Em uma correspondência inédita, o filósofo e ensaísta espanhol reflete sobre leitura compartilhada, infância, linguagem, atenção e os modos pelos quais os relatos ainda podem abrir uma habitação comum no mundo contemporâneo.
Ler Leer con niños foi, para mim, uma experiência decisiva. Durante o mestrado, o livro de Santiago Alba Rico me ofereceu não apenas um campo de reflexão sobre a leitura nas infâncias, mas uma ética: a de uma leitura partilhada com um adulto verdadeiramente presente, feita de diálogo, corpo, escuta e confiança no texto. Ao longo dos anos, essa leitura seguiu viva no meu trabalho, tanto na pesquisa quanto nos grupos de estudo que passei a conduzir sobre leitura nas infâncias. Voltar agora a Santiago, já em São Paulo, atuando nas redes de leitura, programas e projetos do Sistema Municipal de Bibliotecas e integrando a Revista Emília, teve, para mim, a força de um reencontro.
Desde o início, no entanto, eu sabia que não queria transformar esse encontro em um bloco rígido de perguntas. Ler Santiago havia me ensinado justamente o contrário: que o mais vivo talvez estivesse menos em extrair respostas do que em sustentar uma conversa. Propus, então, uma troca de e-mails, uma correspondência. Havia nisso menos um recurso de forma do que uma tentativa de preservar, também no modo do encontro, algo da presença, da escuta e do tempo que sua obra sempre me ensinou a reconhecer como essenciais.
Filósofo, ensaísta e escritor espanhol, Santiago Alba Rico é autor de uma obra marcada pela atenção à linguagem, à infância, à leitura, à política e às formas de presença no mundo contemporâneo. Ainda pouco conhecido no Brasil, terá Leer con niños publicado no país pelo selo Emília no próximo ano. A conversa que segue nasce dessa aproximação: não uma entrevista em sentido estrito, mas um encontro atravessado por leitura, presença e mundo.
Antes que esta conversa tomasse a forma de perguntas e respostas, houve um primeiro gesto que acabou lhe dando o tom. Ao propor a Santiago Alba Rico que fizéssemos desta entrevista uma troca de e-mails, recebi dele uma resposta em que a leitura e a escrita apareciam nomeadas sob a forma de uma imagem precisa e comovente:
“Não sabes o quanto me emociona que me digas que leem meu livro no Brasil e que o utilizas no teu trabalho. Escrever é como lançar uma garrafa à água; nunca sabes se algum outro náufrago, em outra ilha, a vai recolher e ler a mensagem que ela traz dentro. Em geral, viver, mas muito especialmente ler, é algo muito parecido com uma troca de garrafas entre náufragos que nunca sabem se suas palavras se perderam ou não no mar.”
Desde então, essa imagem passou a acompanhar toda a correspondência. Talvez porque nomeasse, desde o início, algo da distância, da travessia, da espera e da esperança implicadas em toda conversa verdadeira.
I. Ler com os filhos, escrever a partir da vida
Talula Trindade – A primeira pergunta nasce de uma curiosidade muito profunda por essa cena originária: um pai lendo com os filhos. Gostaria que você pudesse voltar, se possível, a esse tempo compartilhado – os gestos cotidianos, as leituras, as descobertas, até mesmo as incertezas. Em que momento você sentiu que essa experiência poderia se transformar em livro? Como se deu essa passagem entre a vida vivida e a palavra pensada que deu origem a Leer con Niños?
Santiago Alba Rico – Sou uma pessoa de caráter fácil, mas de alma difícil. Fiz tudo na vida um pouco a contragosto e sem demasiada satisfação, como se houvesse sempre uma distância entre o mundo e eu. Mas posso dizer, sem nenhuma hesitação, que os melhores momentos da minha vida foram os que passei com Lucía e Juan, cada um de um lado do meu corpo, lendo em voz alta os grandes clássicos da literatura. Hoje me dá um pouco de vergonha contar isso, na verdade. Parece um daqueles projetos educativos elitistas em que se misturam vaidade pessoal e disciplina pedagógica. Não foi nada disso.
