A prosa encantada de Mário Lúcio Sousa

Um romance que tem a Literatura como personagem, Gabo como farol

O novo romance do escritor e músico cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa é, ao mesmo tempo, homenagem e ode à literatura. “O livro que me escreveu” é dedicado a Gabriel García Márquez, assim como à sua família — a esposa Mercedes e os filhos Rodrigo e Gonzalo. Além de mencionar José Saramago, o livro traz um texto de abertura de Pilar del Río.

Não é uma reverência pálida: a obra se arrisca ao colocar a própria literatura como personagem, e dar agência ao Livro do título. O resultado é uma narrativa em que “a história é escrita pelos inhistoriáveis” e em que o leitor, mais do que convidado, é chamado.

A premissa é simples e luminosa: Arcanjo, ainda adolescente, descobre uma cardiopatia grave. Decide, então, deixar a casa dos pais e buscar a imortalidade pela escrita. No início desse percurso, conhece Flor, com quem se casa. Ao lado dela, passa trinta anos escrevendo o livro de sua vida — “uma história literalmente contada com o coração”. 

Arcanjo de Deus — que depois descobriremos ser apenas um codinome — escreve e sobrevive, numa alegoria que torce o destino pelo trabalho da linguagem. Flor, mulher “de ferro e algodão”, é o esteio que sustenta não só a casa e o corpo, mas a alma do escritor. A jornada a dois não vacila; e, mesmo nas raras divergências, sobram humor e sabedoria. A vida do casal, enquanto o livro é escrito, é feita de perrengues: da fome à luz cortada, da falta de água ao aluguel do quarto da pensão, pago fiado — algo que se prolonga por mais de 300 meses.

Nenhuma dessas situações, que em contextos “normais” chamaríamos de intempéries, cessa a criatividade do escritor. Ele segue firme em seu ofício ou destino. Flor dá à luz dois filhos, Rodrigo e Gonzalo. Um dia, ele anuncia que concluiu a escrita. O casal se prepara e segue para a estação dos correios para, finalmente, enviá-lo à editora — o que também não se dá sem dificuldade.

É então que uma das muitas reviravoltas vem à tona: o livro some nos correios e não chega ao editor. Aqui, Mário Lúcio afina o humor com ternura e desloca a dor pelo riso — naquele momento de tensão em que a notícia não vem: “mais do que por raças, os humanos podiam ser classificados por graças”. O episódio dispara uma aventura administrativo-mística que aciona a União Postal Universal e percorre lugares tão longínquos quanto encantados: a aldeia portuguesa habitada por uma única pessoa, no caso, o carteiro que escrevia para si próprio e assim não perdia o emprego; as estações submersas abaixo do nível do mar; e até hipóteses lunares. Nada do livro.

O desaparecimento do manuscrito, catastrófico para quem ficou a vida inteira nesse trabalho e em seu desfecho, revela a essência da prosa de Mário Lúcio. Como lembra o ditado referido em outra passagem, “um mar nunca vem só”.

Nesse vaivém da procura, Arcanjo e Flor se aproximam do Chefe da Estação e de sua esposa. Constrói-se uma amizade solidária, que se aprofunda em gestos concretos e ambivalências típicas de relações próximas. Nessa mistura de grandeza e mesquinharia humanas, o autor reafirma algo central em sua prosa: o poder da comunidade, com suas belezas, falhas e inevitabilidades. Da miséria inicial, tudo se metamorfoseia em partilha; o que chega, chega para todos. O livro, agora mais ideia coletiva do que feito estritamente autoral, cria vínculo e comunidade.

O texto alterna momentos de humanidade com achados de linguagem e aforismos — “o cigarro está para o prazer tal como o sexo para o macho louva-a-deus”. As pequenas blasfêmias (“carajo!”) funcionam como válvula de escape. E, quando a vida pede silêncio, a saída é a leitura: “Tomámos cada um por seu lado o nosso café e refugiámo-nos na leitura, estoutro modo de fugir do mundo com o mundo nas mãos, aliás, é a melhor maneira de enfrentar o medo sem falar dele”.

Estruturalmente, o romance mantém o passo: 24 capítulos curtos, sem flashbacks. A narrativa segue adiante, como se a única direção possível para um coração “falho” fosse continuar batendo. A língua acompanha esse impulso. 

Mário Lúcio escreve em português sem se dobrar ao acordo ortográfico, deixando o crioulo atravessar frase, léxico e ritmo. Não é exibição formal: é posição estética e política. A prosa acolhe neologismos e maneirismos, equaliza tradição e invenção e afirma que há muitas formas de ler — algumas que a escola não nomeia, mas que o mundo pratica diariamente.

O enredo acumula reviravoltas. Há o capítulo “uma chuva de livros caiu sobre a Terra”, que adensa a atmosfera do maravilhoso sem romper o chão do cotidiano. O que é, afinal, “o livro certo”? O manuscrito perfeito ou aquilo que se costurou ao redor — dívidas, amizade, coragem, a casa erguida aos tropeços?

Entre uma pista e outra, o narrador ensaia pequenas teses sem didatismo. A melhor talvez seja a que devolve a autoria ao povo comum. É também por isso que a literatura é a verdadeira protagonista aqui. O “livro” do título — esse que “escreveu” o autor — tem vontade e interfere no mundo: aproxima pessoas, sustenta esperanças, reordena prioridades.

As respostas não vêm como lição, e sim como gesto: insistir, partilhar, rir quando possível. O brilho verbal do autor está na prosa que arrisca, desaguando em uma história que se reequilibra sempre que retorna ao eixo Flor–Arcanjo–amigos. É aí que a homenagem a Gabo se cumpre sem pastiche: menos pelo “real maravilhoso” e mais pela crença de que um livro pode conter muitos livros, muitos mundos, muitas vidas.

Sem revelar o desfecho, basta dizer que Mário Lúcio leva essa linha até o fim com leveza e precisão. O destino do manuscrito importa, mas importa tanto quanto o que ele ativou enquanto esteve “perdido”. O amor e a cumplicidade entre Arcanjo e Flor surpreendem até a última linha. Ainda assim, não é apenas uma história de amor, mas uma história sobre a humanidade. E, como lição dada logo de saída: “resulendo e conculivro, quer dizer que o único remédio contra o mal de ler, ou o bem de ler, é ler”.

A edição de “O livro que me escreveu” que encontramos por aqui saiu pelo selo Emília e Solisluna Design e Editora já em 2025, e traz ainda orelha escrita por Chico César. 

Imagem: Juliana Monteiro

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  • Pérola Mathias é jornalista cultural e doutora em Sociologia pela UFRJ. Edita o blog Poro Aberto e é membro do júri de música popular da APCA.

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