Mãos na aula: lãs, fios e agulhas

Cresci aos cuidados da minha tia Susana, que, por ser quase vinte anos mais velha que minha mãe, fazia o papel de avó. Susana assistia novelas e tecia. Também assistia filmes de Cantinflas2 e assava bolos, mas o que ela fazia melhor era tecer. Lembro que eu adorava sentar ao lado dela para vê-la tricotar e foi justamente observando-a que aprendi, porque, apesar de seu carinho e paciência, ensinar lhe era tão difícil quanto é para quase todas as pessoas que bordam e tecem. Os ofícios têxteis não se aprendem estudando ou lendo, aprendem-se fazendo. Tecer é uma ação que as mãos e os braços executam sem um acompanhamento verbal; não é apenas a cabeça que aprende ou retém a memória do fazer, é o corpo inteiro que se envolve na tarefa, e talvez por isso seja impossível ensinar sem mostrar como se faz.

Quando criança, eu gostava tanto de tecer e estar rodeada de tecelãs que, aos 11 anos, durante as férias escolares de verão, minha mãe me levou a uma loja de armarinhos no Centro Comercial do Norte chamada Tecer e costurar. No meio da loja, havia uma espécie de sala onde as clientes se sentavam para tecer, tomar café e pedir conselhos à professora Nelly, uma mulher de mãos longas, veias salientes e finas, que tomava café preto e fumava sem soltar o tricô. Minha mãe me deixava lá pela manhã, me buscava na hora do almoço e me levava de volta à tarde. Passei o verão inteiro tricotando, sob o olhar surpreso das mulheres que iam à loja comprar materiais ou buscar orientação com a professora Nelly. Com a tia Susana, aprendi a fazer correntinhas e toalhinhas de crochê; com Nelly, fiz meu primeiro suéter com duas agulhas. Tricotei durante minha adolescência e continuei tricotando nos anos de faculdade. Eu tricotava em casa, porque aprendi que é lá que nós, mulheres, tricotamos — nas casas ou nas lojas de fios e lãs.

A tia Susana, como muitas das filhas mais velhas de sua geração, não terminou o ensino médio porque foi encarregada das tarefas domésticas e de cuidar dos irmãos e irmãs mais novos. Depois, continuou com a gente, seus sobrinhos e sobrinhas. O tempo que passei com a tia Susana me fez pensar, provavelmente pela primeira vez, nas limitações que nós, mulheres, historicamente enfrentamos, no que nos é exigido e no que se espera de nós nos espaços que nos foram designados. É provável que os momentos que compartilhamos tenham influenciado as decisões que tomei sobre a minha vida. É provável que com ela eu tenha tomado consciência do lugar que queria forjar para mim — de modo que sou tecelã e feminista desde os onze anos, embora tenha demorado quase trinta para entender o que isso significava.

Esse “entender” foi um processo orgânico que envolveu examinar as motivações por trás das minhas buscas acadêmicas e pessoais, bem como os movimentos que a maternidade e a criação (de duas meninas) despertaram em mim. Esse “entender”  também passou por problematizar decisões de vida que eu assumia como “naturais’, nas quais analisei, entre outras coisas, a clara desconexão entre meu “eu acadêmico” e minha vida íntima. Tomei, então, a decisão de estudar os ofícios têxteis e a relação que historicamente nós, mulheres, temos tido e continuamos tendo com esses ofícios. Fiz um esforço para me livrar de preconceitos e me lancei (com um pouco de medo) na tarefa de repensar o que a costura, o tricô e o bordado significam para mim e para as muitas mulheres com quem compartilho esse interesse.

Nestes treze anos que trabalho como professora, nunca havia considerado que poderia dar aula e pesquisar sobre esses temas. No entanto, quando compreendi que as razões pelas quais sentia que minha relação com o trabalho têxtil não era de interesse para o trabalho acadêmico estavam entrelaçadas com as mesmas razões pelas quais o trabalho do cuidado foi (e continua sendo) invisibilizado, senti a urgência de tirar o tricô de dentro da sala da minha casa. Comecei buscando livros e artigos que abordassem as histórias relacionadas a esses ofícios e convidei alguns colegas para nos reunirmos e discutirmos esses textos — ou seja, me lancei a investigar e trabalhar com fios, lãs e tecidos.