As crianças, me parece, pedem e devoram relatos com a mesma paixão com que pedem pão e leite. Diante dessa demanda, todos os pais recuperam a memória dos antepassados ou se tornam inventivos. Um pai, uma mãe de qualquer sexo, fará o que for preciso para que não falte ao filho um pedaço de pão na boca; e fará qualquer coisa para que não lhe falte um conto nos ouvidos. Assim, as mães de qualquer sexo, pressionadas desse modo, redescobrem as canções e histórias de sua própria tradição, que acreditavam esquecidas, e chegam até mesmo a descobrir um talento para a narração e a criação que não sabiam possuir.
Pela minha formação e pelo meu trabalho, dar-lhes relatos me resultava tão natural quanto cozinhar para eles. Quando eram pequenos, eu os inventava; quando cresceram um pouco, foram eles mesmos que começaram a me pedir que eu lesse meus livros preferidos. Nenhuma leitura lhes pareceu difícil ou entediante. Nem mesmo Faulkner ou Joyce, que li para eles, por insistência deles, numa idade bastante precoce. Creio que ajudava muito o suporte muito físico da experiência: a proximidade dos corpos e a carnalidade rítmica da voz, que os embalava e hipnotizava. Eu lia para eles enquanto jantavam e enquanto tomavam café da manhã e depois, dentro do carro, mais alguns minutos à porta da escola. Eles descobriram muito cedo a autonomia da literatura, seu poder e suas regras; eu, por minha vez, revi meu cânone.
Quanto à ideia de levar essa experiência para um livro, ela não foi minha. Eu estava entusiasmado e falava constantemente de minhas leituras em voz alta, até que um dia meu amigo Constantino Bértolo, ao me ouvir, teve a ideia. Depois, ele foi o primeiro editor da obra, na coleção Caballo de Troya.
II. Quando um livro se torna habitação
TT – A segunda pergunta tem a ver com o processo de escrita. Leer con Niñosé um texto profundamente íntimo e, ao mesmo tempo, um espaço de encontro para muitos outros. Como foi, para você, transformar algo tão pessoal em uma experiência de hospitalidade, em uma obra que hoje acompanha leitores, mediadores e educadores em contextos tão distintos?
S A R Antes de tudo, quero dizer que gosto muito de você falar do livro nesses termos, como se ele tivesse conseguido reconstruir para os leitores as próprias condições das minhas leituras com meus filhos; como se o livro fosse o quarto em que continuo lendo para eles e onde agora cabem todos os que se aproximam dele. A verdade é que nunca esperei que Leer con Niños tivesse tanto percurso; é, sem dúvida, de todos os meus livros, aquele que mais circulou e o que mais foi lido.
Mas não se pode saber quando um livro vai se transformar em uma casa. Neste caso, creio que concorrem diversos fatores, reunidos ali um pouco por acaso, como quando passageiros diferentes coincidem no mesmo vagão de um trem. Um fator muito importante é, provavelmente, a “universalidade” dessa fusão quase orgânica entre relato e infância, para além dos livros e dos sofás burgueses: essa ideia, muito presente no livro, de que, através do relato, penetram a distância e, portanto, o espaço-tempo no isolamento um pouco pastoso dos corpos; e de que essa distância se abre na proximidade de outros corpos e de outras vozes.
Só através dos relatos conseguimos, quando crianças, assumir a independência e a pluralidade do mundo. E essa é uma das poucas coisas ao alcance de todos, porque todos sabemos contar e todos gostamos de escutar uma história. Temo que hoje, por meio da digitalização do relato, essa independência e essa pluralidade tenham sido em parte danificadas. Está cada vez mais difícil construir relatos comuns.

III. A crise do relato e a perda da casa
TT – Ao pensar nessa ideia da leitura como casa/habitação, e na minha própria convicção de que a leitura não é um hábito, mas algo que nos habita, não consigo deixar de lembrar um trecho de Leer con Niñosem que você fala do enfraquecimento da memória, do analfabetismo funcional e da extinção das frases longas.
Se a memória é uma forma de interioridade, e se os relatos introduzem distância e pluralidade em nossa experiência, poderíamos dizer que a crise contemporânea do relato é também uma crise de habitação? Estamos perdendo não apenas a capacidade de lembrar, mas a própria possibilidade de alojar o mundo em nós?
