Aquele que colocou o universo numa casca de noz

O moço que acabou de comer duas medialunas se chamava Jorge Luis Borges; ou apenas Jorgito, para nós, tão íntimos que até entraremos em seus pensamentos e sonhos.

Durante os 87 anos da sua passagem por este e tantos mundos com que brincou como se fosse um malabarista-escafandrista cego, dizia com orgulho que tinha nascido no século “passado”, isto é, no século XIX, mais precisamente em 1899. 

E o tempo plana e voa, Jorgito! Lá se vão mais de cento e vinte anos. Já estamos no século XXI e continuamos seguindo rumo ao infinito e além. 

Para Jorgito, o tempo sempre foi o enigma fundamental da existência. O grande problema que nos cerca. 

E ele se fazia várias perguntas: Por que o tempo passa? Por que o tempo se perde? Por que o tempo voa? Por que o tempo para? Por que o tempo plana? Por que existem outras versões do passado? E outras possibilidades para o ainda inexistente futuro? 

E já que não conseguia decifrar nenhum desses enigmas, Jorgito conspirou um universo chamado Tlön. Lá, o tempo algumas vezes existia, outras vezes desaparecia como em três passes de mágica. Lá, o tempo algumas vezes passava, outras voltava atrás e começava tudo de novo. Lá, em alguns momentos, o tempo até mudava, e em outros, retornava ao ponto inicial ou pulava logo para o final. 

Confuso, não é? Muito! Porém, encantador. Assim como toda a imaginação do Jorgito. 

Mas, isso só foi possível depois do acidente. Depois de ele conseguir aprisionar os universos numa pequena casca de noz. 

Embora em alguns universos de Jorgito o tempo não exista, neste livro ele existe, sim. Por isso, para nosso alívio, podemos continuar avançando.  

Ou voltando. 

Então retornamos ao ano de 1938, na cidade de Buenos Aires. Lugar onde Jorgito nasceu, viveu grande parte da vida e se acidentou. E é por isso também que não o chamamos de Jorginho, como seria em bom português, mas sim de Jorgito, em buen castellano. 

Na época, ele já era um conhecido tradutor, poeta e ensaísta. Fazia certo sucesso com os livros que publicou: Fervor de Buenos Aires, História universal da infâmia e História da eternidade. 

Gostava, como ninguém, da magia e dos segredos dos livros e dos autores. Dos livros já escritos, dos não escritos, dos sonhados, dos infinitos e dos impossíveis de serem escritos. 

E também se encantava com os autores que viveram e escreveram, com os que viveram e não escreveram e até com os infames que nunca viveram, mas que deixaram vários escritos e histórias. Que engraçado! 

Para Jorgito, todos nós “somos versos ou palavras ou letras de um livro mágico, e esse livro sem fim é a única coisa que existe no mundo: é, melhor dizendo, o próprio mundo”! 

Desde jovem, Jorgito imaginava o seu Paraíso como uma espécie de biblioteca. Um lugar onde ele pudesse penetrar universos transversos, reversos e inversos. Visitar e se perder por labirintos vertiginosos de fatos, farsas e ficções. 

¡Bienvenidos, amigos, aos seus labirintos!

No dia do acidente que transformaria as suas imaginações, Jorgito estava mais exultante que de costume. Nem ele acreditava que tinha conseguido uma edição raríssima d’As mil e uma noites comentada por ninguém mais, ninguém menos que o próprio gênio da lâmpada! 

Uau! Imaginem as aventuras e os mistérios que o aguardavam. 

Jorgito se encantava particularmente pelo poder desse livro. Acreditava que dizer “mil noites” era o mesmo que dizer “infinitas noites” ou “inumeráveis noites”, oferecendo assim a possibilidade de imaginar toda uma eternidade. 

Mas, no caso desse livro, se dizia mil e “uma” noites! E isso passava a ideia de que, ao se alcançar o inalcançável infinito, ainda poderíamos permanecer por lá mais uma noite. Mais uma noite para ouvir as histórias de Sherazade, Aladim e tantos outros. 

Sim! Jorgito sonhava em dar um passeio pelo infinito e lá continuar sonhando por mais uma noite. 

Além disso, esse livro lhe foi proibido durante a infância. Para a sua mãe, Leonor, e o seu pai, Jorge Guilhermo Borges, havia passagens que não eram destinadas para crianças.

E justamente por isso, pelas imagens próprias e impróprias, pelos relatos reais e mágicos, pelas narrativas sólidas e insólitas e pela exuberância e segredos das histórias que Jorgito sentia um prazer especial quando abraçava e carregava esse livro.

O livro também era o seu conforto para uma saudade já infinita. Apenas há poucos meses, seu pai havia deixado este mundo.

Meus sentimentos, Jorgito. Meus sentimentos. 

De posse dessa relíquia, Jorgito não se deteve. Saiu correndo pelas escadarias de sua casa com a mesma voracidade de alguém que foge de um Minotauro – ou com a mesma voracidade com que o Minotauro persegue esse alguém largado no labirinto de Creta (coitado!).

