Reeny era a única menina negra da sua classe. Sensível, criativa, empática, expressava-se muito bem e tinha uma particularidade: todos os personagens que desenhava, fossem pessoas ou animais, exibiam o mesmo tom de pele marrom. Reeny era uma das muitas crianças que habitavam a sala da Educação Infantil da professora Vivian Gussin Paley. Aquele era o último ano de Paley como professora, e Reeny tornou-se a personagem principal do seu livro La niña del lápiz marrón.
Vivian foi professora de Educação Infantil por mais de 30 anos. Suas turmas eram repletas de crianças de várias partes do mundo, e o fio condutor de toda a diversidade cultural que habitava aquele cotidiano sempre foi a literatura, as narrativas, as crianças como intérpretes de suas próprias histórias. Vivian era também pesquisadora: no dia a dia com seus grupos, costumava registrar as falas, os gestos e as narrativas criadas por suas crianças. Foi a partir desses exercícios de escuta e observação que Paley tornou-se também autora, compartilhando, em mais de uma dezena de livros, a riqueza de uma educação infantil permeada por um currículo narrativo.
Reeny intrigou Paley desde o primeiro momento – não só pela insistência no lápis marrom, mesmo quando desenhava crianças loiras ou ruivas da classe, mas também pelo encontro da menina com um certo personagem: Frederico, o rato, também marrom, da obra de Leo Lionni. A menina identificou-se tanto com o ratinho que contagiou todos os colegas, que leram e releram a obra, a interpretaram, desenharam os ratos, fizeram um mural… Ao ser questionada pela professora sobre o motivo de tamanho envolvimento, Reeny não hesitou: “É porque ele é da mesma cor que eu!”
Mas o que parecia apenas identificação foi ganhando outros contornos. As crianças entraram em debates: uns diziam que Frederico era preguiçoso por não ajudar os outros ratos no trabalho, outros achavam que ele era mau por se preocupar em guardar palavras e raios de sol enquanto o restante do grupo se ocupava com o bem comum. Reeny, porém, defendia o personagem com fortes argumentos: “Ele não é mau, ele só precisa estar tranquilo para pensar.”
O que esse episódio também revela, e talvez Paley tenha sentido isso na pele, é que nem sempre a leitura, na escola, é acolhida como travessia. Muitas vezes, ela é empurrada para o campo da moral, como se o livro devesse ensinar alguma coisa, corrigir posturas ou deixar lições. No caso de Frederico, o rato que estoca palavras e não alimentos, a maioria das crianças o julga. Reeny, ao contrário, escuta outra camada da história, para ela, pensar também é uma forma de cuidar. E, desse modo, as palavras que Frederico guardava eram, no fim, um abrigo contra o inverno mais profundo: o do silêncio.
O que Paley apresenta nessa obra é mais do que um relato do cotidiano da educação infantil. Ela apresenta um grupo de crianças fazendo da literatura matéria viva, transpondo o imagético para o centro da sala de aula, fazendo pesquisa através de uma relação genuína de afeto e compreendendo que, ali, entre aquelas crianças, pensamento é escuta, é observação, narração, apropriação. Mais do que isso: ali, para aqueles pequeninos, pensar é também cor da pele.
E aí talvez seja preciso perguntar: o que se espera de uma leitura literária? Que ela ensine o certo ou que ela amplie os modos possíveis de existir?
Na infância, o poético não é ornamento, é estrutura. É o modo como a criança aprende a habitar o mundo, a perguntar com o corpo, a traduzir o vivido com palavras que ainda não existem nos dicionários. É brincando que ela cria linguagem, e é pela fabulação que transforma a experiência em algo narrável, partilhável. A ficção, nesse gesto, não foge da realidade: ela a densifica, a colore, a dobra. É por isso que os guarda-chuvas viram escudos, que ratos guardam palavras, que pássaros preferem os amigos às asas. A imaginação, na infância, é um modo legítimo de compreender o mundo.
Ao nascer, tornamo-nos presença entre outras. E é pela linguagem que começamos a tocar o mundo, mesmo sem compreendê-lo inteiro. Mas nem tudo o que vivemos cabe nas palavras. Algumas experiências nos atravessam de um jeito tão bruto ou tão belo, que só nos deixam com o silêncio. E é aí que entra a arte, é aí que entra a literatura. Não para explicar, mas para acompanhar o que ainda não tem nome, para dar corpo ao que é estranhamento, para transformar o vivido em gesto partilhado.
Após o encontro com Frederico, Vivian decide partilhar uma dificuldade sua com as crianças. Depois de muitas leituras frustradas de Tico and the Golden Wings, também de Leo Lionni, ela havia desistido de ler o livro em sala. A obra narra a história de um pássaro que não tinha asas e, quando lhe é concedido um desejo, pede um par de asas douradas. O sonho, no entanto, se transforma em decepção: ao retornar para o bando, os outros pássaros o rejeitam.
“Tu te achas melhor que nós com essas asas douradas?” Com medo de perder os amigos, Tico se desfaz das asas para ser aceito novamente.
Vivian relata o quanto era frustrante partilhar essa obra com outros grupos, pois as crianças sempre davam razão ao bando e ficavam contra Tico, o que ela considerava uma injustiça. Mas, decidida a ler toda a obra de Lionni com aquele grupo, ela retorna a Tico e algo surpreendente acontece. A maioria da turma, como esperado, se posiciona contra o pássaro de asas douradas, mas Reeny pondera com os colegas: “Ele não pensava que era melhor… Os outros é que pensavam isso.”
Reeny compreende, absolutamente, o desejo de pertencimento, de fazer parte, de estar entre os amigos. Ela mostra que entende o que é ficar à margem por ser diferente. O quanto sustentar um lápis marrom é também um modo de se colocar no mundo, de não desistir de si. Quantas crianças, como Reeny, não se reconhecem nos personagens antes de se reconhecerem nos próprios espelhos?
Escutar a leitura de uma criança é, também, um ato político. Não no sentido de ensinar a “moral da história”, mas no de sustentar a existência do outro, com sua leitura própria, sua margem de interpretação, sua liberdade de imaginar. O que Reeny diz sobre Tico ou Frederico é muito mais do que opinião: é um modo de afirmar que existem outros modos de ver, de sentir e de pertencer.
Quando se exige uma leitura correta, cortam-se as asas da escuta. Mas quando alguém se permite ser atravessado pelo que a criança percebe, mesmo que pareça simples, ou ingênuo, então algo se desloca. Porque ali não se ensina literatura, ali se constrói linguagem compartilhada. Ali, ler é um gesto de cuidado.
No meu cotidiano na escola das infâncias, eu nunca cruzei com meninas com lápis marrom. Mas havia uma menina bailarina que passava os dias brincando sozinha. Criava diálogos com brinquedos, cozinhava com folhas e barro. Em muitos momentos, brincava de bruxa, escondida embaixo da mesa do refeitório. Chamava a mesa de esconderijo, ainda que a bruxa fosse sempre bem-vinda.
Nos dias de sol, ela se acomodava embaixo de uma árvore ou passava horas no balanço que a levava por lugares absolutamente distantes. Quando chovia, corria para procurar um lápis e ele prontamente se transformava em um guarda-chuva mágico, que a protegia tanto da água quanto do vento.
Em estado poético constante, sempre disposta às fabulações, a pequenina encontrava poucos pares dispostos a ficcionarem com ela. Para a maioria das crianças, o imagético não podia habitar tantos momentos do cotidiano: havia hora certa para o faz-de-conta. Quando o guarda-chuva mágico era tomado por suas mãos e se abria em imagem, era comum que as outras crianças ficassem intrigadas, sem entenderem muito bem o sentido daquele gesto.
Às vezes, o que vemos como apatia é só uma forma de desistência. Uma recusa silenciosa diante de um mundo que já parece ter todas as respostas prontas. Como se já não houvesse mais espaço para o espanto, para o gesto gratuito, para o que escapa do previsto.
Georges Jean nos lembra que é preciso pensar numa pedagogia da palavra, uma que não busque ensinar a dizer, mas criar condições para que as crianças conquistem, por si mesmas, essa dupla aventura que constrói o espaço e o tempo imaginário. Quando Reeny escuta Frederico ou defende Tico, está exatamente nesse lugar: ela não está interpretando um texto, está criando sentido a partir dele. Está, como diz Jean, atravessando essa aventura. Não de decorar o mundo, mas de redesenhá-lo com palavras próprias.
E quando Jean afirma que a criança que ouve, lê ou diz um poema não é, “graças a Deus”, um poeta, ele nos lembra que não se trata de formar escritores, mas de manter abertas as portas da imaginação. De garantir que essas portas não se fechem antes da hora, com avaliações precipitadas, com leituras obrigatórias, com interpretações que eliminam a dúvida e o devaneio.

Talvez por isso a leitura nas infâncias seja, antes de tudo, um gesto de confiança: confiar que, mesmo em leituras tortas, nos silêncios e nas invenções, existe pensamento, existe voz. Existe autoria.
Mas confiar na imaginação não é algo simples, sobretudo quando se trata da imaginação de uma criança. Há sempre o risco de que o improviso vire desvio, de que o inesperado desestabilize o plano. Como nos lembra Maxine Greene, é preciso libertar a imaginação não como fuga, mas como forma de expandir a consciência, de enxergar o que ainda não existe, mas poderia ser. É preciso coragem de pensar. Um gesto frágil, exposto, mas profundamente político. Porque pensar não é repetir o aprendido, é arriscar um olhar que talvez não caiba nas rubricas, nos relatórios, nas competências esperadas. E é nesse ponto que Nancy Huston nos oferece uma imagem luminosa: “Para dispor de um ego, é preciso aprender a fabular. Depois, comodamente, esquecemos disso,mas foi preciso tempo e muita ajuda para nos tornarmos alguém.”
Somos feitos de histórias, de vozes que nos atravessaram. E é estranho, ou talvez simbólico, que justamente no espaço que deveria nutrir essas vozes, a educação, a fabulação seja frequentemente podada. Em nome da adequação, da expectativa, da norma, cortam-se os gestos improváveis. No lugar do ficcional, instala-se o funcional. No lugar da escuta, a resposta certa. No lugar do guarda-chuva mágico, um lápis como instrumento de preenchimento.
Vivian compartilha uma última história, que lhe foi contada por uma professora: havia um pássaro – outro pássaro – que vivia com sua mãe. Um dia, ele deparou-se com algo absolutamente inusitado. Uma árvore como nunca tinha visto. Suas folhas reluziam. Ela inteira brilhava. Extasiado, contou à mãe:
“Mãe, eu vi uma árvore brilhante!””
E a mãe respondeu:
“Árvores brilhantes não existem.”
O pequeno insiste. E a mãe decide voar até a árvore com ele, para provar que ele estava enganado. Chegando lá, diante do que reluzia, a mãe lhe pede ajuda para arrancar todas as folhas que brilhavam naquela árvore.
O gesto parece pequeno, mas carrega o peso de algo maior: a tentativa de corrigir o olhar do filho. De ajustar sua visão ao que se espera. Como se dissesse: não se vê o que brilha. Vê-se o que está previsto.
Esse gesto ecoa em tantos outros que atravessam a infância: onde o devaneio é interrompido em nome do bom senso; onde a ambiguidade é corrigida em nome da lógica; onde o brilho da palavra é apagado em nome da realidade.
Contra o voo da imaginação, erguem-se exigências de ordem. Contra a beleza do que escapa, impõem-se definições. A imagem, quando não serve à explicação, é vista como desvio. E a imaginação, quando não reforça o mundo como ele é, passa a ser vigiada, como se pensar diferente fosse um risco a ser contido.
O que se espera, afinal, de uma criança que vê uma árvore brilhar? Que ela feche os olhos? Que aceite a poda? Ou que aprenda a ver como os outros veem, mesmo que isso signifique não ver mais nada que não esteja pré-fabricado?
Mas há crianças, como o pequeno pássaro. Há meninas, como Reeny. E há palavras que insistem em brilhar, mesmo quando arrancadas da árvore. Educar leitores é proteger o que brilha. Mesmo quando dizem que não existe, é não arrancar as folhas e acreditar que palavras inventadas também são abrigo.
Referências
GREENE, Maxine, Liberar la imaginación. Ensayos sobre educación, arte y cambio
social, Barcelona, Graó, 2005.
HUSTON, Nancy. A espécie fabuladora. Porto Alegre: L&PM, 2010.
JEAN, Georges. Los senderos de la imaginación infantil: los cuentos, los poemas, la realidad. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1990.
PALEY, Vivian Gussin. El trabajo de los niños: la importância del juego imaginativo. Buenos Aires: Amorrortu, 2006.
_______. El niño que queria ser un helicóptero. El empleo de la narración de historias en aula. Buenos Aires: Amorrortu, 2006._______. La niña del lápiz marrón. Buenos Aires: Amorrortu, 2006.