Os que estamos aqui esta tarde estamos, de uma ou outra, forma relacionados com a infância, por isso antes de tudo peço um minuto de silêncio pelos 25.000 meninos e meninas de Gaza mortos sob as bombas, os mísseis, a fome e a sede.1
Minuto de silêncio.

[Martin Bonetto]
O que os olhos não veem, não dói… ou dói?, pergunta-se a intelectual argentina Silvia Bleichmar, revisitando o dito popular o que os olhos que não veem o coração não sente. Há dores que não doem em todos, disse lá em 2001, e há muitas vidas silenciadas com o volume dos privilégios.
Em 1953, recém-terminada a Segunda Guerra Mundial, a filantropa Jella Lepman, em resposta ao genocídio que o nazismo perpetrou contra o povo judeu, criou a Organização Internacional para o Livro Infantil e Juvenil (IBBY), o prêmio internacional que leva o nome de Hans Christian Andersen e as condições para a Feira do Livro Infantil de Bolonha — os três pilares internacionais sobre literatura e infância — com o fim de promover o entendimento e a paz no mundo, por meio da leitura e dos livros para crianças.
A literatura para a infância, tudo o que ela representa e o seu ecossistema (escritores, ilustradores, editores, especialistas, mediadores, professores, bibliotecários, leitores, editoras, instituições, organizações, prêmios e premiados) não pode hoje desviar o olhar de Gaza.
O jornal Haaretz, o mais antigo de Israel, anterior à criação do Estado de Israel, em uma nota de 27 de junho 2025 diz, cito em tradução literal: “100.000 palestinos foram assassinados no genocídio de Israel contra Gaza”, e estima-se que 40% desses mortos sejam crianças, mortas diretamente por mísseis ou bombas e indiretamente por ferimentos, doenças, falta de comida ou de água. As cifras estão, certamente, defasadas (tive que ajustar várias vezes a informação, enquanto preparava estas palavras) porque aumentam hora a hora. Trata-se do maior infanticídio do século, em um território sitiado, uma jaula de 400 quarteirões de comprimento por 100 de largura.
Segundo as Nações Unidas, já há mais crianças assassinadas do que homens adultos, e há milhares de outras mutiladas, feridas ou com queimaduras graves, além de dezenas de milhares de meninos e meninas deslocados que caminham perdidos por ruas em ruínas, sobre as quais dormem, ou morrem já sem familiares. E há também milhares de corpos de crianças sob os escombros, porque os socorristas mal têm tempo de remover as ruínas e porque, em razão do bloqueio, já não podem sequer entrar equipes de resgate.
“A consciência das gerações futuras vai se perguntar o que fizemos quando nos coube defender o que restava de humanidade na humanidade”, diz Ariel Feldman, nascido em Israel e residente na Argentina, professor de filosofia, fotógrafo e cineasta.
Vagalumes.
Compartilho estas palavras que seguem na intenção de — mesmo em meio a tanta destruição — poder observar o voo dos vaga-lumes.
1.
O desejo de voar está presente nos seres humanos desde a noite dos tempos e também a desconfiança em relação àqueles que tentam ou decidem voar. Albrecht Berblinger (19770 -1829), também conhecido como o Alfaiate de Ulm, construiu uma máquina voadora mais pesada que o ar, presumivelmente uma asa-delta, e declarou que algum dia voaria em público para que todos pudessem ver. A ocasião se apresentou quando o rei anunciou sua visita a Ulm. Saltaria, disse, da ponta da principal igreja luterana da cidade, uma torre de 162 metros de altura. Chegou o dia, o alfaiate saltou… e se espatifou contra o chão. Sobre o inventor e sua invenção, Bertolt Brecht escreveu uma balada:
— Bispo, posso voar! — disse o alfaiate ao bispo
E com algo como asas subiu à catedral.
Como o homem não é uma ave, isso é pura falsidade.
— Que repiquem os sinos! Era pura falsidade.
Como o homem não é uma ave — disse o bispo ao povo
— o homem nunca voará!
Muitas leituras já foram feitas sobre seu significado, mas o evidente é que, apesar do fracasso do alfaiate, séculos depois foi possível construir aparelhos para voar. Isso permite a Brecht sustentar que as aspirações do ser humano não têm limite e que um dia, ainda que passem muitos anos, existirão homens e mulheres que darão forma a ideias que em seu tempo pareciam loucura.
2.
A estrutura vertical do mundo com suas subidas e descidas, sua luz e sua escuridão, é um dos arquétipos universais. Na cosmogonia cristã, a queda é o castigo dos anjos rebeldes que se opõem ao mandato de Deus, porque a luta do que está embaixo contra o que está em cima é rebelião, e é castigada.