E, além dessa ansiedade toda, Jorgito tinha um problema sério. Congênito. Ao longo da vida, sua avó e seu pai desenvolveram uma cegueira. Um apagar lento dos olhos que caminhava como uma tartaruga manca e desocupada, mas que, mesmo vagarosa, acabava por alcançar o implacável destino. 

Seu pai e sua avó ficaram cegos durante a velhice. E Jorgito já experimentava intervalos de sombras dividindo os crepúsculos do dia. Sabia que o seu envelhecer prometia formas inesperadas de escuridões.

Mas era necessário lutar contra a cegueira! 

De 1914 a 1921, Jorgito morou com seus pais na Europa. Primeiro na Suíça, onde havia uma clínica de oftalmologia que prometia parar esse irrefreável avanço da tartaruga. Depois, presos no Velho Continente por conta da eclosão da Primeira Guerra Mundial, passou uns tempos na Espanha.   

Períodos importantes na sua formação como inventor-debulhador de universos em cascas de noz.

Mas, mesmo com diversos tratamentos, aos trinta e nove anos, Jorgito já havia tido alguns lances e relances de cegueira. E justo naquele dia do acidente, além de subir pelas escadarias com impaciência e vontades mil, foi apunhalado por um lapso de escuridão. 

Então, algo lhe feriu a testa.

Jorgito escreveria sobre esse evento marcante: teria sido atingido por um morcego? Um pássaro? Um machado? Uma facada? Uma ideia? Um pensamento proibido? Ou o teria sido o infinito me apunhalando? 

A verdade é que Jorgito não sentiu dor alguma. Porém, os olhos da mãe e a mão com que limpou a testa do filho se depararam com algo estranho. O mundo não estava apenas escuro, mas manchado de um vermelho pastoso, lamacento, borbulhante e ainda quente.

A aresta de um batente recém-pintado que alguém se esqueceu de fechar tinha-lhe feito essa ferida.

Mãe e filho assustados, limparam o corte e também as lágrimas. 

Um pouco mais calmo, Jorgito conseguiu dormir. Mas, de madrugada, acordou com febre alta e altas alucinações. 

E vislumbres e assombros. 

A viagem pelos paraísos e sonhos proibidos d’As mil e uma noites agora se misturavam a outras imagens e pesadelos.

Jorgito tinha medo de espelhos e máscaras. 

Imaginava o horror que sentiria se, ao se aproximar de um espelho, ele não refletisse seu rosto. 

Pensava que atrás dos espelhos pudesse existir uma vida às avessas – um Jorgito cruel, amaldiçoado e perdido, apesar de possuir uma visão perfeita e até profética. 

Sentia pânico ao sonhar com espelhos reproduzindo infinitamente a imagem do mundo e de todos os homens e mulheres. E ainda multiplicando-os em eternos sem fim e sem começo.  

Já o pavor das máscaras estava relacionado não ao que elas escondiam, mas ao que elas revelavam: o olhar. Por mais dissimuladas que as máscaras pudessem ser, os olhos – entranhas infecháveis da alma – não podiam ser jamais escondidos. 

Nesta noite, Jorgito percorreu infinitos espelhos dentro de labirintos mascarados que jamais o refletiam.  

Oito dias duraram as primeiras dores e sonhos, porém, foi como se oito séculos se misturassem em instantes e cenários superpostos. As alucinações o levaram a outros mundos e possibilidades. 

Jorgito estava com septicemia. Perdeu a fala e entrou num estado em que não mais distinguia o sono da vigília. Chegou perto de deixar prematuramente este mundo. 

A sorte ou o acaso fez com que voltasse ao médico. Sem entender em que labirinto entrava, rasparam-lhe a cabeça, prenderam-lhe numa maca, iluminaram a sua cegueira e a sua vertigem, e auscultaram mais o seu medo do que a sua alma. 

Jorgito percebeu apenas a sombra de um homem mascarado cravando uma agulha (ou uma adaga) em seu braço.

Nesse instante, Jorgito foi operado e começou a vaguear pelas cercanias do céu e pelo emaranhado de livros, sempre margeando o Inferno-Infinito. 

E foi então que ele vislumbrou pela primeira vez o universo numa casca de noz. 

Jorgito sonhou com um Jorgito mais novo, também poeta e cego. E este, concebido em sonho, sonhou com um Jorgito um pouco mais velho, porém autor de histórias e contos fantásticos. 

Isso lhe pareceu insólito demais: até então, nunca tinha se atrevido a escrever contos fantásticos, apenas poemas, invenções e traduções literárias. Como podia sonhar com algo assim, tão inconcebível? 

A verdade é que Jorgito entrava em sonhos de outros sonhadores. E foi assim que nunca mais parou de criar.

Ao se entranhar cada vez mais nessa fantasia, percebeu alguém dormindo entre faustosas chamas sem se queimar. Aproximou-se caminhando sobre o fogo, algo que nunca havia ousado antes. 

E algo surpreendente aconteceu.

