Conselhos de uma lagarta para ilustradoras e ilustradores

Alice no País das Maravilhas é amplamente reconhecido como o livro em língua inglesa ilustrado pelo maior número e variedade de artistas, algo bastante apropriado para uma obra que já em sua abertura faz a seguinte pergunta: “E para que serve um livro sem imagens nem diálogos?”

Conta-se que, quando perguntaram a Winston Churchill qual havia sido o livro que mais o influenciara, ele não mencionou tratados militares ou diplomáticos, mas respondeu simplesmente: Alice in Wonderland. As excentricidades de Alice, juntamente com as ilustrações fantásticas e, ao mesmo tempo, solenes de John Tenniel, eram tão admiradas pelos surrealistas que exerceram sobre eles uma influência profunda.

Salvador Dalí criou sua própria versão ilustrada da obra, e Alice vem sendo reinterpretada em praticamente todos os estilos imagináveis desde a primeira publicação do livro, em 1865. Entre os ilustradores que se dedicaram a essa tarefa encontram-se nomes célebres como Peter Newell, Peter Blake (famoso pela capa do álbum dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band), Tove Jansson e muitos outros.

Alice no País das Maravilhas é o livro que todo ilustrador que se preze gostaria de enfrentar: uma espécie de “Hamlet” da literatura infantil para quem trabalha com imagens. Seus personagens são tão conhecidos que representam um verdadeiro desafio: como torná-los, ao mesmo tempo, reconhecíveis e inequivocamente pessoais?

Assim como acontece com uma nova interpretação de uma canção dos Beatles, o original é tão famoso e tão profundamente enraizado no imaginário cultural que o artista pode se permitir maiores liberdades e expressar de forma mais intensa sua própria sensibilidade em uma versão pessoal da obra.

A seguir, apresentamos uma seleção de diferentes versões de uma mesma cena de Alice no País das Maravilhas — “O conselho da lagarta” — realizadas por diversas ilustradoras e ilustradores.

Aqui está uma seleção de algumas versões da mesma cena de Alice no País das Maravilhas, O conselho da lagarta, interpretada por diferentes ilustradores.

Apenas três personagens — Alice, a lagarta e o cogumelo — e uma oportunidade para brincar com proporções, composição e personalidade. Talvez seja a cena que, nos anos 1960, mais alimentou especulações sobre os significados ocultos do livro e sobre uma possível experiência de Lewis Carroll com substâncias psicodélicas.

O que havia naquele narguilé que a lagarta fumava? E que tipo de cogumelo alucinógeno era exatamente aquele sobre o qual ela estava deitada e que Alice comia aos punhados?

Apesar das insinuações de Grace Slick, da banda Jefferson Airplane, é altamente improvável que houvesse algo mais forte do que tabaco no narguilé da lagarta. Embora, em seus primeiros desenhos para o livro, Carroll tenha representado a lagarta fumando algo que se parece mais com um cachimbo de ópio do que com um narguilé, ele era um conservador diácono anglicano, professor de matemática em Oxford e um tímido gago.

Além disso, sofria de enxaquecas que lhe provocavam alucinações e a sensação de que os objetos pareciam menores ou maiores do que realmente eram. Esse fenômeno é hoje conhecido como Síndrome de Alice no País das Maravilhas e pode explicar a origem de alguns dos elementos mais surreais das histórias.

John Tenniel, 1865, e Charlotte Strech-Ballot, 1949
Lewis Carroll, 1865, e Rene Bour, 1951
A.E. Jackson, 1919, e Enrico Mercatali, 1938
Frans Haacken, 1976
Yelena Brysenkova, 2015, e Arthur Rackham, 1907
Walt Disney (adaptação de Al Dempster), 1951, e Justin Todd, 1984
Harry Rountree, 1916, e Tove Jansson, 1966
Ralph Steadman, 1967
Peter Newell, 1901, e Nicole Claveloux, 1972

Alice, como personagem, é uma figura bastante enigmática. Pelo menos na primeira parte do livro, ela é uma menina a quem as coisas acontecem, mais do que alguém que as faz acontecer. Ela encarna a imagem da menina inglesa loira, delicada, um tanto insossa e elegantemente vestida.

Alice Liddell, a garota de cabelos escuros para quem Lewis Carroll contou originalmente as histórias que deram origem a Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, era precoce, teimosa e curiosa. De fato, na maioria das inúmeras edições ilustradas dos livros de Alice, ela é representada como uma menina bastante comum.

São os personagens secundários — Humpty Dumpty, Tweedledum e Tweedledee, o Chapeleiro Maluco e o Gato de Cheshire — que parecem proporcionar mais diversão aos ilustradores de Alice. O mesmo acontece com a lagarta em “O conselho da lagarta”.

A maior parte das ilustrações dessa cena mantém a mesma disposição básica dos três elementos principais: Alice, a lagarta e o cogumelo, com Alice quase sempre em pé ao lado ou na borda do cogumelo. É com a lagarta que os ilustradores tomam mais liberdades.

Alguns ilustradores se esforçam para representar uma espécie de lagarta identificável. Outros exploram a estranheza inerente desse ser — especialmente quando ampliado a proporções dignas de um Godzilla — como uma oportunidade para exibir traços mais expressivos, cores mais ousadas e dar vazão às suas próprias fantasias surreais e psicodélica

Tradução: Dolores Prades

Notas

Este artigo foi publicado no boletin A occhi aperti, uma nova contribuição do projeto Talking Pictures resultado da colaboração entre a Associaçao Cultural Hamelin e o ilustrador e designer Steven Guarnaccia, iniciada em 2018, com o objetivo de explorar e divulgar a importância e o impacto cultural dos livros “visuais” no panorama internacional contemporâneo. 

A Associação Cultural Hamelin é uma das mais influentes organizações italianas dedicadas à promoção da leitura, da literatura infantil e juvenil, dos quadrinhos e da cultura visual, atuando na formação, pesquisa, curadoria e difusão cultural desde 1996.

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Autor

  • Steven Guarnaccia é ilustrador, designer e Professor Associado de Ilustração na Parsons School of Design. Dirigiu o Programa de Ilustração da instituição entre 2004 e 2011 e foi diretor de arte da página de Opinião (Op-Ed) do The New York Times de 2001 a 2004.

    Ao longo de uma carreira de mais de quatro décadas como ilustrador reconhecido internacionalmente, trabalhou para importantes revistas e jornais, entre eles The New York Times, Abitare, Rolling Stone e Domus. Também criou murais para a Disney Cruise Lines e desenhos para a exposição dedicada ao design de mobiliário de Achille Castiglioni no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

    Guarnaccia é autor de diversos livros sobre design e cultura popular, entre eles Black and White, uma obra sobre a ausência da cor, publicada pela Chronicle Books. É também autor e ilustrador de numerosos livros infantis, incluindo os títulos inspirados no universo do design Os Três Porquinhos: um conto arquitetônico (The Three Little Pigs: an Architectural Tale) e Cinderela: um conto da moda (Cinderella: a Fashionable Tale), ambos publicados pela Abrams.

    Além disso, criou relógios para a Swatch e cartões comemorativos para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Seu trabalho recebeu prêmios da AIGA, do Art Directors Club e da Feira do Livro Infantil de Bolonha, além de ter sido apresentado em exposições individuais nos Estados Unidos e na Europa.

     

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