Desvios da palavra: o livro ilustrado pela perspectiva de quem o escreve

A infância é um bom paradigma e metáfora para começos. Talvez por isso vou correr o risco do clichê e contar que desde nova começou minha relação com Chapeuzinho Vermelho. Meus pequenos gestos de criança se assombravam não com o tenebroso lobo, mas com a boba menina, incapaz de enxergar o óbvio: claro que não era a vovozinha, e sim o lobo deitado na cama. Todo mundo via isso, como ela não? Muitas vezes, eu sequer chegava à casa da avó. Como leitora, eu parava e me perdia ali no caminho dos alfinetes, das flores, no desvio tão legítimo feito pela personagem. Por que não ir pelo caminho mais agradável, por que não seguir sem pressa, apreciando estar viva na floresta? Eu guardei essa palavra comigo. Desvio. Carrego-a até hoje, como amuleto, lembrança de buscar alternativas ao caminho usual, normal, principal. Eu parava ali, nas flores, e apreciava suas formas, a liberdade da menina sozinha na companhia das flores. O nascimento do texto, que viria a se tornar o livro Loba, aconteceu a partir da relação da menina com as flores. Uma flor vermelha. Rara. Uma flor que inclusive fala e conversa.

Percebo que começar com a minha própria infância e com Chapeuzinho Vermelho é também um desvio daquilo anunciado no título. Isso até faz sentido, afinal a escrita e seu começo acontecem muito antes do encontro com a linha e a folha. A longa cauda de histórias que um livro traz para quem escreve comprova que o objeto é só uma tentativa de pontuar o caráter inevitável do processo. O próprio livro ilustrado foi um desvio em meus antigos planos de escrita, antes feitos apenas de caracteres monocromáticos e sequenciais na folha em branco. Prova disso é que eu já tinha um conto, nos moldes tradicionais da escrita, quando quis fazer um livro ilustrado. Eu já tinha uma história de uma menina que vai buscar flores para a avó e encontra uma flor vermelha no topo da árvore, uma flor que fala da imensidão do mundo, sobre o qual, por sua vez, vem lhe contar a loba mansa e profunda, a loba mãe das histórias.

Mas isso era um texto. E eu queria fazer um livro ilustrado. Acredito ser bem comum escrever o gênero com o qual temos afinidade leitora. A forma muitas vezes precede e guia a invenção. Um poeta pensa em versos sua criação. Um romancista pensa em parágrafos e capítulos seus personagens. Eu queria pensar minha história em duplas e imagens. Quando cheguei ao acompanhamento de projetos oferecido por Daniela Gutfreund, eu até já tinha reduzido meu texto sobre a menina, a flor vermelha e a loba, atendendo ao pressuposto de concisão dos textos de livros ilustrados. Esse texto já estava dividido em seções correspondentes às possíveis duplas do livro. Mesmo assim, avançamos. Aprofundei nas camadas do livro, enquanto afirmava o silêncio como protagonista dos atos de dizer.

Desapeguei temporariamente do que já tinha construído. Mergulhei em inúmeras versões dessa história tão antiga. Em meu próprio texto, fui convidada a observar cada frase, a pensar se o que estava ali era inevitável ou poderia ser mostrado por imagens, ou então simplesmente não ser dito, para que o leitor fizesse suas próprias divagações. Empolgada, ia trocando as palavras do antigo conto por descrições de imagens em documentos do word, e me arriscava em tentativas de desenho, com meus parcos talentos, fazendo bonecas improvisadas com papel sulfite e fita micropore. Eu me aproximava de uma escrita desdobrável, multidimensional. Quando a cocriação de Paula Schiavon chegou, tudo aquilo se abriu ainda mais, com inúmeras novas camadas e caminhos de expressividade e sentido. Envolvida, mal percebi quando chegamos a um projeto com nenhuma palavra além do título, Loba.

A partir daí começou um dos períodos mais desafiadores da criação. Diante de imagens que pareciam completas, eu precisava colocar de volta palavras, outras, agora suscitadas pelas imagens. Com fitas de papeis cortados e durex, fiz inúmeras versões já direto na boneca, depois filmava e mostrava para a Paula. Nesse momento, percebi o quanto se borram as fronteiras de criação entre texto e imagem. Assim como eu tinha feito um roteiro de imagens, que Paula ilustrou e ampliou de seu jeito próprio, suas imagens também me convidavam a outros caminhos para o texto. Juntas tomávamos cada decisão. Depois de pronto, o livro seguiu seu percurso com a força da maturidade. Rapidamente conseguimos agenciamento literário, publicação por uma editora de grande porte, resenha na Folha de São Paulo, menção na Revista Crescer, entre outros reconhecimentos. Tudo foi extremamente gratificante, mas não podia negar que em meu íntimo me sentia deslocada: como reconhecer-me escritora quando o livro que consigo construir é justamente aquele em que me abstive da palavra?