E, nessa paisagem, que lugar ainda ocupam a leitura em voz alta, a lentidão e a frase longa, que exigem respiração e tempo?
SAR – O verbo “habitar” é um verbo importante. Em latim, ele fazia fronteira com “possuir”, mas era, de algum modo, o seu contrário. Quero dizer: possidere tinha uma conotação de conquista e remetia ao ato de se apoderar ou se tornar dono de algo por meio de um gesto rápido e decisivo, enquanto habitare, como frequentativo de habere (“ter”), implicava a ideia de chegar a interiorizar algo por meio da repetição; era, portanto, inseparável do corpo e de seus costumes.
A casa é “casa” não porque tenha sido comprada ou herdada, nem sequer porque tenha sido construída com as próprias mãos, mas porque se volta a ela todos os dias. Casa, sim, é o lugar que voltamos a ocupar e no qual nos reconstruímos, onde reacendemos o fogo para recordar, diante dele, o repertório do nosso mundo. Nesse sentido, onde habitamos hoje? Já não em um “lar”, porque o fogo perdeu sua centralidade; e porque até a televisão, que no século passado havia ocupado o seu lugar na sala de estar familiar, foi deslocalizada e dispersa, quando não substituída, por um crepitar de telas individuais. Já não habitamos uma casa porque não temos nem corpo nem costumes.
Essa dupla perda de “habitação” corresponde a uma aceleração que, em termos econômicos, chamamos de capitalismo neoliberal e, em termos tecnológicos, era digital.
O neoliberalismo e a digitalização geraram uma segunda mutação antropológica, para evocar Pasolini em seus Escritos corsários, que se traduz em aumento da velocidade vital, fragmentação sintática e paixão numerária. Ou, o que é o mesmo, em falta de atenção, de memória e de compromisso, as três cláusulas do relato como fio que costura sem cessar o espaço-tempo e as criaturas que o povoam. A velocidade invisibiliza as coisas, a fragmentação torna impossível recordá-las, a numeração as despoja de seu valor individual.
Nessas condições, com efeito, o mundo já não é nossa casa, no sentido aqui indicado, e em nossa casa já não cabe nenhum mundo. Concordo com você, portanto, que estamos vivendo uma crise do relato como habitação comum, mas essa crise, paradoxalmente, se manifesta sob a forma de inflação narrativa, de um excesso pluvial de palavras e imagens, de um tsunami de estímulos sensoriais pré-cozidos. O tempo livre foi proletarizado pelas novas tecnologias e pela indústria do entretenimento, que penetram em todos os parênteses e nos proíbem o tédio, a imaginação e a espera.
É verdade que somos hoje incapazes de inventar um projeto comum anticapitalista, mas não é menos verdade que o tédio, a imaginação e a espera constituem os momentos não capitalistas de nossa vida, e por isso o capitalismo tem tanto interesse em entrar neles e deles se apropriar tecnológica e mercantilmente, convertendo o tédio em distração passiva, a imaginação em fantasia tecnológica e a espera em digestão permanente. Esses três islotes, íntimos e ao mesmo tempo universais, são os três únicos territórios que o capitalismo ainda não conquistou por completo e que deveríamos tratar de defender com todas as nossas forças.
É aí que a leitura adquire seu sentido como prazer militante diante da proletarização do ócio. Sobretudo a leitura em comum, por meio da qual recuperamos a experiência do paradigma letrado como conexão orgânica entre o privado e o público: todos, com efeito, precisamos compartilhar com os outros a singularidade de nossa emoção leitora. A leitura, quero dizer, confirma e estende, a partir do que há de mais concreto e particular, uma comunidade potencialmente universal. Não sei no Brasil; na Espanha, nos últimos anos, multiplicaram-se os clubes de leitura, onde essa velha comunidade do paradigma letrado é protegida, muito mais democrática, por certo, do que as redes sociais e seus nichos identitários.