Jorgito também não era atingido pelas labaredas! Por onde pisava, as chamas, apesar de se inflamarem cada vez mais, não o queimavam – na verdade, até faziam cosquinhas. 

Foi então que conseguiu chegar próximo daquele que dormia e se espantou ao perceber que era ele mesmo que estava deitado no centro desse santuário. Um santuário repleto de ruínas. Ruínas circulares. 

E ao seu redor, Jorgito reparou, todos sonhavam.

Puxa! Que problemão. Como saber com quem estão sonhando? E quem é o verdadeiro Jorgito que está acordado? Como ter certeza de quem é o sonhador e quem é o sonhado? Quem era ele realmente, e quem era apenas um simulacro?

Jorgito não sabia qual deles – e se – permaneceu dormindo. Tampouco soube qual deles – e se – algum dia despertou no centro daquelas ruínas circulares. 

Mas ele precisava sair logo desse labirinto de chamas que já começavam a esquentar – e ele nem tinha trazido um refresco. 

De repente, de um desses sonhos, Jorgito despertou. 

Foi quando ele se viu no interior de uma biblioteca hexagonal e babélica. Julgou ser infinita pois, olhando para cima e para baixo desde o vão central, não conseguia ver o início nem o fim das escadarias. 

Será que Jorgito, que sempre vislumbrou o Paraíso como uma espécie de biblioteca infinita, tinha finalmente chegado lá? Ele – ou aquele que o sonhava agora – tinha atingido o céu? 

Com um sorriso nos olhos começou a passear pelos corredores. Depois de se sentir em casa, tirou os sapatos e tomou a liberdade de retirar um livro de pergaminho das estantes. E qual não foi sua surpresa quando, ao tentar ler esse pesado volume, notou que não compreendia nada. O livro estava numa língua inexistente, com outros sinais ortográficos e com repetições infindáveis. 

Buscou outro, e mais outro, e ainda mais um, e se assustou. Ele, amante dos livros, conhecedor de várias línguas vivas, mortas, inventadas e ainda por inventar, percebeu que não conseguia ler nenhum desses volumes. 

E não é porque estava cego! Muito pelo contrário. 

Por que será que isso acontecia? Por que, justamente no céu, ele não seria capaz de encontrar um único livro para ler? 

Ora, refletiu, se é uma biblioteca que promete o infinito, então há também todas as possibilidades combinatórias dos livros. Há um livro com todas as letras iguais. Há também um parecido, mas que apenas a última letra é diferente. E outro, com todas as letras iguais, menos as duas últimas. E há também o mesmo livro com todas as letras iguais, mas agora em outra língua. E em outra! E mais uma! E assim por diante. Eternamente.

Matutou: essa biblioteca contém todos os livros escritos e também os não escritos. E todas as esperanças. Concluiu aliviado que, apesar de existirem todos os livros nessa biblioteca, a grande maioria deles não fazia sentido algum. 

São livros babélicos! É uma biblioteca de Babel. 

Ainda em vertigem, e sem se entregar às persuasões e imposições do infinito, Jorgito continuou vasculhando. 

Encontrou, semiescondido num compartimento de uma semiprateleira, um exemplar diferente. Ao folheá-lo, notou algo assombroso: nunca conseguia passar de uma página a outra já que, entre elas, infinitas páginas germinavam. 

E algo ainda mais extraordinário ocorria: cada vez que ele tentava passar de uma página a outra, milhares delas se transformavam em grãos de areia.

Um livro de areia com infinitas e incontáveis páginas? 

Jorgito começou a sorrir e concluiu: todos os outros livros dessa biblioteca são totalmente dispensáveis. Apenas esse, que eu seguro e é infinito, pode substituir todos os outros, não é verdade? Afinal, todos os outros livros escritos e também não escritos cabem dentro deste exemplar aqui.  

Jorgito chegou até a comemorar! 

Porém, quando ia recolocar o livro na prateleira, acabou se desequilibrando por conta do peso da infinidade e caiu pelo vão central da biblioteca.

Compartilhe

Post Author

Autor

  • Jacques Fux é ficcionista, ensaísta e tradutor. Graduado em matemática e mestre em computação, tem doutorado em literatura comparada pela UFMG e pela Université de Lille 3. Foi pesquisador na Universidade de Harvard de 2012 a 2014. É autor dos romances: Antiterapias, vencedor do Prêmio São Paulo, Brochadas, Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, Meshugá, vencedor do Prêmio Manaus e Nobel; dos ensaios: Literatura e Matemática, vencedor do Prêmio Capes e finalista do APCA; Georges Perec e Ménage Literário; e dos infantis: O Enigma do Infinito, Selo Altamente Recomendável FNLIJ e finalista do Jabuti, Um labirinto labiríntico, vencedor do Prêmio Paraná Digital, As coisas de que não me lembro, sou e Mary Anning e o pum dos dinossauros. Seus livros e contos já foram publicados na Itália, México, Peru, Israel, Estados Unidos e França.

Artigos Relacionados

A mãe vai e vem? Experiências de leitura literária