Com o pensamento em busca de pertencimentos possíveis para uma pessoa que escreve livros ilustrados, lancei um olhar atento ao processo criativo de Loba e de outros livros, até encontrar quatro movimentos de escrita suscitados por esse tipo específico de linguagem:  cultivar silêncios, virar a página, visualizar imagens e criar universos.

O cultivo de silêncios se relaciona ao caráter enxuto e elíptico do texto do livro ilustrado, em que muitas ferramentas da linguagem textual não são mais necessárias, como a descrição de ambientes e de estados emocionais, o que permite criar também jogos de sentido na relação texto e imagem, exigindo do leitor uma participação mais ativa, muitas vezes até uma atitude investigativa. Mas, além dessa questão técnica, os treinos de não dizer podem se tornar um prazer dentro da prática de escrita, uma forma específica de se expressar por palavras, motivada por um gosto pelo silêncio, esse que ressoa após uma frase que não entrega tudo. Tal prazer não se restringe de forma alguma ao livro ilustrado. Busquei apoio e inspiração em diversos poetas do não dizer e seus artifícios de concisão e lapidação, tais como Alejandra Pizarnik e Abbas Kiarostami, e até mesmo prosistas e romancistas, como Toni Morrison e sua proposta de não saciar o leitor, mas deixá-lo com fome ao término de uma obra.

“Virar a página” é um gesto ligado ao ritmo. Sophie Van der Linden diz que o livro ilustrado “narra de página a página” e que sua montagem “pode se aparentar em alguns aspectos à montagem da arte cinematográfica. Se a montagem, na sétima arte, consiste no encadeamento dos planos, no livro ilustrado trata-se de organizar a sucessão das páginas duplas” (LINDEN, 2011). Pensar a dupla como unidade básica de sentido, assim como o verso é a unidade básica do poema, é uma visão a ser adotada pelo sujeito escritor, que pode já dividir o seu texto entre duplas e prever sua sequencialidade. O ritmo também está conectado aos silêncios. É um pequeno intervalo, uma respiração, entre uma cena e outra. A virada da página deixa de ser automática, inevitável, uma questão de suporte. É possível olhar individualmente a sonoridade do texto de cada dupla, e depois o ritmo do projeto como um todo. Nossa relação com as escolhas das palavras muda quando conseguimos entender essa fragmentação do texto, guiada pelas folhas que viram. E isso se fundamenta ainda mais quando pensamos no caráter oral que o encontro leitor assume na literatura infantil, por conta da mediação de leitura e da voz adulta que narra, ou da voz da criança que inventa, se ainda não tiver aprendido a decodificar a língua escrita.

“Visualizar imagens” é uma lembrança de que a narrativa contada é também vista, que a experiência leitora acontece a partir da visualidade. Dentro desse sintagma “dupla”, a pessoa que escreve pode sempre se perguntar: o que eu vejo? E suas palavras podem ser usadas para descrever o que é visto, afinal roteirizar é também uma forma de escrita. No cinema, um roteiro bem construído é repleto de detalhes, o que inclui a profundidade dos personagens e do arco narrativo, mas também o subtexto, aquilo que nem o diálogo nem o narrador pode contar, mas apenas os gestos, o cenário, a visualidade. Tais elementos de fato só vão encontrar sua forma final na presença de outros agentes, como a pessoa que ilustra, no caso de livros ilustrados, e os atores e diretores, em um projeto audiovisual. Mesmo assim, nada impede que o roteirista construa um chão seguro para todos pisarem, correrem e dançarem. Um escritor sempre cria imagens. No caso do roteiro, isso assume uma forma literal. É sobre realmente fechar os olhos, ver e descrever o que conta sua imaginação.

