Um abraço. Foi isso que pediu uma das jovens quando passamos o microfone.
“Quando foi a última vez que vocês abraçaram seus filhos?”, perguntou Evangeline, estudante de Ensino Médio, a um público majoritariamente adulto. Em seguida, continuou questionando a falta de comunicação e de presença por parte dos adultos.
Sua fala provocou uma catarse entre as outras jovens ao seu lado, que compartilharam, profundamente comovidas, a solidão, a tristeza e o rechaço que sentiam nessa etapa de suas vidas: a adolescência.
Falamos da primeira infância, da infância e da juventude (muitas vezes mais voltados para os jovens adultos — e até negando que exista uma “literatura juvenil”), mas com muita frequência silenciamos a adolescência. Ouço de pais e mães, mediadoras, professores, editoras e especialistas que faltam oficinas, livros, círculos de leitura voltados aos adolescentes; estudos sobre essa faixa etária; e uma vez escutei, num congresso, o escritor uruguaio Federico Ivanier se perguntar: onde está o “P” de Puberdade nas siglas LIJ, de literatura infantil e juvenil. Espremida em um “j” apertado que lança raízes? “E” juvenil? Onde?
Nesse território pendular, às vezes insular, de areias movediças, entre os impulsos do corpo e a perda da credulidade, entre os 10 e os 19 anos (segundo a Organização Mundial da Saúde), vive-se marcado por fronteiras. E o fronteiriço, sabemos, é por definição um espaço de tensão (de um lado e do outro: infância plena, juventude adulta), muitas vezes disputado, incômodo, sem respostas simples. Um “Entre-aqui-e-acolá”, como diz J. M. Barrie, e leio como epígrafe de A nostalgia do vazio- A leitura como espaço de pertencimento dos adolescentes (Selo Emília & Solisluna, 2021), esse livro tão luminoso escrito por Freddy Gonçalves Da Silva sobre suas práticas de mediação de leitura com adolescentes:
— Então, não poderei ser exatamente um humano?
Peter perguntou.
— Não.
— E nem exatamente um pássaro?
— Não.
— E o que vou ser?
— Será um pouco de um e um pouco de outro (…).
Entre-aqui-e-acolá, mas com identidade, não num limbo, como geralmente se julga. Do limbo olhamos nós, os adultos, sem saber o que dizer.
Evangeline e suas colegas do Ensino Médio também criaram cartazes para acompanhar sua leitura performática de Canção de protesto pelas jovens e jovens detidxs desaparecidxs (UNAM, 2023), em Veracruz, durante a Semana de Leitura e Cultura Infantil e Juvenil – SeLee 2024, momento em que se expressaram catarticamente. Em um dos cartazes se lia: O abuso se alimenta do silêncio.
Falar, ser ouvidas, ser olhadas nos olhos, receber um abraço que expresse carinho e interesse — foi por um mundo assim que protestaram. E às vezes, os únicos espaços que encontram para desabafar, buscar consolo e até denunciar (no México, adolescentes não têm respaldo legal para apresentar denúncia sem o acompanhamento de um adulto) são as redes sociais, que funcionam como microfone e fórum; as social media, que também são negócios controlados por corporações (em muitos casos, neofascistas), que lucram com sua vulnerabilidade.
A nova maioridade talvez não seja mais uma fronteira etária, 18, 21 anos; e sim tecnológica, o momento em que se tem acesso a um dispositivo e nasce o perfil virtual. Ou talvez ainda esteja ligada à idade, e quem define é o Instagram, que estipula os 13 anos como idade mínima para abrir uma conta (o Mastodon, rede social livre, recentemente alterou o mínimo para 16 anos). Quais as implicações sociais dessa nova lógica? Será que ela oferece maior agência à adolescência? Ou a aliena e a expõe precocemente às normatividades e ao consumismo?

A paternidade na série Adolescência
[Atenção: a partir daqui, meu texto contém revelações e informações-chave sobre o desfecho da série]
A mãe de Jamie, um adolescente de 13 anos, personagem central da minissérie fictícia Adolescência, produzida pela Netflix, se pergunta, ao lado do marido, se não deveria ter conversado mais com ele, ter aberto a porta do quarto que ele mantinha fechada por tantas horas. “Ele nunca saía do quarto. Chegava em casa, batia a porta e subia direto para o computador”, diz a mãe. O pai tenta tranquilizá-la: “Não podíamos fazer nada. Todas as crianças são assim agora, não é? (…) Não podemos vigiá-las o tempo todo.”
Surge então outro debate necessário: como acompanhar sem vigiar? Cuidar sem custodiar. Não apenas os pais e mães, mas também a escola, as organizações, o Estado.