Minha “saída do armário”, como chamei a decisão de tirar meu interesse por esses ofícios do espaço doméstico, culminou com o desenho de um curso (A Agulha subversiva: reflexões sobre a costura, o ativismo e a construção da feminilidade3) no qual proponho analisar criticamente como as habilidades associadas aos ofícios têxteis, mais do que uma competência em si mesmas, representam o ideal de mulher. O curso pretende entrelaçar a tecelagem e os trabalhos têxteis com o pensamento feminista. Por isso, meu interesse é criar estratégias para que os estudantes levem a sério a reflexão sobre a opressão sexista. Minha meta é que eles incorporem esse aprendizado — não basta que leiam sobre esses temas e reconheçam as propostas do feminismo, mas que as vivam em seus próprios corpos, que sintam em primeira pessoa como o feminismo é um movimento que nos compromete e nos liberta a todos e todas.

Relativamente há pouco tempo, cerca de dez anos, compreendi o que a palavra “incorporar” representa. De certa forma, incorporei seu significado. Foi um momento esclarecedor em que senti que muitas das coisas que eu fazia por intuição ganharam um novo sentido, como se se revelassem diante de mim. Desde então, tenho feito um esforço consciente em minha prática docente para que os estudantes que se matriculam em meus cursos explorem os temas que tratamos em sala de aula a partir de sua própria individualidade, que permitam atravessar seus corpos. Introduzi o exercício de um caderno ou “Diário” (como me refiro a ele em sala) como uma ferramenta que me permite aprofundar a intenção de conectar as leituras e as discussões que temos na aula com as experiências de cada um e de cada uma. Às vezes os exercícios se referem diretamente às discussões mantidas em sala (com base nas leituras), outras não, mas o objetivo é sempre o mesmo: relacionar os temas trabalhados com as diferentes formas em que eles se manifestam em sua cotidianidade.

O exercício do Diário, neste curso em particular, também me serve como uma maneira de mitigar a carga negativa que a palavra feminismo pode ter para os estudantes. Começo o semestre com exercícios simples em que peço que construam a árvore genealógica das mulheres de suas famílias e incluam os nomes de outras mulheres que são significativas para eles, mesmo que não compartilhem laços de consanguinidade. Parte do exercício inclui investigar a vida de três dessas mulheres, suas histórias, sua relação com os ofícios têxteis, se tiveram acesso à educação, etc. Ao mesmo tempo, os estudantes começam a leitura de textos feministas simples (Adichie, hooks, Ahmed), desprovidos do jargão excludente que geralmente acompanha alguns textos acadêmicos sobre questões de gênero. Minha intenção, nesta primeira fase do curso, não é que conheçam as diferentes histórias do movimento feminista, nem explorar alguns dos conceitos teóricos que o feminismo propõe, mas construir uma base sobre a qual revisar as histórias das mulheres do seu entorno. Proponho esses exercícios simples porque me parece que é mais fácil identificar como a opressão sexista impactou a vida dessas mulheres antes de entrar na identificação de como nossos (seus) comportamentos reproduzem esquemas de dominação patriarcal. Promovo, então, a reflexão sobre a vida que essas mulheres puderam levar como uma estratégia que nos permite vislumbrar a liberdade e os caminhos que o feminismo possibilitou em comparação com os tempos de nossas mães e avós.

Uma vez com o panorama possível da vida de suas mães, babás, avós, tias e irmãs, começamos a revisar suas próprias experiências. Na sexta semana, por exemplo, depois de ler o livro de bell hooks, O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras4, peço a seguinte reflexão: À medida que o feminismo contemporâneo evoluiu e as mulheres perceberam que os homens não eram o único grupo em nossa sociedade que perpetuava o pensamento e a prática sexista – as mulheres também podiam ser sexistas – o sentimento anti-homem deixou de moldar a consciência do movimento; os esforços passaram a se concentrar na criação de justiça de gênero” (p. 23). Para o Diário, quero que pensem e, claro, escrevam sobre as maneiras como perceberam que vocês mesmos(as) reproduzem esse pensamento sexista.

Até aqui, os e as estudantes assumiram com seriedade o compromisso com a escrita do Diário, já se livraram do medo de serem julgados e julgadas e suas respostas costumam ser honestas. Uma estudante responde, por exemplo, que está ciente de que reproduz o pensamento sexista “quando vejo que em uma casa o homem cuida das tarefas domésticas e a mulher não, e automaticamente penso que há um abandono do cuidado da casa por parte dela. Que ela está descuidando do seu lugar no lar”. Outra estudante responde que percebe como tira proveito de sua “condição de inferioridade” quando “deixo de fazer algo porque acho que um homem deveria fazer, mas sei que também tenho capacidade para isso”. Outra estudante diz que “embora nunca tenha acreditado que a mulher devesse ficar em casa enquanto o homem trabalhava, cheguei a pensar que o casamento e a família eram o mais importante na vida de uma mulher”. Outra comenta que cresceu “pensando que as mulheres deveriam se vestir de maneira recatada, sem decotes, cuidando para não mostrar muito, porque se mostrássemos muito, isso significava que não éramos mulheres honradas”.

