Escrevo.1O título desse artigo foi tomado emprestado de Fabian Casas, A oficina nômade.
É o recurso que nos resta, porque, como disse Susan Sontag, escrever é uma forma de ler, e os escritores somos leitores obstinados. Escrevemos apegados às nossas obsessões, àquilo que nos perturba, ao que nos entusiasma. A pulsão tem a ver com nos mesmos, inclusive é física, mas também metafísica. A mulher da Guarda2A mulher da Guarda, foi publicado na Colômbia pela editora Babel. Ganhou o prêmio New Horizon 2017 na Feira de Bolonha, assim como a editora ganhou o BOP – Bologna Prize for the Best Children’s Publishers of the Year, como melhor editora da América Latina 2016. O livro recebeu o prêmio por unanimidade pela sua alta qualidade literária e sua edição primorosa graças ao projeto de María Osório e as ilustrações de Alejandra Acosta. A edição brasileira é uma parceria entre o Selo Emília e a Editora Solisluna, 2019. não tinha idade. Não pensei em escrever uma novela juvenil ou infantil. Escrevi sentindo que removia um tumor incrustado no mais fundo de minha própria infância. E foi uma sensação alucinante comprovar que algo desse horror ia sendo posto para fora no papel. Em outras palavras, que conseguia dizer.
Mas esse ato individual é um amplificador, porque a conversa proposta no livro faz parte de uma conversa que há algum tempo estão fazendo no meu país, os filhos da ditadura. Essas crianças. Nós. E é essa meditação, sua deglutição social, o que constitui sua firmeza. As crianças que fomos obrigadas a fazer filas, a nos formar no colégio, a temer os militares, a fugir quando nos espantavam com água e gás lacrimogêneo; fomos também essas crianças abandonadas por nossos pais, não porque fossem pais ruins, mas, porque simplesmente a História (assim mesmo com maiúscula) caiu-lhes em cima como acontece cada vez que a humanidade faz uma mudança de paradigma. Como disse Ezra Pound, é difícil entender uma obra sem sua época, sem a herança que carrega e A mulher da Guarda é depositaria desse momento. E na crise se sofre, se chora, se renega.
Fomos crianças, existimos enquanto acontecia o horror, enquanto desapareciam chilenos e outros se escondiam das balas, nós estávamos ali, assistindo à surpresa, ao desejo de conhecer o mundo. Nosso mundo não era alegre. Era cinza. E nas casas, as crianças sustentavam o caos, essa feiura.
A mulher da Guarda fala de Jacinta, uma menina que poderia ter sido eu, ansiosa para que algum adulto se aproximasse e me dissesse ao ouvido: “não te preocupes, eu estou aqui”.
Escrevo. É o recurso que tenho à mão. As palavras.
Escrevi A mulher da Guarda junto com Álbum familiar, uma novela publicada por Seix Barral e que fala dessas mesmas crianças, que logo serão jovens e, mais tarde, adultos, que sobreviveram para contá-lo. Gosto muito quando Primo Levi, em seu belo livro, É isso um homem?, afirma:
“Os que sobrevivemos aos campos de concentração não somos testemunhas verdadeiras. Esta é uma ideia incomoda que gradualmente me vi obrigado a aceitar. Nos, os sobreviventes, não somos só uma minoria pequena, mas também anômala. Formamos parte daqueles que, graças a prevaricação, a habilidade ou a sorte, não chegamos ao fundo. Quem fez ou viu o rosto de Górgona, não regressou ou regressou sem palavras.”
Nós fomos crianças e agora cabe a nós contar a nossa história, e por isso digo que escrevê-la não só foi um ato físico, mas também metafísico, porque A mulher da Guarda poderia ter sido contada por qualquer criança da ditadura. Participa dessas palavras, desse abandono, dessa solidão de uma casa às escuras que precisa iluminar porque ninguém vai acender a luz ou esquentar o purê de batatas com manteiga. A menina Jacinta se vira com seus irmãos como se viraram tantas crianças no mundo: contando contos, brincando, vivendo junto ao horror a fantasia dos sonhos.

As crises não são alheias a nossa humanidade e talvez ao escrever sobre elas aspiramos a levantar a voz para dizer “nunca mais”. Cada guerra tem suas crianças. As crianças da guerra do Iraque, das guerras religiosas travadas hoje, não são diferentes das crianças chilenas da ditadura, nem nós das crianças das guerras mundiais do princípio de século XX, há algo que nos une e nós, os adultos de agora, podemos fazer alguma coisa por elas: contar suas histórias. Erguer a voz para mostrar aquilo que se cozinhava junto aos nossos sonhos, para demonstrar que em nosso silêncio de então havia medo, mas nunca apatia, porque não existe nada como a coragem das crianças, a naturalidade com que mostram que a realidade se impõe e deixou marcas.
Tradução Lurdinha Martins
Imagem: Ilustração de Alejandra Costa.
Notas
- 1O título desse artigo foi tomado emprestado de Fabian Casas, A oficina nômade. ↩︎
- 2A mulher da Guarda, foi publicado na Colômbia pela editora Babel. Ganhou o prêmio New Horizon 2017 na Feira de Bolonha, assim como a editora ganhou o BOP – Bologna Prize for the Best Children’s Publishers of the Year, como melhor editora da América Latina 2016. O livro recebeu o prêmio por unanimidade pela sua alta qualidade literária e sua edição primorosa graças ao projeto de María Osório e as ilustrações de Alejandra Acosta. A edição brasileira é uma parceria entre o Selo Emília e a Editora Solisluna, 2019. ↩︎
Respostas de 2
Já tem edição no Brasil?
Ainda não! Infelizmente.