Cresce-se passinho a passinho, mas, qualquer adulto que observe uma criança se esticar, qualquer adulto que se lembre, a infância é abandonada de um minuto para o outro. Num piscar de olhos. Em um momento, você estava no tanque de areia brincando com folhas como se fossem barcos e, no seguinte, esse mesmo tanque é profanado por um mar de perguntas. Minha sobrinha chegava todas as quartas-feiras e queria saber o que iríamos ler, enquanto retirava da estante A pior senhora do mundo [de Francisco Hinojosa, Rafael Barajas, em tradução de J. R. Penteado, publicado no Brasil pela editora SESI-SP, em 2016], sempre o mesmo livro, sempre a mesma pergunta, até que as coisas se organizaram na casa dela e ela não precisou mais ir à minha. Quando voltei a vê-la, já não se interessava nem pelos livros nem pelos personagens ferozes; suas perguntas eram muito diferentes e ela ouvia música pulando pela casa. Como eu disse, um estalo. No entanto, entre um momento e outro, aconteceu a linguagem. A princípio, minha sobrinha passava as páginas sem saber do que se tratava a história — ou talvez soubesse, porque muitas vezes ela me contou e, em sua versão animada, recriada a partir das ilustrações, A pior senhora era uma “Bucamala” que comia crianças (oh, Hansel!, oh, Gretel!, como estão presentes no imaginário infantil), mas depois veio o que as Sagradas Escrituras chamam de “a palavra”, e ela aprendeu a ler letra por letra, frase por frase e, mais tarde, a história completa.
Quero pensar que é um dos momentos mais importantes na vida de um ser humano, uma espécie de revelação, quando passam da coisa ao enunciado. Ou, dito de outro modo, ao pensamento. Que beleza!
Com isso não quero reverenciar a infância, nada mais distante. De fato, penso que a infância tem bastante daquele belo verso de Louise Glück: “O espaço sombrio que quer dizer: quando você era criança”. O espaço sombrio em que você não entende por que seus pais não foram buscá-la na escola; por que as sombras sobem pelas paredes à noite; por que existem tantas Bucamalas dispostas a estragar, talvez para sempre, aquilo que poderíamos chamar de inocência. Enfim, de todo modo, gostaria de me deter na língua infantil, essa revelação que ocorre no meio do tempero entre magia e docilidade com que meninas e meninos trabalham a língua, porque me parece que, nessa forma de se apropriar da linguagem, existe uma chave para o nosso entendimento.
No princípio, meninas e meninos não sabem que falam uma língua particular. Participam do mesmo processo de adaptação à linguagem que seus contemporâneos em outras terras, outros hemisférios: a saber, são conquistados, socializados, adaptados ao meio que os recebe graças a essa faculdade, a fala. E falam muito. O tempo todo. E são felizes, disso não há dúvida. Embora não se possa assegurar que sejam felizes pelo fato de falar, mas o são enquanto falam e brincam e se relacionam e continuam falando e conhecem as montanhas, o mar, o sol, a lua e, em todo momento, parecem felizes, porque a língua é uma força poderosa que os atrai e eles reconhecem esse poder, o de nomear. Dizer: mar, água, pedra, casa, árvore. Dar nome ao mundo que os rodeia é um jogo interminável, sem dúvida; também, a porta de entrada para um caminho longo e pedregoso que começa com um par de frases simples, como, por exemplo, “não quero” ou “não gosto”, pois nesse não querer e não gostar começam a se forjar os contornos do seu ser e assim, pouco a pouco, integram um corpus no qual aprendem, como dizia François Cheng, além de um conjunto de palavras e regras, uma maneira de sentir, perceber, raciocinar, delirar, jurar, rezar e, finalmente, de ser eles mesmos. O processo leva seu tempo, embora ao final o recordemos como um abrir e fechar de olhos. Porque durante muito tempo, a menina ou o menino terá de apreender tudo e, quando dizemos tudo, não há exagero. Louise Glück o descreve muito bem neste verso:
“Talvez a ocupação de uma criança muito pequena
seja a de observar e escutar:
nesse sentido, todo o mundo estava ocupado:
escutava o som dos pássaros aos quais dávamos de comer,
as tribos de insetos que eclodiam, os pequenos
que se arrastavam pelo parapeito, e lá em cima
a máquina de costura da minha tia fazendo
furos numa montanha de vestidos”.
