Universidade, biblioteca comunitária e escola pública

Parceria para aprender e ensinar a diversidade por meio da leitura literária

Imagine juntar uma biblioteca comunitária e a mais prestigiada universidade pública do Brasil para unir forças e saberes com vistas a criar metodologias e práticas de formação de professoras(es) e educadoras(es) sociais para o incentivo a projetos de leitura literária com foco em diversidade humana em escolas públicas?

Esse foi o objetivo da fase 1 do projeto “Aprender e ensinar a diversidade por meio da leitura literária como força transformadora da comunidade”, aprovado pelo edital do programa “Aprender na Comunidade”, da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo (USP), realizado de março de 2019 a outubro de 2020, por meio de uma parceria entre a Faculdade de Educação da USP e a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura (BCCL), localizada em Parelheiros, extremo sul da capital paulista.

O projeto envolveu duas escolas estaduais vizinhas da BCCL: EE Lucas Rochel Rasquinho, que oferece anos finais do ensino fundamental e médio, e a EE Ernestino Lopes da Silva, que oferta anos iniciais do ensino fundamental. Para conhecer o projeto, equipe e as atividades desenvolvidas nas duas escolas, acesse aqui. Neste relato trataremos da experiência realizada na escola de anos iniciais, que culminou na colaboração para criação de uma sala de leitura, sonho ainda em implementação.

O início da parceria

A EE Ernestino está localizada a menos de cinco minutos de caminhada da BCCL e a quase três horas de transporte público da FEUSP. A escola já mantinha algumas ações em conjunto com a BCCL e sua equipe gestora conhecia as e os jovens que geriam a Biblioteca de longa data, quando eram estudantes da educação básica, naquela e em outras unidades escolares da região. Assim, a parceria com a BCCL foi fundamental para que nós, equipe da USP, pudéssemos estabelecer diálogo com a escola. O diálogo, aliás, foi um dos eixos centrais para a construção conjunta de um projeto democrático, capaz de engajar toda a equipe da escola.

Em nosso primeiro contato com a diretora da unidade, professora Juliana Zenha de Camargo, após apresentar o Projeto Político Pedagógico (PPP), o plano de formação e cronograma de Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPCs) para o ano de 2019, ela explicou que a demanda da escola naquele momento era por formação sobre leitura compartilhada.
De nosso lado, entendemos que seria plenamente possível personalizar a proposta original, de modo a atender o planejamento e as necessidades da escola, sem prejuízo de nosso objetivo de criar práticas de incentivo a projetos de leitura literária com foco na diversidade.

Sobre os encontros formativos

De março a novembro de 2019, realizamos seis encontros formativos presenciais na EE Ernestino, com participação de 21 docentes regentes, coordenadora pedagógica e diretora sobre temas como literatura como direito, mediação de leitura literária, processo individual de inserção no mundo da leitura, repertório do leitor e leitura compartilhada.

Optamos pelo formato oficina e utilizamos metodologias inspiradas na educação popular freiriana, estimulando o diálogo, com dinâmicas de trabalho em grupo, problematização das práticas docentes e síntese das discussões para construir um espírito de engajamento coletivo, a partir da compreensão do fato educativo como “um ato de conhecimento em que os educandos assumem o papel de sujeitos cognoscentes em diálogo com o educador, sujeito cognoscente também”. Assim, ao longo dos encontros foi possível constituir uma relação de confiança entre a equipe do projeto e a equipe da escola, por meio do compartilhamento de reflexões sobre as exposições teóricas, com intensa participação da equipe escolar pela utilização de metodologias ativas, que incentivaram o protagonismo e a colaboração prática no processo de construção do conhecimento.

Fotos: Arquivo do projeto

Em termos de conteúdos e abordagens teóricas, tratamos de questões relativas à literatura como direito humano, à leitura literária como prática sociocultural e de produção de sentido pelo sujeito leitor, capaz de promover significativas transformações no repertório cultural e vivencial de seus praticantes, mediação de leitura literária, do processo individual de inserção no mundo da leitura, formação de repertório do leitor e leitura compartilhada.

O sonho da sala de leitura

No decorrer das reuniões, a equipe da escola manifestou o antigo sonho de implementar sua sala de leitura. Entre um encontro e outro, pedimos à equipe que procurasse referências de imagens para a sala de leitura de seus sonhos e muita coisa bonita veio à tona. Foi assim que, na última oficina de 2019, realizada em 09/11/2019 de dezembro, como parte da II Esquenta Felipa (Feira Literária de Parelheiros), promovida pela BCCL, fizemos um levantamento dos desejos da equipe quanto a esse espaço: como seria, o que conteria, que tipo de atividades acolheria, como se daria a participação da comunidade do entorno e, afinal, por que uma sala de leitura? A equipe da USP sistematizou essa oficina na forma de uma primeira versão escrita de um projeto para a sala de leitura, que se encontra em revisão pela equipe da escola. Com esse projeto em mãos, partiremos juntos em busca de apoio material e financeiro para concretizar o sonho.

Em 2020, já no contexto da pandemia, realizamos um ciclo de três encontros remotos para discutir constituição de acervo, relato que será objeto de outro artigo. Em 2021, o projeto segue em sua fase 2, novamente aprovado por edital do programa Aprender na Comunidade, da Pró-Reitoria de Graduação da USP, e se expandirá para a região do Campo Limpo. Para saber mais sobre o projeto e contribuir com doações (estantes, almofadas, livros e outros materiais impressos, filmes, computadores etc.) para a sala de leitura da EE Ernestino Lopes da Silva, entre em contato por e-mail: literaturaediversidade@usp.br


Imagem: Instalação de Aixa Portero Las raíces del vuelo, 2018.


Referências bibliográficas

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Autores

  • Professora doutora na Faculdade de Educação da USP, onde atua na graduação e na pós-graduação. Seu projeto docente de ensino, pesquisa e extensão alia Gestão Democrática da Educação e Diversidade, com foco nas interseccionalidades de raça, classe e gênero, tendo a leitura literária como um dos eixos de atuação. Propôs e coordena o projeto “Aprender e ensinar a diversidade por meio da leitura literária”.

  • Graduanda em Pedagogia pela Faculdade de Educação da USP, especialista em Educação em Direitos Humanos pela UFABC. Produtora cultural pesquisadora das manifestações tradicionais brasileiras. Foi monitora bolsista do projeto “Aprender e ensinar a diversidade por meio da leitura literária” em 2019 e voluntária em 2020.

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