Diante das leituras e discussões sobre o trabalho do cuidado (que é o trabalho do cuidado da vida, atribuído culturalmente às mulheres), uma das estudantes (citada anteriormente) comenta que:

“O tema do trabalho do cuidado foi extremamente importante para mim, porque mudou a imagem que eu tinha da minha mãe. Embora sempre tenha reconhecido seus esforços para nos criar, a mim e à minha irmã, às vezes me incomodava que o lugar dela fosse ‘em casa’. Ela fazia recados, pagamentos, se certificava de que tudo estava em ordem com as propriedades das quais recebemos aluguel, mas a maior parte do tempo ela estava em casa cuidando de nós e da casa. Quando me perguntavam o que minha mãe fazia, eu tinha dificuldade em descrever, porque, no fundo, não reconhecia o trabalho dela como um verdadeiro trabalho. Agora percebo que, desde que nascemos, minha mãe nunca parou de trabalhar.”

Os universos que se depreendem desses trabalhos são íntimos, pessoais e reflexivos. Há quem opte por fazer seu diário em formato digital (em Word ou PowerPoint), ou em algum caderno com páginas em branco ou que se arriscam a produzir. Já tive estudantes que teceram capas para seus Diários, outras que bordaram pastas para colocar folhas soltas, outros que elaboraram seus próprios cadernos com papéis coloridos e, até, um estudante que se atreveu a construir um diário de madeira, porque, segundo ele, a carpintaria é o equivalente à costura para os homens.

A ideia de construir o próprio Diário se deve ao fato de que, durante o semestre, os estudantes enfrentam o desafio de aprender a bordar, tricotar e costurar. Começamos com o bordado e depois com o crochê, embora alguns optem pelo tricô, influenciados por suas avós. O YouTube e eu ensinamos os pontos básicos (as mães e avós também tendem a se envolver nesse desafio), e depois eles podem escolher a técnica que preferirem para trabalhar ao longo do semestre para elaborar o trabalho final. O que me interessa é introduzir o fazer na sala de aula como uma forma de descentralizar a prática pedagógica, não apenas porque o corpo (mãos, braços e cérebro) é inserido nesse processo de aprendizado, mas também porque esse tipo de prática é frequentemente subvalorizada, já que está associada a outros momentos da vida – a fase da pré-escola e, com sorte, o ensino fundamental – assim como a outros espaços de educação (aqueles que oferecem cursos técnicos ou tecnológicos, geralmente considerados inferiores à educação universitária).

A reflexão sobre o fazer é igualmente importante para mim, de modo que, a partir da sétima semana, faço perguntas para desenvolver no Diário, que indagam sobre as experiências que enfrentam durante esse aprendizado. Um estudante (torcedor do América) que, no início do semestre, falou sobre como eram caras as mochilas, teceu um gorro vermelho para ir ao Estádio. Quando perguntei quanto ele cobraria por esse gorro, ele disse que nunca o venderia e que agora reconsiderava sua opinião sobre o valor do trabalho artesanal. Ele acabou tecendo gorros vermelhos para seus primos e um gorro verde para seu tio, torcedor do Cali, como uma forma de expressar seu carinho (apesar de ser torcedor do time rival). Ele entendeu que sua mãe também expressava seu carinho através dos remendos que fazia em suas roupas, e mudou sua visão sobre o valor que atribuía aos trabalhos feitos à mão. Outra estudante teceu um tapete para colocar ao lado da cama e, durante a entrega final, nos contou que há muito tempo queria comprar um tapete para seu quarto e, quando propus que realizassem um projeto têxtil como exercício final, pensou em fazer o tapete. “Não achei que seria capaz de terminá-lo, mas consegui. Fiquei feliz e o que mais gosto é que fui eu que fiz. Agora, quando me levanto todas as manhãs, não coloco os pés no chão frio. Agora, levanto-me sobre um tapete quente que me lembra que sou uma mulher livre, feminista.”