Praticar o último movimento de escrita, “Criar universos”, permitiu que eu experimentasse a palavra em múltiplas direções, em uma criação textual que não é compulsoriamente linear e finalizada, mas que pode se desdobrar em anotações, textos dispersos, desenhos e dobraduras do papel. Pode-se elaborar textos de apoio sobre o argumento, as simbologias, o cenário e os personagens de sua proposta, e isso também é uma prática do cinema e de muitos romancistas. Como afirma Umberto Eco: “A narrativa é, acima de tudo, uma questão cosmológica. Para narrar algo, começamos como uma espécie de demiurgo que cria um mundo- um mundo que deve ser tão preciso quanto possível, para que possamos nos movimentar nele com total confiança” (ECO, 2018). Um documento extra, para além do roteiro, que traga as premissas necessárias para que toda a equipe criativa esteja na mesma página, também é usado no meio audiovisual, onde é chamado de “bíblia”, e a mesma ideia pode ser aplicada à criação de livros ilustrados. A pessoa que escreve pode criar bonecas de livros, textos diversos, quem sabe até uma coleção, uma caixa de objetos, símbolos, uma pasta com imagens de referência, um arquivo. São muitas as possibilidades. Assim, evita-se cair no senso comum de que escrever livros infantis é fácil. Assim foge-se do espontaneísmo. Assim podemos construir livros abundantes em profundidade.

Ao longo deste estudo, fui me dando conta que essas descobertas não eram mais para acolher minha persona escritora em deslocamento, ou, preciso confessar, em certa crise existencial. Percebi que encontrar esses novos caminhos para a palavra poderia ser uma forma de enriquecer a própria produção de livros ilustrados. Um sujeito que, antes partido, deslocado, agora se vê aberto, pulsante, diante de muitas veredas criativas, pode com certeza ser mais ativo e inovador. Uma pessoa que escreve não um texto, mas um livro, que fica íntima da linguagem do livro ilustrado e suas possibilidades, que planeja desde o início a partir da forma final que será entregue à comunidade leitora com certeza tem mais chance de realizar aplicações lúdicas e inesperadas para a história que quer contar.

Mas como podemos nomear esse trabalho de escrita? Apenas a palavra “texto” dá conta desses movimentos e gestos tão amplos? Claro que as palavras têm limitações, não é possível dar contornos precisos, por exemplo, aos limites que se misturam na cocriação entre uma pessoa que escreve e outra que ilustra. Mesmo assim, alguns passos podem ser dados, no sentido de trazer à luz esse trabalho de bastidor com a escrita. Um deles seria assumir a palavra roteiro como parte intrínseca da criação de livros com imagens. Deslocar não a pessoa que escreve, mas a própria escrita. Não precisamos ir para a boca do lobo. Podemos encontrar o novo no caminho dos alfinetes, das flores e das surpresas que encontramos por lá. Se a flor e a loba ainda falassem, como no meu conto original, elas diriam: Desviem. Não se esqueçam de desviar.

Imagem de Roberto Innocenti para o livro The girl in red, escrito por Aaron Frish, editado por Creative Editions, 2012.

Referências:

BAJOUR, Cecilia. O artesanato do silêncio. Revista Emília, 2018. Disponível em: https://emilia.org.br/o-artesanato-do-silencio/

ECO, Umberto. Confissões de um jovem romancista. Rio de Janeiro: Record, 2018.

GUTFREUND, Daniela. O branco e a virada da página: o silêncio no livro-álbum. Dissertação (Mestrado em Design). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2022.

KIAROSTAMI, Abbas. Nuvens de algodão. Belo Horizonte: Ayné, 2018.

LINDEN, Sophie Van der. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac & Naify, 2011.

MALTA, Roberta; SCHIAVON, Paulo. Loba. São Paulo: Pequena Zahar, 2023.

MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte e Letra, 2017.

MORRISON, Toni. Toni Morrison. In: Escritoras e a arte da escrita: entrevistas do Paris Review. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.

PIZARNIK, Alejandra. Árvore de Diana. Belo Horizonte: Relicário, 2018.

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  • Roberta Malta

    Roberta Malta é escritora, pesquisadora e professora. Graduada em Letras-Literaturas, com pós-graduação em Literatura Infantojuvenil, ambas pela UFF. Mestranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC - Rio, onde pesquisa o arquivo das produções de infância da escritora Ana Cristina César, sob guarda do Instituto Moreira Salles. É autora de Senhora Incerteza (Semente Editorial), Meus velhos (Leitura e Arte), estes com o pseudônimo Padmini, e de Loba, publicado pela Pequena Zahar. Loba foi obra oficial da Flipinha 2023, recebeu os selos Cátedra Unesco de Leitura 2024, Altamente Recomendável FNLIJ 2024, Destaques Emília 2024 e foi um dos três livros brasileiros a compor o catálogo The White Ravens 2024, da International Youth Library, de Munique-Alemanha. Em 2024, lecionou, junto a Anna Luiza Guimarães, com orientação de Rosana Kohl, na disciplina Texto Infanto-juvenil, da graduação PUC -Rio. Dá aulas e coordena cursos de literatura infantil, escrita e processos criativos desde 2018.

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