para que seja um lugar hospitaleiro onde a gente do povo de Oussouye (Usuy a partir de agora, pois é assim que eles escrevem) se sinta acolhida supõe um caminho de escuta, de convivência e, sobretudo, de aprendizagem. Chegamos a esta cidadezinha porque o prefeito havia solicitado a uma amiga, que viajava pela região, ajuda para encher de livros e fazer funcionar um edifício construído com a finalidade de abrigar uma biblioteca. A história de como se construiu o prédio e as dificuldades que isso implicou merecem uma história à parte.

O edifício estava fechado e as estantes vazias. Construir um edifício de planta retangular já é uma opção excludente porque seu povoado está concebido de uma maneira circular e concêntrica: o círculo exterior, que abraça o povoado, está formado pelo bosque sagrado do rei, que forma um semicírculo que se conecta e se completa com o bosque sagrado do feiticeiro. Ambos se fecham sobre o círculo interior que forma o povo diola. As casas tradicionais reproduzem esta disposição e também são de planta circular. Mas os edifícios “de prestígio” ou “de autoridade” reproduzem as cidades europeias, herdeiros do urbanismo romano em torno de linhas perpendiculares que se cruzam e que determinam um espaço angular. O progresso é retangular e, por isso, a biblioteca também o é.

O acervo

O acervo também é excludente pelas razões que já apontamos. Mas de que iríamos encher uma biblioteca senão de livros? Compramos livros em francês que encontramos na Espanha. Clássicos como Mallarmé, Racine, Corneille e Rimbaud. Queríamos que a biblioteca pública de Usuy tivesse o melhor. E com o melhor da cultura francesa começamos a preencher as estantes. E, de repente, nos demos conta de que havia sido um erro: nem o francês que aprendem lhes permite decifrar tão alta literatura nem as histórias lhes ressoam. Além disso, não havíamos levado nada para as crianças. Decidimos, então, encher a biblioteca com as vozes dos mais velhos que ressoam na noite.

Perguntei como começavam as histórias em sua língua, o diola, e o bibliotecário nos disse que quando escutássemos Kakongo kongo (Vou contar um conto) e alguém respondesse Ayambééé (Te escutamos), ali havia um conto. Foi assim que começamos a escutar à noite seus contos, que gravávamos nos telefones (um dispositivo mais familiar que um gravador). Pela manhã, o bibliotecário os traduzia e assim elaboramos um catálogo de contos: com o título do conto, um desenho que identificasse a personagem principal e o nome do avô ou avó que o contou. Foi o primeiro catálogo da biblioteca de Usuy. À tarde, convidávamos os mais velhos a vir e os pequenos usuários podiam levar emprestado um avô ou uma avó. Podiam tê-lo por duas horas e tinham que devolvê-lo à biblioteca antes do sol se pôr e sem tê-lo maltratado porque, se o avô chegasse exausto, penalizávamos e o usuário não podia desfrutar do serviço durante uma semana. Estávamos iniciando a formação de usuários em Casamance. Agora, além das vozes dos mais velhos, que, como bibliotecas móveis, podem ser visitados em suas casas para que abram as páginas de seus lábios e relatem o conto da mulher que buscava um homem perfeito e se casou com uma serpente píton, após o pedido de escuta habitual: Kakongo kongo… Ayambééé, também publicamos um livro com versões fictícias de seus contos, completando a versão escolhida com outras versões do mesmo conto, O Dragão que comeu o sol e outros contos da Baixa Casamance. Fizemos também desenhos animados sobre os contos cujas animação e produção foram realizadas com as crianças, protagonistas, agora sim, do que acontece na biblioteca.

Deste livro fizemos uma versão menor com sete contos maravilhosos, também com suas ilustrações: Yimulimuli e o Dragão, em francês e em espanhol, de forma que os leitores que compram o livro na Espanha, na verdade, compram dois volumes, porque a versão francesa é entregue gratuitamente no Senegal e se conecta aos dois leitores ou aos dois coletivos leitores, para que compartilhem a leitura de seus contos. Conectamos bibliotecas, clubes de leitores, alunos de centros escolares e grupos de alfabetização na Espanha com pessoas no Senegal para que não somente conheçamos seus contos, mas quem os contam e para que, do outro lado do Estreito de Gibraltar, saibamos que eles também têm cultura, uma rica e fértil cultura oral.