IV. Atenção, espera e tempos não capitalistas
TT – Fiquei pensando muito nesse trecho da sua resposta em que você fala do tédio, da imaginação e da espera como esses três islotes que o capitalismo ainda não conseguiu conquistar por completo. Essa me parece uma imagem muito precisa do nosso tempo. Ao lê-lo, eu pensava também na dimensão comunitária da leitura. Se esses territórios só podem se sustentar na lentidão e em uma certa forma de atenção, talvez a leitura compartilhada seja um dos poucos lugares onde ainda podem respirar. Às vezes gosto de imaginar essas comunidades leitoras como pequenas fogueiras contemporâneas: pessoas reunidas em torno de um relato, partilhando um tempo que não se mede em produtividade, mas em proximidade. Algo muito próximo do que você descreve quando fala da leitura como uma conexão orgânica entre o privado e o público.
Pergunto-me então: você acredita que essas pequenas comunidades leitoras – clubes de leitura, bibliotecas, encontros em torno dos livros, podem se converter hoje em um dos lugares onde ainda se protege esse tempo não capitalista de que você fala? A leitura compartilhada pode funcionar como uma forma de resistência cotidiana diante da aceleração que fragmenta a nossa experiência?
SAR – Gosto muito de um episódio das memórias do grande poeta húngaro Gyorgy Faludy. Perseguido primeiro pelo regime nazista, Faludy acabou, depois da Segunda Guerra Mundial, em um campo de trabalho stalinista, em condições tão extremas que todos os dias morria um dos prisioneiros. Os mais fortes, obcecados pela sobrevivência, procuravam poupar energia e, depois das fatigosas jornadas de escravidão, tratavam de acumular o maior número possível de horas de sono. Faludy e alguns companheiros, mais velhos e mais frágeis, faziam exatamente o contrário: quando todos iam dormir, eles se reuniam em torno de uma das camas e falavam longamente de filosofia e literatura, recitavam Shakespeare e Goethe e contavam histórias realmente acontecidas ou inventadas. O que aconteceu? No fim, foram os “narrativos”, e não os biologicamente superiores, que sobreviveram. O que os manteve vivos foi a paixão compartilhada pela literatura e aquela sociabilidade noturna tecida em torno dos relatos; não o individualismo biológico.
Faludy, extraordinário narrador, gostava de inventar, e talvez essa história seja apenas meio verdadeira, mas o certo é que vale a pena levá-la a sério. Aquelas horas noturnas falando de Sócrates e “lendo” em voz alta seus respectivos pensamentos eram as únicas horas não stalinistas de seus dias, ao passo que o sono prudente e “conservador” dos demais pertencia, como as horas de trabalho, ao poder que os mantinha cativos.
Não sou contra que os seres humanos se distraiam juntos assistindo a uma partida de futebol ou compartilhando algumas horas de festa, mas há uma diferença entre as “distrações” e as “atenções”. A filósofa Simone Weil insistia em que a salvação é obra da atenção e não da vontade, segundo o conteúdo de um termo grego muito bonito, a hypomoné, ou “espera atenta”, ao qual ela se referia com frequência. Esperar e atender são as condições da leitura e da existência do outro. Ao contrário do que ocorre com o chamado “tempo real” das novas tecnologias, a espera nos inscreve na sucessão do tempo, onde as coisas amadurecem lentamente: é a “trama” dos relatos, que se enfiam como contas de um colar. Quanto à atenção, é o que nos impede de devorar as criaturas que olhamos; atender é renunciar à destruição do objeto, sempre ameaçado pela aceleração digestiva.
Atenção e espera são, portanto, duas bombas-relógio na medula do capitalismo; ali onde esperamos e prestamos atenção escapamos do capitalismo e, de algum modo, ameaçamos sua própria essência. Sim, acredito que as leituras compartilhadas em voz alta fazem parte das nossas horas não capitalistas de resistência antropológica.
V. Nossas palavras são nossas coisas
TT – Há uma outra questão que eu gostaria de explorar com você, e que se relaciona também com a palavra. Pensei muitas vezes que alguns escritores parecem escrever movidos por um amor profundo pela linguagem, como se a escrita fosse uma maneira de prolongar uma conversa iniciada na leitura. Pergunto-me como isso acontece no seu caso.