Mais adiante, o pai também reconhece sua distância e admite que, em determinado momento, deixou de inscrever Jamie em esportes como futebol e boxe — que “o tornariam mais forte” — para deixá-lo desenhar e lhe comprar o computador que ele pedia. Depois, seu negócio cresceu e ele se afastou ainda mais — saía às 6h e voltava às 20h. “Talvez eu o descuidei”, diz.
Essa minissérie de drama criminal, com quatro episódios e dirigida por Philip Baranti, gira em torno do feminicídio cometido por um adolescente, Jamie, contra uma colega de sala, Katie. O primeiro episódio narra a prisão de Jamie; o segundo, a investigação de dois detetives na escola onde ele estudava; o terceiro, a entrevista conduzida por uma psicóloga no centro de detenção; e o quarto episódio, de onde foi extraída a conversa acima, acompanha sua família — os pais e a irmã — na manhã do aniversário do pai, tentando seguir com a vida.
No quarto episódio, o pai justifica o fato de não terem aberto a porta do quarto de Jamie dizendo que talvez ele estivesse “vendo pornografia ou qualquer outra coisa” no computador… como um vídeo misógino que apareceu, por acaso, no próprio celular dele — um vídeo em que um homem defendia um certo tipo de masculinidade e de tratamento às mulheres. Trata-se de uma clara referência à “machosfera” ou “manosfera”, essa perigosa comunidade digital repleta de discursos de ódio, que acusa os feminismos de privarem os homens de seus direitos.
A masculinidade na machosfera
“Dois terços dos jovens interagem periodicamente com influenciadores que abordam a masculinidade online. Segundo especialistas, a popularidade da linguagem extrema usada na machosfera não só normaliza a violência contra mulheres e meninas, como também está associada à radicalização e a ideologias extremistas”, explica a ONU Mulheres em seu artigo recente: O que é a machosfera e por que ela deve nos importar?
Propor uma reflexão sobre a falta de alfabetização midiática por parte dos adultos, que muitas vezes desconhecem os conteúdos danosos aos quais crianças e adolescentes estão expostos, é outra das apostas da série Adolescência. Ativistas feministas como Laura Bates têm enfatizado que a manosfera e a cultura incel (sigla para “célibe involuntário”, em inglês) perpetuam ideias sexistas entre adolescentes sem que os pais percebam. Essa subcultura se apresenta como inofensiva, com roupagem de autoajuda ou desenvolvimento da autoconfiança, mas aos poucos introduz visões nocivas entre os jovens do sexo masculino, sem acionar alertas.
O feminicídio cometido por Jamie, de fato, seria em parte resultado dessa machosfera. Jamie é um desses adolescentes radicalizados por esse tipo de conteúdo, que sofre bullying na escola, é rotulado como incel, deseja a aprovação do pai e tem problemas com a raiva. “Ele tem um temperamento horrível, mas você também tem”, diz a mãe de Jamie ao pai, na conversa final. “Não diga isso, ele não herdou isso de mim, herdou?”, responde ele.
A minissérie evidencia claramente uma cadeia de masculinidades tóxicas: “Quando eu tinha a idade do Jamie, meu pai me batia, uma e outra vez com o cinto. Eu prometi que nunca faria isso”, diz o pai — que minutos antes havia sido visto, em um acesso de raiva, empurrando um adolescente e jogando tinta. Tanto a mãe quanto a irmã de Jamie o olham com medo.
No terceiro episódio, a psicóloga que avalia Jamie quer trilhar esse caminho também: nas sessões anteriores, já haviam falado sobre a visão dele em relação às mulheres, e agora ela gostaria de falar sobre os homens: “O que é ser homem para você?”, “O que você pensa sobre seu avô e seu pai?”, “Que tipo de homens você acha que eles são?”,
“Podemos falar sobre seu pai?”, pergunta ela. Jamie responde que seu pai não é carinhoso, mas que estranharia se fosse, como se já estivesse acostumado a essa ausência de afeto e seguisse a lógica de uma masculinidade pouco expressiva. “Mal-humorado?”, pergunta a psicóloga. “Acho que sim.” “Ele se irrita com frequência?”
“Ele nunca me bateu”, esclarece Jamie, e depois conta que, num outro ataque de raiva, o pai destruiu um galpão.
Jamie não gosta de esportes. Quando o pai o levava para jogar futebol aos sábados para “torná-lo mais forte” — mais uma ideia nociva de virilidade —, Jamie se sentia deslocado. “Quando eu errava, ele desviava o olhar”, conta à psicóloga. Esse gesto do pai parece tê-lo marcado profundamente.