No universo grego, Prometeu é torturado pelos emissários dos deuses que descem para castigá-lo por seu amor aos homens. Nessa tragédia, a mãe diz ao filho que já passou o tempo em que se podia vencer pela força e que o futuro será daqueles que saibam empregar a astúcia. Os emissários de Zeus vigiam o ferreiro que solda obedientemente os elos para acorrentar Prometeu, mas Prometeu se nega a revelar o nome da mulher com a qual Zeus engendrará o filho que o vingará. Do prisioneiro depende, então, o porvir do tirano, e essa é a força que coloca o cosmo em movimento.
O conhecimento e a memória, o fogo roubado aos deuses.
3.
Em 13 de junho de 1968, o arqueólogo Mario Napoli trabalhava nas proximidades de Paestum, antiga cidade grega ao sul da Itália. Ao abrir uma tumba, depois de 2.500 anos de trevas, a luz inundou o interior e ele viu pela primeira vez o tuffatore — o nadador de Paestum — a silhueta de um jovem nu que mergulha de cabeça na água. O corpo do rapaz é um arco, figura suspensa entre um passado que já se foi e um futuro que ainda não se vislumbra. Cai ou se mantém no ar? Puro instante aberto ao que está por vir, porque no mar que o espera lá embaixo estão a palavra amar e a palavra amargo.
4.
Silvia Barrios, antropóloga, cantora e compositora, nos conta que as canções ancestrais do povo wichi tinham sido esquecidas pela comunidade devido à influência das religiões evangélicas que as consideravam — ou talvez ainda considerem — produto do demônio. «O registro sonoro havia desaparecido, mas eu tinha certeza de que ainda estava presente entre os mais velhos. No começo, eu era a que queria cantar essas canções, mas depois de muitos anos de trabalho meu propósito passou a ser que eles voltassem a cantá-las e assim foi que, em 1987, reuniram-se os quatro mestres Wichis e cantaram como se nunca tivessem deixado de fazê-lo».
5.
Ao nascer, diz Todorov, o bebê busca ser confortado, agasalhado, nutrido, mas entre a sétima e a oitava semana de vida «faz um gesto que não tem igual»: já não se contenta — como antes e como os filhotes de outras espécies — em olhar para a mãe, mas tenta capturar seu olhar para ser olhado, quer contemplar o olhar que o contempla. Esse é o acontecimento graças ao qual a criança entra em um mundo humano, porque a existência humana começa com o reconhecimento de nós por parte de outro.
Mas, me pergunto, se uma criança foi abandonada e rejeitada até mesmo pela mãe, que lhe negou esse olhar de amor, pode-se negar a ela a dignidade de ser humano? Hoje também não poderíamos assegurar que os símios ou os golfinhos não busquem igualmente cruzar os olhos com os de suas mães, porque, como diz um poema de Teresa Arijon:
O que sabemos?
O que sabemos na noite gelada
sob os pinheiros?
O que sabemos?
O que sabemos quando a neve quieta cobre os vidros
e só se ouve o som do céu, lá fora, longe?
O que sabemos?
6.
«Não se pode resolver uma crise com aquilo que é o seu combustível. Será que, metidos nesta trama, somos capazes de buscar algo fora disso?», pergunta-se Ailton Krenak, líder indígena, poeta e filósofo brasileiro, e diz também que tudo o que é possível realizar está contido em cada um de nós, que nós somos a semente dessa mudança. Que, se nos dispusermos a ser sementes, a vida vai seguir, diz ele.
7.
Em A alma se tiene a veces, Jorge Larrosa relata que, quando Aristóteles subiu às esferas celestiais, compreendeu que para salvar-se tinha que afinar sua alma e fazê-la soar convertida em música. Assim atravessou todos os tons e estados (o amor, a angústia, o delírio, a loucura) que a razão havia deixado de fora. Desceu com sua lira a essas zonas que a razão não ilumina; só assim pôde fixar e ordenar o tempo que tudo esquece e tudo destrói, submetendo-o ao tempo humanizado, cujas qualidades as artes compartilham.
8.
Nadiezhda Mandelstam dedicou sua vida a memorizar os poemas de seu marido, o grande poeta russo Ósip Mandelstam, que morreu durante o estalinismo em um campo de concentração na Sibéria. Como um personagem de Bradbury, memorizou centenas de poemas para que a noite não os devorasse e assim os manteve vivos até depois da morte de Stalin, quando puderam passar ao papel. Pois bem, ela se pergunta, em seu livro de memórias, se as novas gerações acreditarão nela e se a verdade abrirá caminho algum dia entre tanto horror e tantas mentiras.
9.
A verdade, as verdades. O que mais terá que nos acontecer para que, como a criança que no conto de Andersen vê um desfile de obscenidades, possamos — do centro da ética e da política — dizer que o imperador está nu, e desativar tanto os alfaiates mentirosos quanto a nossa própria servidão.
10.
Em 1975, Pier Paolo Pasolini publicou um artigo sobre as novas formas do fascismo, esse genocídio cultural que destruiu a alma, o gesto, a linguagem e o corpo dos habitantes de um país. Ele fala também de como, devido à contaminação do ar e sobretudo à poluição da água, os vaga-lumes começaram a desaparecer. O fenômeno foi fulminante e fulgurante. Passados alguns anos, já não havia vaga-lumes. A Sobrevivência dos vaga-lumes, de Georges Didi-Huberman (Editora UFMG), retoma algumas de suas ideias e nos propõe olhar as coisas de outro modo. Os vaga-lumes, essas pungentes lembranças do passado, podem nos fazer um sinal no meio da noite, para que possamos enxergar um pouco além. Focos de resistência social e estética como bichinhos de luz na escuridão. Sinais no meio da noite. Clarões em tempos nos quais a crueldade se pratica e se exibe com total obscenidade.
Para ir concluindo
A luta do que está embaixo contra o que está em cima é rebelião e por isso é castigada, mas do perseguido depende também, em parte, o porvir do tirano. Essa é a força que ativa o movimento. Lembrar então: esse é o fogo que podemos arrebatar aos deuses, suspensos entre um passado que já se foi e um futuro que ainda não se vislumbra, porque nessa passagem rumo ao desconhecido talvez seja possível, desde o coração da ética e da política, ainda imaginar um devir.
«Se quiser pescar um grande peixe dourado, precisa adentrar nas águas profundas. Nas profundezas, os peixes são mais poderosos…», diz David Lynch. Na formação das novas gerações trabalham (trabalhamos, permitam incluir-me) os professores. A consciência do coletivo tem mudado tristemente nas sociedades contemporâneas, giros para um individualismo cada vez mais descarnado, com raivas dirigidas não contra os que nos ferem, mas contra os mais pobres ou mais necessitados do que nós. Mas essa centelha de vida que há em cada ser sobre a terra, essa spark of life, para dizê-lo com palavras de Charles Dickens em seu romance Nosso amigo comum, o fogo das vidas perdidas ou em risco de se perder já não são apenas vidas particulares, mas a própria vida enquanto energia comunitária.
Todos nós que estamos aqui esta tarde somos, de diferentes maneiras, pontes entre livros e leitores. Ao longo de sua história, a literatura teve em muitos momentos necessidade de servir a causas, razões e objetivos diversos, e muitas das maiores obras da cultura universal foram feitas ao calor de um projeto político, para desenvolver uma identidade e conformar uma nação, ou mesmo, mais concretamente, para que nenhum integrante de uma companhia de teatro ficasse sem trabalho. Mas essas obras chegaram até nós por sua capacidade de continuar dizendo para além de seu tempo e suas circunstâncias, por resistirem a serem interpretadas de forma completa, por sua oferta de leitura que não se esgota. Uma educação literária dessa natureza resiste ao afã de domesticação, inspira formas de resistência, sacode o medo de se equivocar diante de vozes sociais que ditam o que deve ser feito ou dito. Isso é algo que a literatura pode oferecer, creio eu. Nessa disfunção habita sua força pedagógica: abre uma porta para mundos possíveis. A arte em geral e os textos literários em particular são uma reserva de potencialidade para corroer algo, deslocar uma margem, romper um limite, pôr-se em questão, fazer pensar, porque quem obedece não pode fazer perguntas.
Estamos em um espaço de celebração dos livros. Com os livros podemos estabelecer conversas entre os que estamos vivos e os que já morreram, entre os que pensamos em uma língua e os que pensam em outras, entre os que somos daqui e os que vêm de outros lugares ou de outras épocas.
Porque ler nos faz pensar.
Porque ler é também imaginar. E imaginar é um ato de resistência diante das engrenagens de poder.
Resistência. Isso que os povos também fazem às vezes das maneiras menos pensadas, para que possa acontecer o impensado, para que possamos ouvir algo mais do que aquilo que já sabemos.
Tradução: Dolores Prades
Imagem: @martaalacevich
- Discurso proferido pela autoran na abertura da Feira del Libro Infantil y Juvenil de Buenos Aires, 2025. Publicado orifginalmente no Blog Linternas e bosques – Literatura infantile e juvenil. https://linternasybosques.com/2025/07/28/bichitos-de-luz-en-la-oscuridad-un-minuto-de-silencio-ma-teresa-andruetto-alto-al-genocidio-en-gaza/ ↩︎