A força da margem: pensar a ilustração na América Latina

Falar sobre o contexto latino-americano da ilustração, a partir da minha perspectiva, significa, inevitavelmente, falar de um lugar de tensão constante: entre força e precariedade, entre identidade e expectativas externas, entre o local e o global.

Cresci e me formei em um ambiente em que a ilustração nem sempre era compreendida como um campo autônomo, mas sim como um território híbrido, em constante diálogo com o design gráfico, a literatura, a educação e, muitas vezes, também com a própria sobrevivência. Na América Latina, ser ilustrador frequentemente significa aprender a transitar entre múltiplos papéis: autor, designer, gestor, educador, produtor. Não se trata apenas de uma prática artística; é também uma prática de resistência e invenção.

Uma das coisas que mais me interessam nesse contexto é a sua diversidade. A América Latina não é uma única voz, nem uma única estética, nem uma única narrativa. É uma rede complexa de histórias, línguas, territórios e conflitos. E essa complexidade inevitavelmente atravessa as imagens que criamos. Há uma forte presença do simbólico, do político e do íntimo na ilustração latino-americana. Nossas imagens frequentemente não buscam apenas representar, mas também questionar, reparar ou até mesmo curar.

Ao mesmo tempo, trabalhar a partir da América Latina significa enfrentar certas limitações estruturais. A indústria editorial, por exemplo, costuma ser menor, mais instável e, em muitos casos, dependente de mercados externos. Isso cria um paradoxo interessante: produzimos imagens profundamente enraizadas, mas muitas vezes destinadas a circular fora dos nossos próprios contextos. Isso nos leva a uma pergunta que carrego constantemente comigo: para quem estamos ilustrando?

Não há uma resposta única. Às vezes ilustramos para leitores locais, para nossas próprias comunidades, para nossas crianças. Em outros momentos, trabalhamos para editoras estrangeiras, adaptando-nos a certos códigos ou expectativas. E, nesse movimento, surge um espaço de negociação: quanto da nossa identidade se transforma em linguagem universal e quanto se dilui nesse processo?

No entanto, em vez de ver isso apenas como um problema, também percebo uma oportunidade. Porque é justamente nessa tensão que surgem novas linguagens visuais. A ilustração latino-americana contemporânea é profundamente marcada por interseções: entre tradição e contemporaneidade, entre o analógico e o digital, entre o popular e o acadêmico. E, dentro dessas interseções, emergem propostas muito potentes, com uma voz própria, difícil de categorizar.

No meu trabalho, sinto que há uma busca constante por me conectar com uma dimensão mais sensível da imagem. Interessa-me a ilustração como espaço de leitura, mas também de contemplação: como um lugar em que a imagem não diz tudo, mas abre perguntas, deixa espaços e convida o espectador a completar o sentido. Acredito que essa forma de trabalhar também está ligada ao meu contexto: ao fato de ter crescido em um ambiente em que as histórias são transmitidas de muitas maneiras, não apenas pelo que é explícito.

Há também algo muito forte no sentido de comunidade. Apesar das dificuldades — ou talvez justamente por causa delas —, formam-se redes muito sólidas entre ilustradores, editores e autores na América Latina. Existe uma disposição para compartilhar, colaborar e apoiar uns aos outros. E, para mim, esse é um dos aspectos mais valiosos desse contexto.

Por outro lado, nos últimos anos, a visibilidade internacional da ilustração latino-americana cresceu significativamente. Espaços como feiras, prêmios e residências permitiram que nossas imagens circulassem mais amplamente. Mas, com essa visibilidade, surge também um novo desafio: evitar ser confinado a uma ideia estereotipada do que significa “latino-americano”. Acho importante mostrar a diversidade das nossas vozes, sem reduzi-las a uma única estética ou narrativa.

Em última instância, falar sobre o contexto latino-americano da ilustração é falar de um território em movimento. Um território marcado por desigualdades, sim, mas também por uma enorme vitalidade criativa. Um lugar onde a ilustração não é apenas uma prática profissional, mas também uma forma de pensar o mundo, de narrá-lo e de imaginá-lo de diferentes maneiras.

E, a partir da minha posição, o que procuro fazer é justamente isso: criar imagens que, embora nasçam em um contexto específico, possam ressoar para além dele. Imagens que não percam suas raízes, mas que também sejam capazes de se abrir, dialogar e viajar.

Porque, no fim das contas, acredito que é isso que a ilustração faz: constrói pontes, conexões — entre linguagens, entre culturas, entre experiências. E, nesse gesto, talvez encontre, ao mesmo tempo, uma nova forma de pertencimento e de construção da alteridade.

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  • Anabella López

    Nasceu em Buenos Aires, Argentina, e vive no Brasil, onde atua como autora e ilustradora de livros ilustrados. Seus livros foram publicados em diversos países, como Argentina, Brasil, México, França, Canadá e Coreia do Sul. Recebeu importantes reconhecimentos internacionais, entre eles a Menção de Honra no Prêmio Iberoamérica Ilustra (Fundação SM), o Image of the Book Award (Rússia) e o Golden Pinwheel Award (China). Em 2026, foi vencedora da Exposição de Ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha. No Brasil, foi premiada com o Prêmio Jabuti, a Distinção Cátedra 10 (PUC-Rio) e o Prêmio FNLIJ de Melhor Livro do Ano.

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