“Levei ele pro futebol porque achei que o tornaria mais forte. Mas ele jogava mal. Sempre o colocavam no gol. Os outros pais zombavam dele”, relata o pai à esposa, na conversa do quarto episódio. Jamie buscava o olhar do pai, mas ele não o devolvia.
“Eu não conseguia olhar para o meu próprio filho”, confessa ele, entre lágrimas.
“Ele te idolatrava”, afirma a mãe. Na sala de interrogatório, no primeiro episódio, o pai também não consegue encarar o filho depois que os detetives mostram as imagens das câmeras de segurança que registram o crime cometido por Jamie. Ainda assim, mais tarde, os dois se abraçam forte, chorando.
Os criadores da série tinham, de fato, a intenção de enfrentar com criticidade os crimes com armas brancas cometidos por adolescentes no Reino Unido. “Encarar nos olhos a ira masculina contemporânea”, declarou à Vanity Fair Jack Thorne, cocriador da minissérie — e também denunciar a influência de figuras públicas como Andrew Tate, ex-kickboxer acusado de estupro e tráfico de pessoas, além de influenciador/ doutrinador da machosfera. E vale lembrar que Donald Trump é o primeiro presidente dos EUA condenado judicialmente, declarado culpado por abuso sexual.
No entanto, ao perguntar ao especialista Freddy Gonçalves sua opinião sobre a série, ele comentou que um dos aspectos a ser revisto é a constante vitimização do agressor e o fato de que todas as “vítimas” que recebem atenção na trama são homens. A figura do homem como vítima é um dos pilares da retórica incel, que tenta justificar a violência masculina como decorrente de “dor emocional”.
Retomando o caminho proposto pela psicóloga, caberia perguntar à série: o que ela pensa sobre as mulheres? Como elas são representadas? E a melhor amiga da vítima?
Houve participação de mulheres no roteiro ou na consultoria da produção? Ou melhor: como a própria psicóloga sugere, mais do que lançar perguntas diretas, talvez o ideal seja conversar com a série. “Acho que você — e todas as pessoas — são muito complexas. Perguntas diretas não são suficientes”, diz ela.
Não é uma patologia
Embora a série tenha gerado muitas conversas e apresente uma trama complexa que questiona as estruturas opressivas enfrentadas por jovens, a síntese proposta pelo título, Adolescência, me pareceu bastante infeliz. Mais uma vez, a adolescência é criminalizada, como se ser adolescente fosse o problema — e não a sociedade adultocêntrica, violenta, machista e hipersexualizada, que defende supremacias brancas desde cargos presidenciais e acoberta genocídios. Uma sociedade (na qual os pais não são os grandes culpados) que monetiza a atenção e os desejos de meninas e meninos adolescentes, por meio das redes sociais, para manter essa violência sistêmica que tanto lhe dá lucro. A série poderia enfatizar mais claramente que Jamie é produto de uma masculinidade tóxica institucionalizada (nas redes, na família, na escola) — e não de uma etapa da vida.
Talvez fosse mais justo chamar a série de Adultice (Adultez), mas esse não é o estilo da Netflix, que não dá um passo sem o aval do algoritmo, confirmando que o conteúdo será um sucesso. Adolescência, que já é a segunda série em inglês mais vista da história da plataforma (o primeiro lugar é Wandinha; o terceiro, Stranger Things; o quarto, Dahmer – Um Canibal Americano), combina duas das fórmulas mais consumidas pela audiência: apelar à nostalgia adulta e aos docudramas criminais.
Adolescência é uma série dirigida a quem já não é adolescente e que, de saída, vai se relacionar afetivamente com ela a partir da experiência do tempo perdido. Segundo a própria classificação da Netflix: “Recomendada para o público adulto. Inadequada para menores de 17 anos” (uma ironia que revela a moralidade etarista que pretende definir o que é ou não é adolescência, excluindo os próprios adolescentes). Em uma pesquisa rápida com cinco adolescentes do meu entorno, a resposta geral foi que sim, receberam permissão para assistir — e que acharam chata.
O fundo da série é a nostalgia. Desde os créditos de abertura (com fotos da infância dos personagens deslizando em estética de slide antigo), estabelece-se um tom inscrito na simbologia do fim da infância e da inocência. Na conversa do quarto e último episódio, os pais lembram de Jamie como “aquele menininho, meio desajeitado, balançando e desenhando monstros, tomando sorvete”. Mais tarde, na cena final, veremos o pai chorando, cobrindo, se despedindo e pedindo perdão a um ursinho de pelúcia no quarto de Jamie — que a série nos mostra mais como uma criança pequena do que como um adolescente.