Os trabalhos que recebo dos estudantes me motivam a continuar pensando no papel que o corpo desempenha no aprender. Por meio da exploração corporal-relacional que implica em aplicar ao bordado e ao tricô, e por meio de exercícios em que peço que conectem as experiências vividas no curso com sua vida íntima (Diário), busco inserir seus próprios corpos nesse processo de ensino-aprendizagem. As lãs, os fios e as agulhas são ferramentas que uso para ajudá-los a tomar consciência de suas mãos e suas vidas e para interromper as dinâmicas da aula, onde a pedagogia considera a experiência vivida como uma estratégia para que o conhecimento vá além da sala de aula.

Esse interesse em criar processos de ensino que gerem compromissos duradouros e que transcendam a sala de aula me levou a ler autoras como Patricia Hill Collins, Leila Villaverde, Stephanie Springgay, bell hooks e Tania Pérez-Bustos, que, a partir da pedagogia feminista, me ajudaram a traçar meu caminho como educadora e a reconhecer a sala de aula como o lugar de maior potencial radical na academia. (hooks) A pedagogia feminista nos lembra que o trabalho do docente é inspirar e engajar outras pessoas no aprendizado, sem deixar de reconhecer que a responsabilidade é compartilhada, e que os alunos e alunas devem se empoderar de seu próprio processo. É uma pedagogia que expande o significado de educar além da sala de aula e da transmissão de informações, promovendo que os estudantes façam conexões entre o que estudam e suas vivências pessoais, fomentando assim o pensamento próprio/ crítico/ libertador. No entanto, talvez a lição mais bonita que levo das leituras dessas mulheres é que a sala de aula é um espaço onde o prazer deve ser possível.

Tradução: Dolores Prades

Imagem: Chelsea Revelle 

  1. Texto publicado originalmente em Las profes Ellas enseñan, ellas relatan organizado por Angélica Collazos, Wendi Yolani López Duque y Óscar Ortega García, Cali, Universidad Icesi, 2019. ↩︎
  2. Cantinflas, nome artístico de Mario Moreno (1911-1993), foi um ator e comediante mexicano amplamente reconhecido como um dos maiores ícones da comédia do cinema de língua espanhola. Sua fama internacional cresceu por suas atuações no cinema e seu estilo único de humor, muitas vezes comparado a Charles Chaplin. ↩︎
  3. O curso faz parte da oferta de disciplinas optativas em Humanidades, programadas pelo Departamento de Artes e Humanidades e que, de acordo com o PEI da Universidade, deve focar no fortalecimento da competência de Pensamento Crítico com disciplinas que se diferenciem de sua formação disciplinar. “As optativas em ciências sociais, artes e humanidades têm como principal objetivo formar graduados conscientes de seu lugar no mundo, capazes de adotar, reconhecer, compreender e se enriquecer com a diversidade, a partir da tolerância e do respeito. Graduados que compreendem os legados de nossa cultura, as formas como estes moldam nossas identidades, influenciam nosso presente e melhoram ou limitam nossas possibilidades de futuro. As artes, a literatura, a filosofia, a história e as ciências sociais nos permitem viver, sentir, questionar, reconhecer-nos no outro, conhecer nosso entorno e imaginar outros mundos e realidades possíveis” (Projeto Educativo Institucional (PEI), Universidade Icesi. Contribuição da linha de formação em ciências, artes e humanidades ao projeto educativo institucional da Universidade Icesi. 2017, pág. 20). Por último, é importante mencionar que o título do curso foi inspirado no livro de Rozsika Parker The Subversive Stitch: Embroidery and the Making of the Feminine (2010), uma obra de grande relevância sobre este tema. ↩︎
  4. Edição brasileira, Rosa dos tempos, 2018. ↩︎

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  • Margarita Cuéllar Barona

    Responsável pela direção do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe, Cerlalc, uma organização intergovernamental patrocinada pela Unesco que trabalha para criar condições para o desenvolvimento de sociedades leitoras e escritoras. Durante mais de dezessete anos, trabalhou como professora e pesquisadora na Universidade Icesi de Cali, Colômbia, onde foi responsável pelo Programa de Estudos de Gênero (2018 - 2024) e pela chefia do Departamento de Artes e Humanidades (2012 - 2023). Co-criadora (2009), editora e diretora da revista cultural Papel de Colgadura, responsável pelo Seminário de Pedagogias Feministas e o Seminário Têxtil - El Costurero, um espaço de estudo, leitura e costura. Participou como pesquisadora principal em vários projetos que exploram a relação entre os têxteis, a costura, a pedagogia e a memória, com foco em métodos participativos baseados na arte e na criação têxtil colaborativa como meio de documentação. Publicou seu primeiro romance Geografia doméstica pela Editora Tusquets em 2021.

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