De que maneira a leitura alimenta a sua escrita? Você sente que escreve para responder aos livros que o acompanharam, para dialogar com eles, ou para continuar, com a sua própria voz, esse fogo que se acende quando lemos?
SAR – Quanto à questão da linguagem, vou lhe fazer uma confissão pessoal. Às vezes me acontece como a Rousseau, e eu sobrevalorizo o que ocorre fora de suas fronteiras, ainda que saiba que todas as saídas me estejam proibidas. Você se lembra daquela frase de Rousseau em suas Confissões? Dizia algo assim: “quanto mais feliz eu teria sido se jamais tivesse aprendido a ler e a escrever; mas agora que já não há volta atrás, sei que toda a minha felicidade só pode vir da leitura e da escrita”. Aconteceu comigo algo parecido: aos quinze anos, passei de atleta medíocre a decorar o dicionário; você pode imaginar o horror sem sentido dos meus primeiros contos e romances, sem falar do dano que minha saúde sofreu. Depois fui soltando lastro, como os balões aerostáticos, que sobem deixando cair sacos de areia.
Fora da linguagem eu me sinto muito vulnerável. E nunca distingui bem entre forma e conteudo; sempre pensei, ou melhor, gostei, das duas coisas ao mesmo tempo, como inseparáveis desde a sua própria cunhagem. Pode um caranguejo ser de outra forma? E poderia chamar-se mesa? Na velha disputa entre Hermógenes e Crátilo, eu sempre me inclinei, em minha prática de escrita, por Crátilo, contra toda a ciência e a linguística moderna. Borges dizia isso em seu poema “O Golem”: “Se (como afirma o grego no Crátilo) / o nome é arquétipo da coisa / nas letras de ‘rosa’ está a rosa / e todo o Nilo na palavra ‘Nilo’.”
Não, não creio que nem a “borboleta”, nem a “mariposa”, nem a farfalla possam chamar-se de outro modo; e acredito que essas palavras têm asas e saem voando quando as pronunciamos; e que, justamente por isso, é preciso protegê-las quando as pronunciamos, porque o seu próprio voo as torna muito frágeis. Essa é uma característica da condição humana; os seres humanos não têm palavras de um lado e coisas do outro: nossas palavras são nossas coisas. E isso é uma maldição e uma bênção.
Essa é a razão pela qual é preciso manejá-las com cuidado; e pela qual o próprio manejo delas, o manejo da forma, já é uma questão política. Minha escrita, nesse sentido, tampouco distingue muito bem o político do literário. E se nutre, desde logo, das palavras de outros autores, com os quais dialogo e aos quais com frequência plagio sem sabê-lo. Ou melhor: eu os traduzo. Porque no espaço sublunar basta mudar de corpo uma palavra para que ela já soe diferente: é isso o que chamamos propriamente de traduzir, falar as palavras de outro com o nosso próprio corpo.
VI. As palavras nos cuidam
TT – Sua resposta me deixou pensando muito, especialmente nessa relação que você traça entre atenção e espera como condições da leitura e, ao mesmo tempo, como uma forma de resistência diante da aceleração que atravessa as nossas vidas. Parece-me muito poderosa essa ideia de que, ali onde esperamos e prestamos atenção, escapamos, ainda que por um instante, da lógica do capitalismo. Pergunto-me então se a leitura não é, no fundo, uma das poucas práticas que ainda nos treinam nessa forma de presença: esperar, atender, sustentar uma trama que amadurece lentamente no tempo. Você diria que a leitura, especialmente a leitura compartilhada, pode se tornar hoje uma espécie de escola da atenção e da espera, uma prática em que ainda aprendemos a habitar o tempo de outro modo?
Há um outro aspecto da sua resposta que me impressionou muito: quando você diz que nossas palavras são nossas coisas e que, portanto, a própria forma da linguagem já é uma questão política. Pensava nisso ao me lembrar daquela cena de Fahrenheit 451 em que cada pessoa guarda um livro na memória, como se as palavras fossem algo que precisasse ser protegido para que o mundo não desaparecesse com elas. E pensava também em algo que acontece muitas vezes na literatura: sua capacidade de iluminar o comum. Em romances como Stoner, por exemplo, a vida de um homem aparentemente ordinário adquire uma força inesperada simplesmente porque a literatura a nomeia e a sustenta com atenção.