E a forma: o docudrama. Lembro que, quando uma amiga me falou da série pela primeira vez, ela tinha certeza de que era baseada em uma história real, o que a impactava (e a vendia) ainda mais. Os realizadores disseram que sim, foi inspirada em casos reais, mas que não é baseada em nenhum em particular. O estilo de “tempo real” com que a narrativa é construída — um longo plano-sequência (uma única tomada, sem cortes) — reforça a imersão do espectador e o tom documental. Esse acerto técnico e estético, aliado ao virtuosismo dos atores, domina os comentários na imprensa (e nas conversas boca a boca), além dos vídeos de entrevistas com os atores que tenho visto. E o feminicídio? Fico me perguntando se todos os fogos de artifício da forma não acabam ofuscando e banalizando o conteúdo.
Quando consultei o conselho editorial jovem do meu blog sobre sua opinião geral sobre a série, várias das jovens que a assistiram (já nenhuma delas adolescente), como Janet Silva Cruz e Michelle Fonseca, disseram que estranharam o fato de o crime de Jamie não ser nomeado como feminicídio (tanto nos EUA quanto no Reino Unido, raramente se usa essa palavra), o que invisibiliza a violência de gênero. Dizer “homicídio” em vez de “feminicídio” nega a misoginia estrutural do crime. Também comentaram que Katie, a vítima, quase não é mais mencionada — algo que a própria personagem da detetive também evidencia na trama.
Pior ainda: Michelle e outro integrante do blog, Rafael Sebastián Romero, afirmaram que a série falha ao retratar Katie como perseguidora/bully, uma linha argumentativa misógina que fortalece o mito de que as mulheres “provocam” a violência — e ninguém, na série, problematiza ou desmente isso.
Katie não é representada como uma pessoa completa, mas sim estereotipada como “a agressora”, seguindo a lógica incel de que as mulheres existem apenas como gatilho para o drama masculino, o que justifica a violência feminicida e absolve parcialmente Jamie, fazendo dele uma vítima — como já apontava Freddy Gonçalves. Uma das poucas personagens que oferece um retrato mais humano de Katie é sua melhor amiga, mas ela aparece à margem, diluída no ambiente violento da escola.
A culpa mais uma vez recai sobre a adolescência, representada na série como uma calamidade. No segundo episódio, os detetives dizem frases como: “É uma loucura o que o cérebro manda você fazer quando é garoto.” “É um caos absoluto \[a escola].”
“Toda escola tem sempre o mesmo cheiro: uma mistura de vômito, couve-flor e masturbação. É nojento.”
Julgar pela adolescência
A julgar pelo TOP 4 das séries mais assistidas da história da Netflix, a própria adolescência também é tema — uma adolescência disruptiva, pois tanto Wandinha (título original Wednesday) quanto Stranger Things são protagonizadas por adolescentes “rebeldes”, “ingovernáveis”, “fora de controle”, que fazem coisas atípicas. Adolescência propõe um cruzamento com Dahmer – Um Canibal Americano, um assassino em série de adolescentes e jovens. Como fantasia e documentário se alternam nesse TOP 4 pode ser sintomático da forma como ficção e não ficção se misturam nas redes sociais, e de como a Netflix comercializa nostalgia e crime com grande eficácia.
Outra série, também da Netflix, que recomendo é Más influencias: o lado sombrio das redes na infância, de Jenna Rosher e Kief Davidson, que também aborda a ausência (ou presença tóxica) de pais e mães, os padrões impossíveis de beleza, a exposição ao assédio e a exploração dos corpos adolescentes como objeto de consumo nas redes sociais.
Adolescência: crescer em direção a algo, não carecer de algo
A palavra adolescência guarda em sua etimologia uma paradoxo revelador. Vem do latim adolescere (“crescer em direção”), composta por ad (em direção a) e olescere (crescer, nutrir-se). Em sua origem, designava simplesmente um processo de amadurecimento, sem conotações patológicas. Os romanos usavam adulescens para se referir a jovens entre 15 e 30 anos em formação social e política.
No entanto, esse conceito foi radicalmente distorcido a partir do século XVIII, quando pensadores como Jean-Jacques Rousseau e G. Stanley Hall medicalizaram a etapa, associando-a a uma “tempestade emocional”. Mais tarde, o capitalismo reduziu a adolescência a estereótipos de rebeldia e ingovernabilidade, transformando adolescentes em bodes expiatórios de falhas sistêmicas.