Também fizemos livros de pano com calças recicladas que coletamos em Madri sobre as quais uma cooperativa de mulheres deficientes costurou as ilustrações de um de seus contos: O menino que sempre perdia o bastão. Arquivos sonoros, livros de pano e livros em papel com seus contos, assim como outros livros em francês, inglês e espanhol para os alunos do ensino médio que tenham escolhido o espanhol como segunda língua. Tudo isto convive no espaço da biblioteca, que se encheu de vida, de suas vidas.

Conto animado pelos usuários da biblioteca de Usuy

O bibliotecário

O primeiro bibliotecário foi um camponês que sabia ler e que chegava com sua cabra e a amarrava na porta da biblioteca para que aparasse o mato alto em época de chuva e mantivesse a entrada acessível. Agora temos um verdadeiro príncipe (filho do rei animista anterior) que toca um instrumento de corda que se chama econtin com um braço de madeira, de seção circular e uma caixa de ressonância de cabaça oca, com que tradicionalmente se contam os contos. As quartas-feiras é o dia que meninos e meninas não têm colégio à tarde e vêm à biblioteca, ele toca e conta para as crianças, em diola, ampliando assim nosso acervo oral.

As atividades na biblioteca

Para ampliar o número de usuárias e receber todas sem discriminação por suas aprendizagens, três vezes por semana um grupo de quinze mulheres vem aprender a ler na língua que elas escolheram: o francês. Aprendem a ler e a escrever com significado: com seus próprios contos.

Há um cineclube para todos os públicos, mas majoritariamente frequentado pelos jovens. O povoado, como a maior parte dos povoados (e muitas cidades) em África, não tem cinema e a produção cinematográfica africana é muito reduzida, contando com pouquíssimos recursos.

Também há cursos de espanhol e de diola para tubas (não nascidos em Usuy). A comunidade estrangeira (espanhóis e alguns franceses) cresceu em torno da biblioteca, onde também há um clube de leitura em que se lê o mesmo livro em espanhol e em francês.

No verão, época de chuvas e quando se planta o arroz, foram montados acampamentos durante as manhãs nos quais se oferece comida para que os meninos e meninas que vão ao arrozal estejam menos expostos à malária e à dengue. Agora vamos começar um curso sobre construção do econtin e narração oral com esse instrumento, queremos ampliar o número de narradores na equipe.

No grande pátio da frente, frondoso na estação das chuvas e seco na estação da seca, há uma enorme mangueira embaixo da qual se sentam tanto o bibliotecário como os idosos que vêm comentar os acontecimentos do povoado: é a hemeroteca oral.

A bibliocanoa

Agora, para que os meninos e meninas que vivem nas ilhas do manguezal tenham livros (onde não chega uma única estrada que passa por Casamance), compraremos uma canoa. Esta é a forma mais cômoda, silenciosa e ecológica de transporte em um mangue. Além disso, em um lugar onde a terra é repleta de minas terrestres, os caminhos das águas são mais seguros. Na canoa, além do bibliotecário com seu econtin, que contará os contos de sua tradição oral, levaremos livros convenientemente protegidos da umidade em barris de plástico secos (onde eles guardam água). Serão livros silenciosos, tão silenciosos como o mangue, livros com poucas palavras, áudio-contos e tudo o que nos aproxime deles e possibilite seu acesso à biblioteca. Esperamos não ter que proteger os livros da mordida dos crocodilos que cochilam nas margens lamacentas do mangue. Estrearemos a bibliocanoa em um festival de narração oral que faremos em breve.

Todos estão convidados a participar neste sonho que é a biblioteca municipal de Usuy. Cabem todos e todas.

Tradução: Lurdinha Martins

Notas

Compartilhe

Post Author

Autor

  • Ana Cristina Herreros Ferreira (León, Espanha, 1965), filóloga e especialista em literatura tradicional, escritora, editora, narradora oral e autora de livros de contos e artigos sobre incentivo à leitura e métodos de narração. Como contadora de histórias, é conhecida pelo nome de Ana Griott. Ela também desenvolve seu trabalho como contadora de histórias em teatros, cafés, prisões, escolas ou parques públicos, principalmente na Espanha e na América Latina desde 1992. “Meu sobrenome é orgulhosamente Griott em homenagem a estes senhores da palavra e memória de África.”

Artigos Relacionados

Sempre foi urgente ler a guerra

A famosa invasão dos ursos na Sicília