O fim da infância

“São importantes demais para serem mentiras. Ficções, talvez, mas mais autênticas do que a verdade”.1BARTH, John. Chimera. Nova York: Fawcett Crest, 1972, p. 61.

Existem algumas coisas com que rapidamente se acaba instalando toda a confusão da cultura: como os antropólogos bem sabem, bastam algumas regras – o que comer e o que não comer, com quem se pode dormir e com quem não se pode, o que fazer com os mortos, onde começa e termina a casa, quem fala e quem escuta, e onde – e pouco mais para ter uma cultura, esse dispositivo pensado para colocar barreiras ao tempo, para construir um muro de contenção diante da natureza. E talvez um dos elementos mais significativos em todas as culturas seja o universo de operações e ritos relacionados com a transição de um projeto de ser humano para um ser humano de pleno direito, fundamentado no próprio conceito de maioridade [mayoría de edad].

Chegar à maioridade quase sempre envolve passar por um processo de trauma físico doloroso, um trauma cuja existência é conhecida, temida e desejada durante a infância e cuja atroz realização é vista como uma porta de entrada compartilhada para a comunidade dos adultos. Tatuagens, circuncisões, escarificações, cicatrizes, cortes, queimaduras e outras mutilações diversas marcaram os seres humanos desde que o mundo é mundo, e não sem motivo: é somente por meio da marca distintiva que a cultura impõe sobre a pele – a marca tem que poder se sustentar no campo da aparência imediata, embora suponha sempre uma mudança interna, deve sempre começar como uma mudança externa – que a criança deixa de ser propriedade de sua família para fazer parte da comunidade, deixa de ser um objeto privado para ser um sujeito público.

Com essas considerações em mente, vale a pena se perguntar sobre a natureza dos ritos de passagem para a maioridade no mundo contemporâneo. Em outra época recente, esses ritos tinham a ver com algumas experiências pessoais relacionadas à classe socioeconômica: ir para a universidade, arrumar um emprego, fazer o serviço militar… Mas agora que a vida do colégio se estendeu até os 30 — e não esqueçamos que os 33 anos são uma idade crucial, que marca a entrada não só no mundo dos adultos, mas no da maturidade —, como se chega à maioridade? Qual é o critério do adulto, uma vez que deixamos para trás as marcas visíveis da comunidade, ou quando a comunidade à qual aderimos quando deixamos de ser crianças é tão tênue que não consegue nos deixar nenhuma marca?

Se o Iluminismo é, nas palavras de Kant, o abandono de uma minoridade [minoría de edad] autoculpada por parte do ser humano, ela pode ser identificada com uma lucidez com relação ao caráter fictício da ficção. Próprio da “minoridade” é, com efeito, confundir ficção com verdade (como as crianças costumam fazer) ou com falsidade (como os adolescentes costumam frequentemente fazer) e, em última instância, ignorar que a ficção é aquilo que não pode ser verdadeiro nem falso, que não é suscetível de verificação nem de falsificação.

(…) O senso comum que se atribui à condição de adulto não é um “senso de realidade”, mas, na medida em que é também um “senso de ficção”: a maioridade é que distingue entre ficção e realidade, que reconhece o valor da ficção precisamente enquanto ficção (ilustrado, dizia Kant, é aquele que não teme as sombras). E, ao contrário, menor de idade (em sentido culpado) é aquele que se deixa levar pelo preconceito de que a ficção é algo “mais verdadeiro que a verdade”, ou seja, mais autêntico que a verdade por acordo obtida no espaço público ou que o significado explícito das palavras é alcançado do mesmo modo.2PARDO, José Luis. Políticas de la intimidad. Ensayo sobre la falta de excepciones. Madrid: Escolar y Mayo, 2012, p. 61.

“Senso de ficção”, isto é: o pressuposto de que ficções não são verdades, nem mentiras. A suposição de que a ficção adquire sua utilidade, sua importância extrema e determinante, do fato de nunca ser verdade e nunca ser mentira. Apegar-se à ideia de que a literatura e suas ficções devem conter alguma verdade é continuar lendo como crianças. Decepcionar-se com o fato de que a literatura nos engana e só nos apresenta mentiras é continuar lendo como adolescentes. O segredo da maioridade é internalizar esse como se3E a importância que tem na filosofia kantiana não pode ser ignorada, embora levasse muito tempo para explicar isso aqui.em que consistem todas as ficções, é a força de vontade necessária para ler as ficções da literatura como se, já que, na realidade, não haja outra leitura possível. No fim das contas, a maioridade é reconhecer o autêntico valor do subjuntivo: ser adulto entre nós não é muito mais do que compreender em profundidade a diferença entre os modos do verbo, as potencialidades da palavra.

Como extra, ouçamos Sherazade falar com Dunyazade na Chimera, de John Barth:

A Doonyzinha me disse, como num sonho, e me beijou: “Imagine que toda essa situação fosse a trama de uma história que estivéssemos lendo, e que você, eu, Papai e o Rei fôssemos personagens fictícios. Nessa história, Sherazade encontra uma maneira de mudar a opinião do Rei sobre as mulheres e o transforma em um marido amável e gentil. Não é muito difícil imaginar essa história, né? Bem, não importa de que maneira você se depare com isso – seja um feitiço mágico, uma história mágica com a resposta dentro dela ou o que quer que seja mágico – no final, são apenas palavras na história que estamos lendo, certo? E essas palavras são compostas com as letras do nosso alfabeto: apenas algumas dezenas de rabiscos que podemos traçar com a mesma caneta. Essa é a chave, Doony! E também o tesouro, se conseguirmos pegá-lo! É como secomo se a chave do tesouro fosse o próprio tesouro!4BARTH, John. Chimera, op. cit., p. 15.

Tradução Cícero Oliveira

Notas

  • 1
    BARTH, John. Chimera. Nova York: Fawcett Crest, 1972, p. 61.
  • 2
    PARDO, José Luis. Políticas de la intimidad. Ensayo sobre la falta de excepciones. Madrid: Escolar y Mayo, 2012, p. 61.
  • 3
    E a importância que tem na filosofia kantiana não pode ser ignorada, embora levasse muito tempo para explicar isso aqui.
  • 4
    BARTH, John. Chimera, op. cit., p. 15.

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  • Miguel Angel Serna

    É diretor e editor da editora Dioptrías, músico e professor de filosofia.

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