Minha trajetória: antes e depois de Bologna

Desde o meu reencontro com os livros e a literatura infantil depois de adulta, tive como um sonho distante conhecer a Feira do Livro de Bolonha. A feira é um dos eventos mais significativos do mundo editorial, dedicada à literatura infantil e juvenil. Ela acontece  anualmente desde 1963 e tem como principal objetivo promover o intercâmbio entre editores, escritores, ilustradores, agentes literários, pesquisadores e outros interessados. 

Durante a graduação, tive a oportunidade de fazer intercâmbio e escolhi a Itália como destino. O país tem várias referências importantes da pedagogia e da educação infantil, como Montessori e Reggio Emilia, poder conhecer o berço dessas metodologias pessoalmente seria uma grande oportunidade. Além disso, me planejei para participar da feira, em Bolonha. Depois de mais de um ano de estudo da língua italiana, preparação de visto, apartamento e outras burocracias que competem à mudança de país, fui selecionada na universidade que me candidatei, e tinha passagem marcada para Bolonha. 

2020 foi um ano que surpreendeu e suspendeu muitos sonhos. Este foi um deles. Voltei ao Brasil e deixei para trás não apenas as malas, mas tudo que havia planejado. Guardei essa mágoa por um tempo, dos sonhos que nunca mais realizaria, dos planos que ficaram na gaveta. Em 2021, já graduada, me encontrei com a Revista Emília, e, neste encontro, conheci profissionais e pessoas incríveis, que me apresentaram um outro lado da literatura que eu ainda não tinha acesso. Sou professora, mediadora de leitura, pesquisadora e leitora. Nessas funções, conhecer processos prévios ao próprio livro, ainda era novidade. 

Em 2023, o Instituto Emília foi pela primeira vez à Feira do Livro de Bolonha com um estande próprio. Editoras se reuniram e organizaram um novo formato para ocupar a feira e compartilhar seus livros. Depois do sucesso do primeiro ano, o Instituto se propôs a participar mais uma vez com um estande coletivo na Feira, e, dessa vez, eu fui convidada a estar junto. Retornar à Bolonha, e agora não apenas como entusiasta e visitante, mas como integrante da equipe (e com uma bagagem de formação mais completa), foi extraordinário. 

A feira acontece no centro de exposições da cidade, transformando-a em um epicentro cultural onde as mais recentes tendências e inovações no mundo da literatura infantil são exibidas e discutidas. O espaço é enorme: são corredores e corredores de livros nos quais você mal vê o fim. Mesmo com o mapa físico e o aplicativo que te ajuda a se encontrar, é muito fácil se perder. 

Eu já tinha visto pessoas falando sobre a qualidade dos livros não ser lá a melhor. Mas digo por experiência própria: vi muita coisa incrível, nova, diferente e de muita qualidade. Claro que também vi alguns estandes mais comerciais, com brinquedos, personagens de desenhos e até pessoas fantasiadas, mas o foco lá era promover a boa literatura, e isso é feito. 

O nosso primeiro dia de feira foi antes da feira abrir. Preparar o estande, organizar os livros, ver outros editores por ali e se ambientar, foi parte do processo. Mas depois que a feira de fato começa, tudo se engrandece. A Illustrators Wall, espaço para que ilustradores do mundo inteiro preencham e divulguem seu trabalho, começa a ganhar cor. E quanta gente! Mesmo já envolvida na área há alguns anos, me surpreendo com a quantidade de pessoas do mundo inteiro interessadas em estudar, conhecer e promover a literatura infantil. 

Trabalhando dentro do estande, conheci tantas pessoas incríveis. Profissionais que contribuem na construção do livro: que criam histórias, ilustram, escrevem, editam, projetam, vendem, leem… Conversar com esses diferentes profissionais, principalmente brasileiros, me fez ter uma nova compreensão do livro. Cada vez que um estrangeiro interessado vinha até nós, tínhamos  a oportunidade de levar um pouquinho da literatura infantil brasileira para esse mundão.

Como pesquisadora e apaixonada por literatura infantil, minha participação na Feira do Livro de Bolonha foi um momento de uma verdadeira imersão. A cada caminhada, um novo livro me atraía: seja pelo formato, cores, autores ou editoras. Além dos livros, a cada cantinho encontrávamos um espaço de encontros e mesas temáticas compostas por pesquisadores ou profissionais do livro. Caminhando para lá, ouvia Beatrice Alemagna falando sobre seu processo de criação, para cá, Bel Santos Mayer contando da experiência do projeto em São Paulo. Tudo é um grande encontro. E em mim, cresceu a vontade de contribuir ainda mais para o universo literário. Fazer parte desse encontro foi um grande privilégio. 

Sobre os livros que vi, e admito, me apaixonei, grande parte eram os livros não-ficcionais. O mercado tem se debruçado sobre esse gênero, com variados formatos, ora mais literários, ora menos, no meu ponto de vista, como uma estratégia de se inserir nas escolas, como uma possibilidade de informar sem abandonar a literatura. Quantos livros lindos! Outra grande tendência que percebi foi o significativo investimento na literatura de bebês, com diversos livros pensados para mãozinhas de 0 até 2 anos. 

Das mesas que assisti, a que foi organizada por Nati per leggere foi uma das que mais contribuiu na minha perspectiva. Intitulada 1, 2, 3, PRIMI PASSI TRA LIBRI E NUMERI ALLA CONQUISTA DEL MONDO (em português: 1, 2, 3, Primeiros Passos Entre Livros e Números à Conquista do Mundo), a mesa contou com pesquisadores e bibliotecários que apresentaram ricas possibilidades de ficção e não ficção na literatura para bebês. 

A experiência na Feira do Livro de Bolonha foi mais do que uma simples incursão em um evento internacional; foi uma experiência transformadora que reforçou meu compromisso em contribuir para esse universo. Conhecer de perto os bastidores do mundo editorial, entender as demandas do mercado e absorver a energia criativa que permeia o ambiente da feira foram aspectos fundamentais para o meu crescimento.  A troca de conhecimentos, as conexões estabelecidas e as inspirações obtidas durante o evento continuarão a reverberar em minha jornada. Comentei com todos que esbarrei na feira: “meu universo antes da feira, era da leitura, agora, também é do livro”. 

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