Diante do vazio que hoje se configura na representatividade da literatura para as infâncias e juventudes no Brasil, este coletivo considera fundamental se posicionar e resgatar alguns fatos relevantes.
Para muitos agentes do campo editorial voltado às infâncias e juventudes, os recentes acontecimentos — como a renúncia coletiva dos avaliadores da FNLIJ — não foram inesperados, assim como tampouco surpreendeu o desligamento da FNLIJ do IBBY, ocorrido há alguns meses. Trata-se de uma crise que se anunciava e que vinha se gestando ao longo dos últimos anos.
Foi nesse contexto que, em 23 de abril de 2023, encaminhamos uma proposta para a criação de uma subseção do IBBY em São Paulo. A iniciativa partia do reconhecimento de uma já evidente fragilidade na representatividade internacional oficial do Brasil, aliada à convicção da urgência de rever rumos e estratégias dessa representação.
Importa destacar que essa proposta nunca se apresentou como única alternativa, mas como uma possibilidade concreta de enfrentamento da crise, à semelhança do que ocorre em países que, dada sua dimensão territorial e diversidade, optaram por ampliar e descentralizar suas formas de representação. Pressões tanto nacionais quanto internacionais contribuíram para impulsionar essa reflexão.
O propósito central da iniciativa era agregar diferentes instituições e atores do campo — autores, ilustradores, editores, livreiros, bibliotecários e mediadores — comprometidos com a formação de leitores e com a promoção de uma literatura de qualidade. Tratava-se de contemplar a diversidade que hoje caracteriza a produção editorial e as práticas de fomento à leitura no Brasil, muitas vezes desenvolvidas à margem da representação institucional oficial.
A constituição deste coletivo nasce, portanto, do desejo de dar visibilidade a essa diversidade e de abrir espaço para a pluralidade de vozes que compõem a cena contemporânea da literatura para as infâncias e juventudes. Trata-se de afirmar um olhar inclusivo, democrático e representativo sobre o campo do livro e da leitura.
Essa iniciativa responde às transformações da contemporaneidade, que exigem a construção de novas pontes, o fortalecimento e a diversificação de redes, e o reconhecimento de setores historicamente invisibilizados. Mais do que nunca, torna-se necessário promover uma literatura que reflita essa multiplicidade e que amplie o acesso de crianças e jovens a obras de qualidade.
Entendemos que, em consonância com os princípios fundadores do IBBY, essa proposta poderia ter se constituído como um importante instrumento de articulação, capaz de reunir diferentes frentes em torno de um objetivo comum: promover e garantir o acesso à literatura de qualidade, contribuindo para a formação de leitores críticos. Além disso, abriria, pela primeira vez, a possibilidade de ampliar a representação nacional, superando a histórica centralização no Rio de Janeiro.
Com esse intuito, o coletivo apresentou formalmente sua proposta à FNLIJ, colocando-se inclusive à disposição para colaborar com sua sustentação econômica — o que, em princípio, poderia ter evitado o desligamento do Brasil do IBBY. No entanto, a proposta foi recusada, sem abertura ao diálogo. Por sua vez, o IBBY, alegando limitações estatutárias quanto à intervenção em questões locais, optou por não dar seguimento à iniciativa.
O momento atual, no entanto, é outro. A proposta de criação de uma subseção — concebida, vale reiterar, para coexistir com a FNLIJ — já não se coloca nos mesmos termos. Ainda assim, os princípios que a orientaram permanecem plenamente atuais e podem fundamentar a construção de uma nova forma de representatividade: coletiva, nacional, diversa e alinhada aos desafios contemporâneos.
Diante da desconsideração deste movimento — à época amplamente divulgado — e frente aos argumentos de que apenas agora surgem alternativas capazes de representar o Brasil internacionalmente, sentimos a necessidade de nos manifestar, em nome dos signatários deste coletivo e das mais de 80 pessoas que apoiaram formalmente essa iniciativa.
Permanecemos, assim, no aguardo de orientações por parte do IBBY Internacional.
Para aqueles que desejarem conhecer mais detalhes, toda a documentação referente à proposta encontra-se disponível no link abaixo, onde estão explicitados os objetivos do coletivo e as iniciativas amplamente difundidas há três anos.
Assinam pelo Coletivo:
Alexandre Martins Fontes (Editora WMF)
Bel Santos Mayer (IBEAC)
Diana Navas (PUC-SP)
Dianne Melo (Instituto Emília)
Dolores Prades (Instituto Emília)
José Castilho Marques Neto (Castilho Consultoria)
Pierre André Ruprecht
Valeria Pergentino (Editora Solisluna)
Histórico: