Forasteiros em sua própria terra

Na ocasião do lançamento de seu mais recente livro A nostalgia do vazio – A leitura como espaço de pertencimento dos adolescentes (Selo Emília/Solisluna, 2021), o escritor, roteirista e mediador de leitura venezuelano radicado na Espanha Freddy Gonçalves da Silva responde algumas perguntas sobre essa preciosa obra, que constitui uma importante contribuição para o debate sobre a leitura junto aos públicos jovens. Entrevista por Cícero Oliveira para a Revista Emília.

Cícero Oliveira Primeiramente, é um prazer imenso para nós, da Revista Emília, entrevistarmos você, sobretudo para conversar sobre este livro tão relevante e que, acreditamos, colaborará muito com a discussão social em torno da leitura em nosso país. Poderia explicar um pouco mais para nossos leitores de onde veio a ideia do livro, assim como a imagem tão bonita do título?

Freddy Gonçalves da Silva  A nostalgia do vazio é consequência de um diálogo contínuo com os jovens. Há dez anos estou em um projeto cultural pessoal: o PezLinterna, que propõe espaços de encontro com adolescentes em torno da ficção. É curioso como, nos últimos anos, ocorreram mudanças aceleradas na relação que nós, seres humanos, estabelecemos com a leitura e as formas que temos de nos comunicar. Não me refiro apenas à virtualidade como possibilidade, mas à desigualdade que esses avanços colocam em evidência. Além disso, o mundo editorial propõe um olhar diferente para o leitor jovem, da forma que tem que os representar, a partir da necessidade de transformar exercícios de identidade em tendências. O que transformou a ideia de ficção em termos de estética e forma. Nesse livro, reflito sobre o leitor nessa idade de transição entre a infância e a idade adulta, para compreender como eles se relacionam com o ato de ler, com a ficção e com a palavra, longe das convenções do mercado. Analiso a relação dos jovens com a cultura, mas também a do mediador cultural com os jovens.

Quanto ao título: A nostalgia do vazio parte da ideia da “saudade”. Esse sentimento tem vida própria. Pessoalmente, a saudade fez parte da minha essência, pois meus pais migraram de Portugal para a Venezuela quando eram adolescentes. Por isso, para mim, a adolescência é um estado de perpétua nostalgia: tanto por aquela criança que eles deixam de ser quando crescem, como pela ideia de adulto que têm de ser no futuro. Estão em trânsito, desenvolvendo-se, no meio do nada, com aquela sensação de queda livre. Some-se a essa imagem da puberdade a dúvida que existe em torno do desenvolvimento do pensamento humano no século XXI. Não é fácil crescer nesse estado de vertigem. É estar no meio do nada, mas pertencendo a um sentimento. É esse espaço tão acolhedor quanto o da saudade. Um lugar ao qual você não precisa voltar, mas anseia por seu impacto.

CO Em sua obra, você menciona diversos livros brasileiros, assim como outras produções ficcionais (como séries, filmes etc.). Como é sua relação com o Brasil e o universo editorial/cultural brasileiro? Consegue apontar algumas diferenças daquilo que é produzido aqui com relação à produção dos outros países latino-americanos?

FGS  Acredito que o Brasil oferece muitas possibilidades de análise. Atualmente, vejo, de uma perspectiva muito periférica e filtrada pelo que exportam do Brasil, que as grandes publicações e produções insistem na representação do ser social, de suas diferenças. Não só da crítica ou da luta, mas quase como uma institucionalização das desigualdades. É como observar uma consciência absoluta daquilo que eles são como sociedade e ver esse desenvolvimento das classes econômicas em paralelo: “Assim são os privilegiados e assim são os que não são”. Agora, isso também faz com que os discursos de inclusão de grupos que não fizeram parte da conversa intelectual ganhem muitíssima força e sejam tão poderosos. É admirável observar o trabalho das comunidades negras e grupos queer, por terem uma representação cada vez mais normalizada e pela defesa de sua identidade cultural. Em meio a isso, também frequentemente me deparei com a representação de mundos distópicos, não apenas na literatura ou nas séries, mas na arte. Muitas vezes relacionados ao desmatamento da Amazônia, à representação da cultura indígena. Penso também no mercado musical, a partir do qual se propõem poderosos exercícios de experimentação: Anitta, BaianaSystem ou o funk da favela… Arrisco dizer que atualmente os sons do Brasil são uma influência (ou apropriados pelas) nas grandes produções populares mundiais.

Talvez o ponto mais relevante seja o artesanato da palavra como um ofício. Explico: eles se apropriam da língua, a entendem, transformam, lutam para questioná-la, a atualizam e brincam com ela. São capazes de descrever objetos, independentemente de sua qualidade inicial: pode ser um skate na rua ou uma garrafa da infância. Há uma consciência do que eles são culturalmente, e eles continuam lutando para defender essa identidade.

CO  Seu percurso é bastante plural: de aluno de Letras a roteirista de novelas e séries de TV, de mediador de leitura a escritor. Quais “ficções” você considera cruciais em sua história, e de que modo elas contribuíram em seu percurso como alguém que pensa a leitura hoje, e a leitura para jovens, sobretudo?

FGS  Você não vai acreditar, mas minha primeira abordagem real da ficção, em qualquer de suas manifestações, a devo às novelas brasileiras que assistia com meus pais tanto na infância quanto na adolescência: Tieta, Cambalacho, Pantanal, O Clone, Xica da Silva, Por amor, entre outras (e sem censura). Muitas dessas obras despertaram o meu interesse pelo meio audiovisual. Na Venezuela, elas propuseram debates morais muito complexos em nível humano, em diferentes níveis da população, e isso gerava conversas importantes no âmbito social. Por outro lado, devo minha formação como leitor à biblioteca do bairro, porque meus pais não eram leitores. Meus livros fundamentais da infância são os quadrinhos: Condorito, Mafalda, Asterix e Obelix, mas também A história sem fim, de Michael Ende, O quebra-nozes, de E.T.A. Hoffmann, La tienda de muñecos, de Julio Garmendía. Depois, fui conhecendo Madame Bovary, de Gustave Flaubert; Auliya, de Verónica Murguía; Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Mas também há minhas longas partidas de videogame com meus irmãos; ou a formação musical constante e diversa entre os membros da minha família.

CO  Para falar da literatura destinada aos adolescentes hoje, em determinado momento você afirma que, em vez de julgá-los, procurou suas próprias formas de se aproximar dos livros quando era jovem. O que esse movimento lhe fez descobrir a seu respeito? O que permanece em você desse “jovem leitor” do passado?

FGS Em minha casa não existia tradição de leitura, mas sempre fui atraído pela ficção em outras variantes que o entorno me oferecia: o popular, o mainstream. Porém, a aproximação com a biblioteca do bairro, a forma como aquela bibliotecária se encarregou de nos oferecer uma diversidade de livros, tornou-se um caminho de possibilidades. Tive consciência do ofício de mediador desde muito cedo. Gostava de compartilhar livros, histórias que eu mesmo escrevia, de falar sobre o que via, presentear com as músicas que ouvia. De meu “jovem leitor”, guardo ainda a curiosidade e a capacidade de me surpreender, talvez muito inocente para alguns especialistas na área da leitura, mas gosto de me expor sem preconceitos. Agora tenho consciência e habilidade para saber distinguir quando algo me prende e quando algo me afasta. Sei como catalogar criticamente minhas leituras. Mas ainda gosto da ideia de formar uma comunidade como ponto de encontro para conversas literárias.

CO  Em A nostalgia do vazio, você faz uma reflexão importante sobre a forma pouco elogiosa como muitos adultos, ao se tratarem de produções destinadas aos jovens, se referem a ela. Em vários momentos, dá a entender que muito dessa visão enviesada parte de um olhar muito centrado em si, em suas próprias experiências, e não naquilo que o outro – neste caso, os adolescentes – trazem como vivências. A que você atribui esse comportamento? Como evitá-lo?

FGS  É uma grande ironia. Por um lado, tendemos a ser muito condescendentes e, por outro, não conseguimos observar o que acontece na adolescência. Embora todos passemos por esse mesmo processo vital, os contextos e o olhar contemporâneo do mundo nos fazem condenar ou anular o que acontece. Nem todos os jovens são iguais. E os adolescentes tendem a ser condenados sob esse conceito. É difícil para o adulto enfrentá-los, porque ele observa sua própria adolescência ou de um ponto de vista idealizado ou de fuga. Para evitar isso, você tem que iniciar uma conversa honesta. Propiciar um espaço de confiança real, um lugar de apoio e encontro, e não julgar o outro pelo que ele lê, escuta, joga ou vê. Nos espaços culturais, tendemos a ver com censura toda a produção que existe dirigida aos jovens, somos incapazes de encará-la, e acho que é hora de explorar um pouco mais esse mundo, desprovidos de medo (preconceito). Desfrutar, observar, entender o que acontece com esses pactos que eles estabelecem com a ficção; e depois julgar isso a partir de seu próprio gosto, sem arbitragem, ajudar os adolescentes a adquirir a capacidade de fazer uma análise crítica, de poder defender suas leituras, de comentá-las e até de descobrir suas carências, quando as houver. E entender, juntos, o que os mantém atraídos por essa leitura. Agora, para chegar lá, é preciso negociar, oferecer a eles uma variedade de produtos, tirá-los dos enclaves das tendências comerciais, para que possam se encontrar com mais livros, séries, filmes, jogos independentes. Então, o adulto também deve se documentar, ler, assistir, jogar, aprender sobre outras possibilidades culturais, para não acabar impondo visões unilaterais do mundo. É hora de ensiná-los a questionar com confiança. É um processo mútuo de formação.

CO  A produção literária voltada para jovens hoje é, como você observa em seu livro, profundamente marcada pela presença do audiovisual. Se é verdade que não é de hoje que o cinema se alimenta da literatura para contar suas histórias, é impossível, contudo, ignorar que há na atualidade uma imensa produção de séries e filmes baseados em livros para jovens, sobretudo os de sagas, havendo casos de autores que já escrevem pensando na posterior adaptação de suas obras para o cinema. Em sua opinião, quais as consequências desse fenômeno na escrita literária e na leitura a curto e a médio prazo?

FGS  Já existe uma grande mudança na forma como os jovens leitores se aproximam dos livros. E note que estou falando dos leitores, porque os “não leitores” também têm uma forma diferente de se aproximar da ficção, as formas de se contar: fragmentária, visual, lúdica. Mas voltemos ao primeiro grupo: esse fenômeno literário que você traz construiu um padrão de escrita que se repete em vários títulos comerciais. Não há desafio literário, mas a necessidade de algo que prenda pela anedota. Os leitores ficam intrigados em reconstituir a anedota, construindo um universo alternativo a partir da palavra (como os metaversos), deixando de lado o exercício da palavra como ofício artesanal.

É natural, no início da transição da infância para a adolescência (10, 11, 12 anos), que precisemos ver a anedota como um desafio. Mas se em seguida eles se vinculam apenas a essas formas de contar, é por falta de outros discursos estéticos, e de tempo, disponibilidade, espaço e de uma comunidade para poder refletir sobre isso. Ainda mais hoje, que lhes foi oferecida uma falsa sensação de liberdade que lhes permite decidir quais produtos e ficções (livros, séries, filmes, jogos) vão consumir. Eles não conseguem ver além da anedota para entender a conceituação da história. De fato, é difícil para eles lerem textos longos sem serem oprimidos ou compreender a magnitude de uma metáfora.

Consequentemente, eles são mais exigentes com o óbvio e menos críticos com o desafio. São excessivamente pragmáticos. Isso moldou a maneira como leem e interpretam as coisas. É por isso que uma conversa equilibrada é tão importante. Não acredito nessa nova tendência de mediação de que ler com esforço e sem prazer é a solução para as novas gerações. Mas o que me alerta é a consequência que isso pode trazer com relação à nossa própria relação empática com o outro. Ou seja, se eles não forem capazes de construir referentes, de interpretar o exercício da palavra, de se apropriar dessa palavra a partir da beleza, ou de pensar em uma dúvida não respondida, tenderemos a ser seres incapazes de ver o fundo de uma ideia. Seríamos uma sociedade que só vê a forma, a aparência. Deixaríamos de ser curiosos. Apesar disso, não ousaria formular consequências a curto prazo, pois acredito que muitos fatores externos hoje, como a pandemia, continuam alterando essa dinâmica de leitura.

CO  A partir de sua longa experiência como mediador de leitura entre jovens, você diz que a ideia da “literatura juvenil como refúgio” sempre se apresenta. Todavia, afirma também ter percebido que isso vem mudando, e que há já algumas manifestações de adolescentes que afirmam ver nela um “espaço de rebelião”. Como você vê este fato e que implicações você acredita que existirão no futuro a partir disso?

FGS  Embora existam leituras que servem de refúgio e revelação, realmente gosto que eles subvertam essa ideia de refúgio. Acho que é justamente nesse ponto que nos distanciamos dos jovens. Somos nós, os adultos, que estamos nos fechando no refúgio das nossas convicções, enquanto o mundo avança e se questiona: a ciência, a tecnologia, a política, as ideias em geral. Por isso acho que é hora de ressaltar esse espaço de confronto, de rebelião, onde os jovens se mobilizam. É a verdadeira forma de criar comunidade. Que eles sejam capazes de promover um lugar de encontro onde a leitura e a cultura, nos seus diferentes níveis, dialoguem. Que eles sejam capazes de ver o outro e falar dessas preocupações que a leitura do mundo produz neles.

CO  A identidade é um dos pontos mais debatidos em âmbito social hoje, e está presente na pauta de movimentos que lutam por igualdade social, na literatura, na produção audiovisual, na música e em outras manifestações artísticas, como você bem observa. Cito: “Hoje é muito difícil, para jovens e adultos, entender que a identidade muda, mas não prescreve, por mais que o mundo vire de cabeça para baixo”. Poderia explicar melhor como percebe essa “não prescrição” das identidades em nossa sociedade?

FGS  Em matéria de identidade, nada se impõe ou se ordena. Em outras palavras, os seres humanos estão constantemente transformando sua própria identidade. Na atualidade, construímos e, o mais importante, desconstruímos o nosso olhar sobre certas ideias a partir da aprendizagem, do encontro com o outro. Ou, pelo menos, idealmente deveria acontecer assim, que fôssemos capazes de desaprender certas ideias que nos forçaram a construir identidades tóxicas e exclusivas. O mundo pode desmoronar, mas isso não impede que sejamos capazes de nos transformar humanamente.

CO  Fale-nos um pouco de seus próximos projetos.

FGS É tão estranho pensar no futuro hoje, é que estou envolvido em muitas coisas. Por ora, estou comemorando a publicação de A nostalgia do vazio no Brasil, e em breve. Agora, sou responsável por oito clubes de leitura com adolescentes em diferentes cidades da Espanha, além de cursos de formação para profissionais. Junto com a Libros para Niños, realizo um projeto de leitura com jovens na Nicarágua que me deixa muito entusiasmado; e junto com Anna Juan Cantavella e Lucas Ramada Prieto, ganhamos uma bolsa para a construção de um projeto cultural no bairro de Barceloneta, junto com a biblioteca. Também estou terminando de escrever uma minissérie na Colômbia e começarei a comemorar os dez anos do PezLinterna, que é o projeto em que envolve tudo. Mas se você me perguntar: quero tempo para escrever.

CO  Freddy, muito obrigado por sua entrevista. Esperamos poder encontrá-lo, presencialmente, dentro em breve e aqui no Brasil!

FGS Também estou ansioso para podermos nos encontrar em breve. Muito obrigado, Cícero, por esta entrevista e pela leitura tão profunda do livro. Espero que esse seja o início de um debate contínuo com os leitores brasileiros sobre os jovens, para continuar construindo portos e possibilidades.

Crédito foto: Alejandro Nafría.

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Autores

  • Promotor de leitura, roteirista, escritor e especialista em literatura infantil e juvenil. É o criador do projeto cultural e do blog Pezlinterna. Trabalhou no Banco del Libro (Venezuela), foi professor no mestrado em livros e lij da Universitat Autònoma de Barcelona e na Universidad de Zaragoza, e coordenador de marketing na Editorial sm (Colômbia). Escreveu telenovelas e é autor de livros para crianças e artigos para revistas especializadas. Em La nostalgia del vacío, publicado agora em português pelo Selo Emília/Solisluna, reflete sobre seu trabalho com os clubes de leitura juvenil nas bibliotecas municipais de Gijón. Faz parte da Rede de Apoio da Emília. Autor do livro A Nostalgia do vazio - A leitura como espaço de pertencimento dos adolescentes, Selo Emília & Editora Solisluna, SP, 2021.

  • Graduado e licenciado em Letras (Português/Francês) pela FFLCH-USP, mestre em Língua e Literatura Francesa pela mesma instituição. Membro da equipe editorial da Revista e dos Cadernos Emília e do Selo Emília.

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