A ironia é notável. Enquanto a raiz alere (nutrir) falava de potencial, hoje o termo é associado a crise e perigo, como mostra esta série e outros conteúdos — e também é contaminado por uma outra palavra com origem distinta: adoecer.
Adoecer vem de adolere (“arder, queimar”), que evoluiu no castelhano para padecer. A coincidência fonética entre “adolescência” e “adoecer” provocou uma contaminação semântica, e fez com que, desde o século XVII, o crescimento juvenil fosse associado ao sofrimento ou à carência: “adoecem de maturidade”, “de juízo”, “de responsabilidade”.
Toda essa distorção — tanto na evolução do significado da palavra adolescente quanto na armadilha linguística da palavra adoecer — não é casual: responde a um sistema adultocêntrico que comercializa suas identidades ao mesmo tempo em que nega sua voz. Reivindicar a adolescência como uma etapa legítima, e não como um limbo patológico, é um ato político.
A adolescência pode ser alegria, paixão, liberdade, descoberta… com tudo que as redes sociais trazem (mas não somente com elas). O problema nunca foram os jovens, e sim a sociedade que usa “déficit” ou “falha” como sinônimos de adolescência — e os criminaliza para fugir da responsabilidade sobre as violências que ela mesma gera.
Outras adolescências e paternidades

O final da série me fez lembrar daquele livro ilustrado dos anos 1980, voltado à pedagogia parental: Agora não, Bernardo, de David McKee — em que um monstro devora um menino que havia alertado repetidamente os pais sobre a ameaça.
Adolescência examina a paternidade contemporânea, sua consciência (ou falta dela) sobre as influências insidiosas a que muitos adolescentes estão expostos no mundo digital — e as implicações devastadoras disso. E, talvez em menor grau, examina também o fracasso coletivo no qual essa paternidade está inserida: a crise da educação e as falhas do sistema de justiça.
No segundo episódio, quando os detetives visitam a escola de Jamie, a partir de uma perspectiva latino-americana, o retrato social beira o caricatural. A inépcia e a omissão dos professores, e a prepotência dos alunos, podem soar distantes do nosso contexto. No entanto, esse episódio também apresenta uma possibilidade mais luminosa, um ponto de inflexão crucial na investigação: Adam, o filho adolescente do detetive, que estuda na mesma escola e também sofre bullying, ajuda o pai e dá pistas para conectar o crime às postagens de Jamie no Instagram.
Quando Adam explica ao pai o que significa o termo incel, ele não apenas compartilha informação, mas abre um espaço de confiança. Em vez de impor autoridade, o pai escuta com abertura, reconhecendo sua ignorância e aprendendo com o filho. Esse momento de diálogo íntimo oferece um contraponto esperançoso às relações pai-filho marcadas pela desconexão emocional, como a que Jamie viveu.
Romper o ciclo das relações emocionalmente desconectadas (“acho que seria bom aceitarmos que talvez devêssemos ter feito mais”, diz a mãe de Jamie) exige que os adultos voltem a olhar nos olhos adolescentes, abandonem a posição de superioridade, cocriem espaços de escuta e participação (também nos meios digitais), envolvam-se como aprendizes junto aos adolescentes e reconheçam seu potencial transformador — como mostram tantos movimentos climáticos ou feministas liderados por jovens ativistas como Greta Thunberg ou Malala Yousafzai, que começaram na adolescência.
Em postagens recentes, tenho tratado dos cuidados mútuos — de como crianças e adolescentes cuidam entre si, sabem cuidar dos adultos ao seu redor e nos lembram de nossa responsabilidade compartilhada.
Dessa última, recupero as palavras de várias crianças e adolescentes de San Pedro Pochutla, Oaxaca, que participam do círculo de leitura de Isaac Corales.
À pergunta “De que modo você acha que a violência afeta a vida das meninas e dos meninos?”, Melannie respondeu sem hesitar: “Na vida das meninas, são os abusos — sexuais e também mentais —, e também para os meninos.” Abdí Jersaí disse que a violência “os deixa deprimidos, coloca em risco sua maneira de ser, pode torná-los um pouco agressivos e sempre tristes”. Para Milán Saíd, a violência faz com que não possam brincar livremente nem sair, que tenham medo… e que “nunca os deixarão sair porque lá fora existe um mal”. E para Odette, a violência faz com que meninas e meninos tenham medo dos adultos e não confiem neles.
Suas vozes também pedem, como a de Evangeline, que os adultos passem mais tempo com elas e eles, que os apoiem, ajudem, que não sejam grosseiros. Que deem um abraço. “Queremos viver, não sobreviver!” — protestam os jovens da do Ensino Médio da Escola Alfonso Reyes.
Tradução: Dolores Prades