Gostaria então de lhe perguntar: você acredita que a literatura tem justamente essa potência de resgatar o mundo de sua invisibilidade? Se nossas palavras são nossas coisas, poderíamos dizer que escrever e ler é também uma forma de cuidar da existência do comum, daquilo que, sem a linguagem, ficaria condenado a desaparecer?
SAR – Há livros que servem apenas para matar o tempo e livros que levam o seu próprio tempo dentro de si. Você citou Stoner, um livro extraordinário que, na verdade, trata da passagem do tempo e demonstra que uma vida inteira cabe em um romance. De fato, essa vida, enquanto a lemos, dura mais do que a própria vida. Depois, quando terminamos, acontece que só passaram algumas horas. Ora, ao contrário do que acontece com os livros que matam o tempo, sem falar nas telas, essas horas não nos parecem perdidas, mas ganhas. Como as crianças, os bons livros nos dão tempo. Por isso, quando são muito bons, sair deles nos parece quase traumático: voltamos ao nosso corpo e mergulhamos de novo, com pesar, na finitude rapidíssima dos nossos costumes, das nossas mercadorias e das nossas tecnologias.
Há pouco eu explorava a diferença entre eternidade e imortalidade. A imortalidade é a utopia destrutiva dos milionários do Vale do Silício, dos ultrapoderosos, dos ditadores e tiranos da Terra: o desejo de viver para sempre, de ser sempre jovem às custas dos outros. A eternidade é outra coisa. Um pensamento cabe na eternidade, dizia William Blake; e um amor verdadeiro também, poderíamos dizer; e um grande poema; e o segundo movimento do segundo trio de Schubert, que na realidade dura apenas sete minutos. Existem outros tempos, sim, compatíveis com a nossa finitude trágica, tempos que a aliviam e a iluminam, mas não a eliminam. Eliminar a finitude é um projeto impossível de ricos fantasiosos. Abrir brechas nela para eternidades de bolso, fugitivas e ao mesmo tempo esclarecedoras, é, no entanto, possível graças à arte e à literatura.
O clarão de um relâmpago no céu noturno dura alguns segundos, apenas um piscar, mas esse segundo ilumina um mundo que continua existindo na escuridão. Para que serve esse clarão? Serve para que pensemos a luz e a escuridão e, ao mesmo tempo, o mundo que a luz revela e que a escuridão vela. Diante da falsa imortalidade do capitalismo, a leitura abre esse tempo mais denso, mais dilatado, mais rico, em que re-apresentamos o mundo a nós mesmos, sempre mudo e invisível na experiência direta. A segunda vez, a dos relatos, é a primeira vez das coisas. Essa é a importância das palavras; elas nos cuidam, ocupam-se de nós, nos olham, e esse ser olhado pela palavra do outro é a verdadeira fonte de valor de cada ser humano em particular e da comunidade que eles formam.
Quanto à leitura pública, em voz alta, ela faz coincidir, numa espécie de intercorporalidade comum, a intimidade dos corpos e a objetividade da voz. Todo relato está inscrito em uma comunidade virtual, à qual podemos ter acesso na solidão, deitados em nossa cama, ou junto a outros corpos, em torno de uma fogueira real ou figurada. Esses dois tipos de leitura não se excluem mutuamente. De fato, cada um deles deve levar ao outro, com a consciência, em todo caso, de que, em tempos de descuido estrutural e de desatenção tecnológica, essa “objetividade da voz” gera e confirma um espaço compartilhado de resistência prazerosa.
Desde a primeira resposta de Santiago, fiquei acompanhada pela imagem das garrafas lançadas ao mar. Há nela algo da distância e da esperança, mas também do tempo próprio das correspondências: esse tempo em que uma palavra parte de uma margem sem saber exatamente como chegará à outra. Talvez esta conversa tenha sido isso. E talvez, por isso mesmo, tenha conseguido abrir, entre a leitura e a escuta, uma pequena habitação comum.