Cara leitora, caro leitor,
Há anos que pesam mais do que outros — e 2025 foi um ano especialmente exigente. De um lado, sentimos as consequências da já longa instabilidade das compras públicas: três anos praticamente sem resultados concretos; o apoio institucional às causas do livro e da leitura cada vez mais raro; e a crescente precarização dos profissionais envolvidos na educação e na promoção da leitura. De outro, carregamos o peso das atrocidades que testemunhamos no cenário internacional e dos profundos dilemas éticos e humanos que elas colocam diante de nós.
Para quem trabalha com as infâncias e acredita, ainda que modestamente, na possibilidade de contribuir para um futuro melhor, este ano trouxe perguntas fundamentais: como continuar publicando para as infâncias e juventudes num mundo tão desigual e que assiste, impotente, a um genocídio? Como insistir na literatura “infantil” quando tantas infâncias são roubadas — quando sobrevivem?
Ninguém questiona o papel de editores, autores, ilustradores e mediadores em alimentar a imaginação, a fantasia e a criatividade das crianças, de maneira lúdica e esperançosa, aproveitando tudo que a literatura e a arte possibilitam como respiros civilizatórios. Mas, como não se interrogar, frente a este mundo polarizado e bárbaro?
Logo após o fim da Segunda Guerra, a jornalista e escritora alemã Jella Lepman, horrorizada com os efeitos da guerra sobre as crianças, criou em 1953 o IBBY – International Board on Books for Young People, convicta de que o acesso a livros de qualidade era essencial para a formação humana e para a construção da paz.
E nós, agora? Rever critérios — ou, no mínimo, torná-los mais exigentes —, aprimorar processos de seleção, olhar para as novas perguntas que a realidade impõe, pesar cada decisão de publicar ou recomendar um título, pensar na diversidade das infâncias e juventudes, na enorme responsabilidade decorrente de nossas escolhas… Grandes desafios que já nos acompanham e certamente marcarão nossos próximos passos.
Foi nesse contexto que realizamos uma das iniciativas mais importantes do Instituto Emília em 2025: a organização do Coletivo Editoras pela Palestina que publicou Não vou escrever poesia e outros contos, com textos e desenhos das “crianças do mar e das laranjas de Gaza”. Sendo que a arrecadação da venda deste livro será totalmente revertida ao Instituto Tamer que promove educação e cultura entre crianças palestinas. O livro está à venda!
Ao longo do ano, realizamos diversos cursos, com destaque para dois encontros memoráveis com Edimilson de Almeida Pereira, que nos trouxe reflexões essenciais sobre literaturas e diáspora. Também tivemos um calendário robusto de eventos: marcamos presença pelo terceiro ano consecutivo com estande próprio na Feira de Bolonha; realizamos a 7ª edição do Seminário Leer Iberoamérica Lee, em parceria com a Feira do Livro de Madri; e plantamos uma ponte com o continente africano ao organizar a 1ª edição do Leer África Iberoamérica, em Cabo Verde — iniciativa que certamente renderá muitos frutos. É o momento ideal para agradecer às editoras e aos autores que estiveram conosco nessa jornada.
Participamos ainda do IX Encuentro Iberoamericano de Redplanes, organizado pelo CERLALC — Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina – ,ao lado de representantes dos ministérios da Cultura de quase todos os países da América Central e do Sul. E fechamos o ano com presença em duas mesas na Feira de Guadalajara: A criação artística e a infância em perigo e Itinerários do livro infantil: circulação, pontes e oportunidades na Iberoamérica.
Tivemos também o início de novas parcerias: com a Revue des livres pour enfants, ligada ao CNLJ – Centre National du livre pour la jeunesse, onde publicamos um artigo que você pode ler na Revista Emília e participamos em novembro de um encontro on-line: La littérature jeunesse brésilienne au prisme des revues spécialisées: La Revista Emília et la Revue das livres pour enfants. Também iniciamos uma parceria com o NAMME – Núcleo de Estudos em Literatura Infantil Multimodal e Mediação Leitora da Faculdade de Educação da UFBA; e com a Revista Bambini Brasil, na qual o Instituto Emília participa com uma coluna sobre literatura para as infâncias desde sua primeira edição.
Este também foi um ano de celebração. Em parceria com o Ibeac, publicamos o segundo volume de Nascidos para Ler – Miudezas de nossa floresta, uma obra coletiva da comunidade de Parelheiros, com participação especial de Lucia Hiratsuka e Raquel Matsushita. Um trabalho que nos enche de orgulho, fruto de uma parceria fraternal que se renova a cada ano. Agradecemos ainda ao Ibeac, à Feira de Bolonha, à Martins Fontes e a todos os parceiros — antigos e novos — que caminham conosco.
No Selo Emília, em parceria com a Solisluna, publicamos Um pássaro de ar, de Maria Emilia López; Kintsugi, de Issa Watanabe; e O livro que me escreveu, de Mário Lúcio Sousa — três livros indispensáveis em seus gêneros. Nosso ritmo editorial seguiu o freio de mão imposto pelo mercado, mas, muitas novidades na gaveta que esperamos compartilhar logo, logo.
Tivemos a alegria de receber o Prêmio argentino Hormiguita Viajera, um reconhecimento ao nosso trabalho como promotores de leitura. E encerramos o ano com o lançamento da Comunidade Emília, um sonho antigo finalmente realizado: um espaço coletivo de reflexão e partilha, um pequeno “refúgio” nestes tempos difíceis. Um lugar onde, todos os meses, podemos participar de um clube de leitura, um grupo de estudos, encontros irresistíveis, receber playlists, recomendações de cinema e arte, e debater os desafios contemporâneos da literatura para crianças e jovens. Quem participa, além de tudo, contribui para a manutenção do Instituto Emília.
Vale lembrar que a Revista Emília, hoje em sua 390ª atualização — com cerca de 1300 textos ao longo de quase 15 anos —, continua sendo publicada integralmente e regularmente de forma gratuita. Assim como os Cadernos Emília, já no nº 9, os Guias dos Destaques e o Olhar Leitor, em sua 13ª edição, e as publicações derivadas de nossos seminários. E falando em Destaques, no nosso mais recente Guia 2024/2025, contamos com a participação de nossas representantes internacionais, de Portugal e Espanha, um reforço que aporta referências importantes e amplia nosso repertório.
Um trabalho reconhecido nacional e internacionalmente pela qualidade, pela continuidade e pela contribuição à reflexão e à prática no mundo do livro e da formação de leitores. Quem acompanha a Emília sabe: poucas referências da área deixaram de passar por aqui.
Tudo isso só é possível com muita convicção, insistência, persistência, energia, rede e trabalho colaborativo. Nosso agradecimento caloroso a todas e todos que estão perto — e também a nossas leitoras e leitores, que têm se aproximado cada vez mais.
Venham participar da Comunidade Emília. Esperamos vocês, pois nada como um coletivo para enfrentar melhor 2026!
Os editores