Ocupados como estão, com os olhos e ouvidos bem abertos, escutam outras línguas, outros sotaques, outras formas de dizer e as integram sem preconceitos, porque, assim como acontece com sua língua materna, se abrem a segundas ou terceiras línguas. Em sua introdução ao mundo, o “outro” é tudo o que os rodeia; portanto, as questões de raça, cultura, línguas, minorias, são miudezas nas quais os adultos se enredam, nunca meninas ou meninos. Elas e eles estão por nomear: pedra, papel, água, chocolate. Durante um tempo, não leem palavras impressas e os livros são artefatos misteriosos, mas mesmo assim passam suas páginas uma após a outra e voltam a começar, do que trata a história? Uma menina, uma casa, um gato. Amarelo o vestido, vermelha a casa e preto o gato. Casa tomate, corre menina salta, sol gato pega noite. As leituras a partir das imagens reproduzem suas próprias experiências ou emoções e eles se confundem um pouco, porque a história se acelera e, de repente, não é a menina nem a casa nem o gato, são as perguntas que se elevam e os envolvem em um loop que parece interminável, como aquelas bonecas russas que se abrem, cada vez mais precisas, medulares, contundentes. Gabriela Mistral o expressou assim: “Todos os que vivem em vigília sabem que a noite é pessoa plural”. E a infância é estar desperto, ou, dito de outro modo, despertar para as coisas, para o pensamento, para as perguntas, e por isso mesmo também é pessoa plural, porque tudo acontece ao mesmo tempo que crescem, brincam, caem e aprendem.
Se sairmos em busca da nossa própria infância, vamos encontrá-la em palavras. Palavras como chaves, como objetos, como pessoas, como pores do sol na praia quando aprendemos a nadar, como a tosse da nossa mãe cada vez que chegava em casa, como o cigarro que a avó fumava na varanda. Nossa infância é composta de palavras que, às vezes, são enigmas e, outras vezes, caminhos diretos para as lembranças.
Então, vocês podem se perguntar, por que tentar conciliar a língua infantil com certo tipo de entendimento humano? Por que, se a infância, em alguns sentidos, se parece mais com O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, do que com o céu que nos foi prometido, nessas palavras, nessa língua, poderia existir uma chave? Por quê? A resposta pode parecer um tanto esotérica, mas não menos verdadeira: porque nessas palavras, com as quais capturamos a infância, onde se guarda nossa memória daqueles dias, existe um coração. Não são banais, não é indiferente uma ou outra, são essas palavras que nos conectam com aquela menina ou aquele menino, e gosto de pensar que, assim como os corações se sincronizam — algo cientificamente comprovado —, as crianças, ao erguerem o teatro de seus jogos, sincronizam respirações, corações e sangue; portanto, sentem, se emocionam e sonham juntas. Seus jogos acontecem em cada um dos jogadores. E essa abertura, essa facilidade para sentir com o outro, deveria ser nossa forma de nos relacionarmos com ou de estar no mundo. Penso que a desconexão do adulto se origina precisamente aí, na incapacidade de sentir com o outro. Caso contrário, como se explica a guerra? Como sequer podemos imaginar um grupo de adultos bombardeando um monte de crianças?
A desconexão não apenas com a infância, mas com essa capacidade de captar algo do mundo, ver e escutar, permanecer abertos não apenas à diferença, mas também a outras línguas ou paisagens, interpelá-las como se nos pertencessem, enfim, tornar-nos pessoas plurais. Estar nessa pluralidade como se estivéssemos brincando. Reconhecer que, como escreveu Steiner, “nascemos dentro de uma matriz linguística que herdamos historicamente e compartilhamos em comunidade”. Nesse sentido, ser homo sapiens, homens que sabem, nos torna iguais a todos; não existe um pensamento primordial nem um melhor que outro. Nem sequer podemos reivindicar originalidade, porque, continua Steiner: “nossos pensamentos são, em medida esmagadora, um universal humano, uma propriedade comum”. E isso, o fato de que, como humanidade, levemos pensando tantos séculos, deveria nos fazer refletir seriamente sobre essa infância que sobrevive em cada um de nós, essas meninas e meninos, voltar a esse canto antes que não reste nada para resgatar. Nada para guardar também. Antes que deixemos de sentir com os outros.
Tradução: Milena Buarque
Ilustração: Amma Finseca, para o livro Meninas, Editora Veneta, 2024