Também em seu nome, Heba

“Um dia antes de ser assassinada, Heba1 escreveu: ‘Se morrermos, saibam que estamos satisfeitos e firmes. Digam ao mundo, em nosso nome, que somos um povo da verdade’. 2

Você bem sabe, Heba,
ninguém, jamais, poderá impedir
que contemos nossa história
e a de nossos pares
mesmo daqueles (aparentemente) distantes no tempo-espaço,
o que mais nos une
do que separa.

Não houvesse inscrições
forjadas por nossos punhos, tantas vezes dilacerados
ainda teríamos um mapa, em cicatrizes e feridas abertas, na pele e na memória
de tudo que vimos-vivemos.
Nenhuma forma de silenciamento
violências inventadas
para interditar nossas insubmissas gargantas,
nada nos faria calar!

Mas, ainda que no instante último de suas vidas interrompidas,
vocês, Heba - mulheres, crianças, mães, avós,
homens, jovens, idosos
poetas, fotógrafos , jornalistas -,
inscrevem todos os dias
seus gestos de denúncia e resistência,
legado-convocação que nos mantém em luta.
Palestina livre!

Primeiro os dias, depois as semanas, os meses
agora são décadas; mais de meio século
E vocês seguirão,
vida-ato-memória,
incorporados
às terras de onde ousam arrancar, expulsar seu povo.
(Meus ancestrais, Heba, também conheceram essa dor diaspórica)

Estaremos em movimento permanente
- sangue, fragmentos de pele, suor, dentes, saliva e sonhos -
partículas resistentes, adensando as águas dos mares-oceanos -
Atlântico Negro, Mediterrâneo.
E cada vez que falarmos em seu nome, Heba,
seus algozes
terão as entranhas revolvidas.
E o grito de vocês será também nosso e seguirá reverberando
“Liberdade, liberdade para a Palestina”!


Inútil roubar ou destruir as lentes
das câmeras que estão em suas mãos
Depois de tanto tempo
não é preciso um disparo sequer para registrar
nas retinas,
em cada centímetro de seus tecidos celulares
e nos de seus descendentes
na menina dos olhos de suas doloridas crianças
tamanha perversidade
cenas de um filme abominável.
Genocídio
assistido, em tempo quase real,
como se espetáculo fosse.

Mas homens e mulheres
meninas e meninos vão sobreviver,
e terão também em suas memórias
a força da dignidade dos seus antepassados
a indignação da luta ancestral
que mantêm sua gente
pisando essas terras
corpos frágeis-fortes
que tremulam como estandartes
a cada vil ataque
do Estado assassino.

Chorar cada ente dilacerado
Também ato de resistência.
Nenhuma de suas vidas será em vão.
Não. Não é uma ameaça.
É “uma promessa de vida”.
Palestina livre!

Ninguém poderá impedir, Heba
que a terrível história que vi(vi)
seja contada.
Em mim a boca é tão fértil
quanto o útero
para cada criança que vocês pariram, amamentaram
e viram ser esfacelada
diante dos seus olhos
uma linha será cravada na história.
E nossas cartas-denúncias não serão lançadas, em garrafas, ao mar.
Não.
Essa história será lavrada
com as unhas – as suas e as nossas – nesse chão, tão sagrado para vocês.
Mas também em livros, manifestos
que faremos chegar a muitos lugares,
e gerações.

Não, Heba,
nunca pisei em terras palestinas
meus olhos não viram a
escuridão das noites de Gaza
rasgada por mísseis e bombas,
não vi o corpo de um
ente amado-irmão ser destroçado
diante de mim.

Não vi apodrecer, em milésimos de segundos,
na palma de minhas mãos
o parco alimento que enganaria a fome
de crianças e jovens palestinos
fulminad0s, enquanto, em fila, aguardavam alguma comida.
Não estive cercada de corpos
no que restou de um hospital brutalmente atacado
Eu não estava em Khan Yunis
naquele 20 de outubro
Não testemunhei, de corpo presente, o bombardeio
sua vida interrompida aos 32 anos.

Mas aqui estou, Heba.
corpo
voz
letra.
Minha palavra
só existe agora,
nesse tempo-espaço recortado nessas páginas,
para reverberar a sua.
Você foi assassinada, Heba,
mas sua voz não será interrompida
minha palavra é a sua.
E assim cumpro seu testamento:
em seu nome, em nome de sua gente,
eu asseguro
vocês são “pessoas justas,
um povo da verdade.”
Palestina livre!
Palestina livre!
Palestina livre!

Peço licença, Heba, para invocar seus versos:
“A noite na cidade é escura,
exceto pelo brilho dos mísseis.
Silenciosa,
exceto pelo som dos bombardeios
Aterradora,
Exceto pela promessa lenitiva da oração.
Tenebrosa,
Exceto pela luz dos mártires.”

Notas;

Nota da autora: Recebo o chamado de Heba Abu Nada quase um ano após sua vida ter sido brutalmente arrancada por mais um ato genocida perpetrado pelo Estado de Israel ao povo palestino. Naquele dia 20 de outubro de 2023, segundo os governos locais, eram 5.500 as pessoas palestinas mortas desde o dia 07.10. Eram mais de 30 mil3 no dia em que concluí a escrita desse poema. Hoje são mais de 42 mil4. Ontem, 26.09, pelo menos mais 11 pessoas foram mortas em um ataque a uma escola que abrigava milhares de pessoas, entre elas mulheres e crianças. Heba fez da escrita, da prosa e da poesia, estratégias de luta, de sobrevivência e de resistência.

Em honra à sua memória e à de sua gente, esse minúsculo gesto de indignação e de solidariedade.

Nota dos editores: Não costumamos publicar textos literários na Revista. Porém frente à barbárie contemporânea, este poema nos dá voz e representa, com toda sua humanidade e beleza, contra um dos genocídios mais brutais da atualidade. Um respiro que só a arte, a literatura, a poesia é capaz de nos dar.

  1. Heda Abu Nada foi prosadora, poeta. Nasceu em La Meca, Arábia Saudita, em 24.06.1991. Filha de palestinos refugiados que foram expulsos de Bayt  Jirja, em 1948 durante a Nakba;   “tinha 32 anos, era formada em bioquímica e tinha mestrado em nutrição clínica. Seu romance de estreia, “Oxigênio não é para os mortos”, ficou em segundo lugar no Sharjah Award for Arab Creativity em 2017.” ( https://www.instagram.com/p/Cyq__2IPB0i/) ↩︎
  2.  (https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/bombardeio-de-israel-mata-a-prosadora-e-poeta-palestina-heba-abu-nada-542851/) ↩︎
  3. O número de vítimas fatais ultrapassou 32 mil palestinos — cerca de 70% delas mulheres e crianças —, com mais de 8 mil pessoas desaparecidas debaixo dos escombros. Foram destruídos 35% dos prédios e praticamente todos os mais de dois milhões de habitantes foram forçados a deixar suas casas. ↩︎
  4. https://www.brasildefato.com.br/2024/09/25/brics-deve-liderar-reconstrucao-de-gaza-junto-com-palestinos-diz-presidente-da-federacao-palestina-do-brasil
      ↩︎

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Autor

  • Neide Almeida, poeta, escritora, educadora. Socióloga, Mestra em Linguística, Especialista em Gestão Cultural Contemporânea. Pela Fio.de.Contas, consultora nas áreas de educação, cultura, leitura e literatura, com ênfase em literaturas negras. Autora dos livros De cabeça feita (2024), Editora Quelônio; Nós: 20 poemas e uma Oferenda (2018), Ciclo Contínuo Editorial e da zine Nambuê, MóriZines(2017)

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